quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A professora inesquecível

Minha amiga Maria Egna Mocelini Polimio me surpreendeu com o envio de uma fotografia antiga. Ela nem imagina a alegria que me proporcionou enviando-me a foto das professoras que lecionaram no grupo escolar donde nós nos diplomamos pela conclusão do curso primário da escola do lugar donde nascemos. Na foto as professoras estão num pequeno coreto que havia no terreno com um tímido jardim ao lado direito da escola. No feriado da terça-feira do dia da Proclamação da República do Brasil, ao rever a foto ela me transportou ao passado de quando na rua defronte a escola vi minha irmã Anita e outras meninas chorando. Perguntei-lhe porque estava chorando e ela só me respondeu: Não me enche, não me enche. Só depois fiquei sabendo que o choro fora porque era o último dia de aula para ela e para as outras meninas, e que nunca mais iriam ver a tão estimada professora, a Dona Silvia Brondy.
Dois ou três anos depois também eu cheguei até o “quarto ano” do primário e sob a “maestria” da Dona Silvia. Um “grande invento” da época já havia acontecido: A caneta esferográfica. Era de plástico amarelo transparente e se via por dentro um tubinho também transparente com tinta azul, que, era visível conforme ia se “gastando”, ou melhor, ia se acabando a tinta, mas, demorava. Antes dessa “novidade” e comodidade, para se escrever a tinta era preciso ter um tinteiro, isto é, um vidro de tinta. A caneta era um cabo de madeira com uma pena metálica encaixada numa das pontas. Repetidas vezes precisava “molhar” a ponta da pena no tinteiro para se escrever. E, para secar a tinta depois que se escrevia com ela no caderno, era preciso pressionar sobre o escrito um papel grosso “absorvente” de nome “mata borrão”. Mas, logo a pena se tornava inútil pelo seu manuseio e era preciso comprar outra. Era um espetáculo visual comprar outra lá no armazém. O “caixeiro” (vendedor) abria uma gaveta do balcão donde havia muitas de diversos tamanhos e modelos. No mais, eram claras na cor de metal, ou, amarelas como cor de ouro. Vê-las era agradável para a curiosidade infantil. 
Olhando para a Dona Silvia na foto ela me transportou para o passado e para aquela sala de aula donde semanalmente eu a via com o seu carisma contagiante. Eu a estou “vendo” agora pela memória indo de carteira em carteira para corrigir as lições de casa dos alunos. Entre outras lições, sempre havia quatro problemas de matemática. Como eu errava todos, com um lápis vermelho sempre a Dona Silvia escrevia sobre a lição da página do meu caderno a nota zero. Nenhum interesse eu tinha para ter problemas para resolver (risos). O meu interesse, normal e autêntico para a minha idade pueril era para o mundo que existia fora da escola e não na escola. Os dias ensolarados eram bonitos e musicados pelos cantos das cigarras. Eram coloridos pelas asas das borboletas pousadas nas flores silvestres e refrescante com a lagoa da “Vila da Ponte Seca” para se nadar. O futebol de rua ou de campinho era o expandir dos gritos dos meninos pelo “jogo de bola” tão competitivo entre as vilas do lugar. Empinar papagaio no morro, catar frutos na mata, como, goiaba para a mãe fazer doce com elas e outros entretenimentos da época, tudo compartilhava para o êxtase infantil e para as minhas notas zero da escola (risos). Elas perduraram por meio ano até quando eu quis e quando decidi me esforçar para melhorar “minhas notas” para poder “tirar o diploma” no fim do ano. Daí, minhas notas saltaram do zero para cem. Isso não foi comentado por mim e nem pela Dona Silvia como se o “inesperado” fosse assunto para alguma ocasião futura e veio mesmo a ser.
Naquela classe mista de alunos do quarto ano escolar, as meninas eram bem arrumadinhas. Os meninos nem tanto. Quase todos, inclusive, compareciam à escola, descalços e vestindo calças curtas. Era costume da época e nada tinha a ver com pobreza. Entretanto, quando chegou ‘aquele fim de ano’, ele trouxe a ansiedade e o nervosismo para “enfrentar” os exames que iriam avaliar quais alunos teriam condição de “passar ou repetir o ano”. Para isso o dia da tortura chegou (risos). Muita concentração aos exames naquele dia. O silêncio esteve propício até para meditar. Interessante, meninas e meninos, todos foram bem nos exames. Até aqueles “atrasados”, assim como eram conhecidos e que, a Dona Silvia os ajudou para não errarem nos exames que iriam qualificá-los para obterem seus diplomas. Então... No último dia de aula, lembro-me tão bem de quando a então professora Dona Silvia Brondy, de costas para a parede donde estava a lousa e de frente para os alunos, de pé e encostada em sua escrivaninha, ela se pôs a dar conselhos para os alunos nunca se descuidarem do que aprenderam na escola. Principalmente para aqueles que ela previa que não mais iriam estudar e para aqueles tidos como tendo muita dificuldade em aprender e, até foi citando os nomes deles. Como ela não citou o meu nome, algumas “meninas bonitinhas” fizeram-lhe o favor de citá-lo. A Dona Silvia significando o “não” com o agitar do dedo indicador de uma das mãos me “socorreu” (risos) e lhes disse: Não, ele não! Ele até superou muitos dos que estão aqui.  Ouvir tal testemunho foi animador para o meu ego.
A solenidade da entrega dos diplomas para os alunos daquele 4º ano escolar foi em dezembro de 1952 e ocorreu no salão do cinema do então Bairro da Fábrica de Papel de Caieiras, pouco tempo antes de ele ser destruído por um incêndio. Igual a outros, nunca mais vi a Dona Silvia e ela por ser como era, meiga, responsável e atenciosa deixou muitas saudades. Deixo aqui o “link” de um samba antigo que homenageia as professoras e nos recorda delas:
                                                                                       Altino Olimpio