domingo, 16 de julho de 2017

Cocheira e política



Dizem que o nada ter a fazer, isso atrai lembranças que a gente ao se lembrar pode sentir prazer. Num dia assim vazio de necessidades me vi “vendo” a casa donde nasci lá no Bairro da Fábrica da Indústria Melhoramentos de papel do município de Caieiras. Meu olhar interior mais se focalizou no terreno, ou melhor, no quintal daquela casa. Como também era nova, construída em 1942, ela fazia parte da inesquecível Vila nova, embora se localizasse mais abaixo, na rua que ia dar numa outra vila, a Vila Leão. O quintal com uma leve subida era comprido. Terminava na cerca lateral do quintal da família do Senhor Amadeu Lucieto. Ele construía bacias, tachos, balde de lata vazia de óleo e etc., tudo bem soldado e resistente contra ferrugens. Já naqueles tempos de minha juventude ele também consertava rádios e por isso, tinha o apelido de Marconi. Só não sabia se ele os escutava depois que os consertava porque ele era surdo. Todos daquela Vila Nova o conheciam bem.

Não é sempre que cito nas crônicas o nome de alguém conhecido porque o dono deste Jornal “A Semana”, Senhor Edson Navarro, ele me enche o saco dizendo que é uma falta de respeito incluir nomes de conhecidos em crônicas, cujas histórias sejam ridículas ou vulgares. Numa ocasião lhe enviei uma crônica e logo ele me telefonou me admoestando:
--Você está louco?
--Eu? Louco por quê?
--Você escreveu “a cocheira do Hilário”. Seu burro! Certo é a cocheira do “cavalo” do Senhor Hilário. Por favor, não me crie complicações.
--Puxa-vida! Desculpe, nem me “toquei” sobre isso. Corrija, por favor.
Mas, ele não corrigiu e depois dessa conversa fiquei a pensar que a bronca foi descabida. Eu estava certo e não ele. Naqueles tempos em questão, todos daquele lugar, quando falavam daquela cocheira, falavam “a cocheira do Hilário” e nunca, repito, nunca falavam ‘a cocheira do “cavalo” do Hilário’. Também, quando o Senhor Hilário vendia ou ficava sem cavalo por uns tempos, a cocheira ficava vazia. Então se ele estava sem cavalo na cocheira, isto é, se a cocheira estava sem inquilino, então, ela só poderia ser a cocheira do Hilário. Mas, o Senhor Edson nunca iria entender isto.

Depois desse desabafo explicativo sobre quem tinha razão, se eu ou o Senhor Edson Navarro no entender de quem era a “cocheira do Hilário” (risos) fui mentalmente invadido por pensamentos úteis para a nação. Eu teria sido um advogado famoso para defender na “justiça” de hoje políticos vagabundos, corruptos, bandidos, ladrões e eles ficariam livres para continuarem com suas políticas de cocheira. Em outras eleições eles até poderiam ser reeleitos porque muitos eleitores domesticados apreciam e admiram os coices ladroeiros que o país recebe deles. Se algum político fosse acusado de possuir uma cocheira de luxo através de falcatruas, eu com minha lábia de advogado de defesa (com a argumentação igual a da cocheira do Hilário), eu contestaria “provando” que “uma cocheira sem cavalo não pode ser cocheira do cavalo” (risos).

Mas, voltando aos meus pensamentos sobre o lugar e na casa donde eu vim ao mundo sem querer e podendo me arrepender, no fim do quintal que terminava na cerca do quintal do Senhor Amadeu, meu pai vivia plantando bananeira. Mandioca e batata doce também. Lembrei-me de quando com um saco eu ia lá pra cima desenterrar, catar mandioca e batata doce para minha mãe e enchia mesmo o saco e eu voltava da horta com o saco cheio. À noite, diariamente depois da “Hora da Ave Maria”, a partir das dezenove até as vinte horas, quase todos daquele lugar “desligavam seus rádios” para não atrapalharem o programa “A Voz do Brasil” criado em 1935 denominado depois como “A Hora do Brasil” que era um programa nacional sobre política. Contudo, agora já está na “Hora do Brasil” reconquistar “A Voz do Brasil” que ficou muito tempo calada e por isso, “deu no que deu”.

Sem nada ter pra fazer o cérebro fica a se remexer no seu retroceder na memória e o agora fica sem sua hora para estar no presente que fica ausente da atualidade que sem novidade é um estado para se voltar ao passado e com ele parecendo criança se brinca com as lembranças que ainda estão na mente sem ser demente e que a gente guarda porque agrada na vida e ela se parece com novela embora com capítulos sem títulos assim com início e o fim quando a nossa sorte é a morte e então... Nossa! Esqueci do que estava “dizendo”. Ah, era sobre cavalo, cocheira, mandioca e políticos. Nada de interessante. Então é melhor eu me zarpar daqui.  Preciso arranjar alguma coisa pra fazer, senão, minha mente pode se poluir mais.

                                                                                        Altino Olimpio

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