domingo, 12 de fevereiro de 2017

Vida indefinida até a morte




Existe um filme que no Brasil tem o nome de “O Enigma de Kaspar Hause” tendo sido baseado em fatos reais. É sobre um jovem encontrado numa Praça de Nuremberg, Alemanha, em vinte e seis de maio de 1828. Supostamente com quinze anos de idade ele foi deixado naquela praça com uma carta endereçada ao capitão da cidade explicando breve parte de sua história, um pequeno livro de orações entre outros itens a indicar que ele provavelmente pertencia a uma família da nobreza. Kaspar Hause, como era chamado, passou os primeiros anos de sua vida, aprisionado (ou ocultado) numa cela e não tendo contato verbal ou pessoal com outro qualquer ser humano. Por isso, nenhum idioma aprendeu para poder se comunicar. Seu cérebro era vazio de conceitos. Só decorou a palavra cavalo e a frase “quero ser um cavalheiro como foi o meu pai”. Nem andar ele sabia devido à sempre ficar sentado ou deitado sobre palhas de milho. À noite ele era alimentado apenas com pão e água e nem via o rosto do tal “benfeitor”. Por não ter conceitos, raciocínio e, talvez, nem pensamentos, ele era como se fosse apenas um objeto igual ao cavalinho de brinquedo que ficava ao lado dele. Depois de encontrado naquela praça ele se tornou um enigma. Quem era ele? De onde veio? Tinha uma descendência nobre? Por que não falava? A exclusão social de que fora vítima o privou da fala. Porém, logo lhe foram ensinadas as primeiras palavras e com seu recente contato com os seres humanos ele pode paulatinamente aprender a falar da mesma maneira que uma criança o faz.  Aprendeu a falar, a ler, a escrever e a se comportar. Conseguiu até escrever sua autobiografia. Obteve um desenvolvimento do lado direito de seu cérebro notoriamente maior que do lado esquerdo. Isso, teoricamente lhe proporcionou alguns avanços no campo da música. Sua fama espalhou-se pela Europa e na época ficou sendo conhecido como o “Filho da Europa”. Ele não gostava de comer carne e nem de ingerir bebida alcoólica, pois, por anos fora condicionado a comer apenas pão e tomar água. Enquanto esteve no cativeiro, Kaspar Hause era incapaz de sonhar. Também pudera como seu cérebro era vazio de conceitos, de fatos, de imagens e de fisionomias de pessoas, nada havia mesmo com o que sonhar. Depois de encontrado, como acima relatado, Kaspar Hause viveu por apenas cinco anos, pois, fora assassinado com uma facada no peito em 1833. Na lápide de seu túmulo escreveram “Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido”. A motivação e a autoria do crime jamais foram esclarecidas.
Deixando de lado as várias explicações psicológicas do fato narrado contidas em livros e na internet vamos adentrar numa polêmica. Fala-se muito sobre o fato de que quando reencarnamos, trazemos das reencarnações anteriores as nossas experiências. Quando alguém demonstra uma habilidade ou inteligência acima das dos demais, dizem que, esse alguém é possuidor de uma alma muito antiga, já evoluída devido suas muitas reencarnações. No caso do Kaspar Hause teria tido ele sua primeira encarnação e por isso não conseguiu se adaptar à sociedade de sua época, mesmo depois de ter sido, embora tardiamente, socializado ou civilizado? Muitos tidos como inteligentes por possuírem uma alma velha de inúmeras reencarnações, se tivessem tido o mesmo encarceramento do Kaspar Hause, duvida-se que seriam diferentes dele. Nessa situação, alma velha evoluída e experiente de nada serviria. Talvez isso esteja a significar que tudo é aqui e daqui. Nada tem a ver com inteligências e experiências de entidades vindas do além ou não se sabe de onde para aqui reencarnarem. Os seres humanos nascem com o cérebro vazio, sem pensamentos, sem imagens, sem diferenciações, sem comparações e sem compreensões. Aqui, logo adquirem a autoconsciência e a partir dela iniciam suas formações de conceitos. Assim vão formando suas individualidades e personalidades no viver social. Já foi dito que o homem também é um produto do seu meio e ele não consegue se evadir disso. Quanto à diferença entre os humanos, uns sendo mais inteligentes que outros, talvez, estejam na condição em como foram constituídos e tendo em consideração suas descendências, conforme as combinações genéticas paternas. Voltando a tese da reencarnação, como parece, a maioria dos seres humanos ainda desconhece que “tudo é mente”. É na mente que se realizam as nossas realidades e elas são conforme são nossas mentes. Muitas das concepções psicológicas são existentes apenas nas mentes do seres humanos se nada está a comprová-las como realidade acessível e indubitável para todos. A reencarnação, como ela é acreditada por muitos e por muitos ela é desacreditada, então, ela é teoria e como tal, ainda situa-se apenas na mente humana. Pra quem gosta de ação, o filme “O Enigma de Kaspar Hause” é monótono. Mais ele está para quem reflete sobre o que vê e o que ouve, para assim, ter suas deduções. Como tudo é mente, é nela que encontramos refúgio para nossas conclusões. Estas, sempre serão conforme a evolução de cada um.  Nisso está à discordância humana diante da compreensão dos fatos, sejam eles reais ou imaginários. Até a morte, muitas idéias e teorias sobre o depois dela, todas as imaginadas pelos homens ficam indefinidas.
Altino Olimpio
 Comentário
Não acredito seja dessa forma, Altino. As virtudes e aptidões podem ser bagagem espiritual, como também as apatias, demências e transtornos. Quando reencarnamos o “inconsciente adormece”, ou seja, as lembranças ficam arquivadas numa pasta que em condições habituais não temos acesso e vivenciamos a experiência atual de forma plena. As reencarnações são sequenciais, a inteligência, a moral, o caráter não se forma numa encarnação e se deforma na outra e tudo funciona em compassos e de forma evolutiva.
O rapaz em questão, algo houve em seu passado espiritual pra que ele fosse submetido ao abandono e causas houve para originar sua apatia perante a vida. É claro que somos frutos dos moldes da atual reencarnação, porém, o porquê de reagirmos dessa ou daquela maneira é devido à nossa bagagem espiritual. Não creio que qualquer pessoa em tal circunstância agiria da mesma maneira. Não. De acordo com o impulso espiritual,  uns tentariam a fuga, outros tentariam abordar o '”benfeitor”, usando artimanhas; outros enlouqueceriam, outros tentariam suicídio, etc, etc... Nunca sabemos nossa reação até precisarmos dela. Você fala em mente, eu falo em alma, (espírito encarnado).  O cérebro filtra, reflete a alma. Ele não é nosso condutor e sim, nosso veículo. Doenças, transtornos, maldade, bondade, tudo o que somos, sentimos e causamos são do espírito, com reflexo no corpo físico. Quando a doença se manifesta no corpo é porque o perispírito já foi contaminado antes. Reflexos e instintos comportamentais refletem o grau de evolução do espírito, mas, não podemos esquecer que ninguém evolui todos os sentidos ao mesmo tempo. Muitos evoluem na inteligência, mas, não na moral. Por isso confrontamos situações adversas na vida nas diversas encarnações. O espírito evolui também na espiritualidade, contudo, a encarnação, justamente por ter como ferramenta o esquecimento das vidas pretéritas, nos dá a condição  de sermos testados; somos constantemente testados, às vezes superando obstáculos, às vezes recaindo nos erros que certamente teremos que reparar, seja na mesma, seja em outra encarnação, seja na espiritualidade.
Sylvia Gatto