sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O médico nazista também viveu no paraíso


Ah então você gosta de serelepe? Vou te convidar para um pic-nic lá no Espia Fogo da Vila do Tico-tico. Sempre eu via serelepes por lá e como eram rápidos seus movimentos pelos galhos das árvores. O que também tinha muito por lá eram cobras venenosas. Para lá ir se passava pelo bangalô dos alemães da Indústria Melhoramentos de Papel de Caieiras. Aquela estrada que passava pelo bangalô era de terra ladeada por coqueiros cujos coquinhos que caiam ao chão o amarelavam. Antes de chegar àquela estrada romântica, vindo do Bairro da Fábrica havia aquele caminho entre matas que passava, onde à esquerda havia o alto paredão de pedra, que para nós tinha o nome de “pedreira”, onde abaixo dela e ao lado tinha a casa onde morava o Francisco (ele tinha o apelido de sultão).  Numa ocasião lá em cima daquele enorme paredão de pedra, na mata e no plaino que tinha lá, eu chorei muito. Não, não foi por ter levado o fora de alguma namoradinha. Fui ferroado por muitos marimbondos que me atacaram covardemente. Hoje, lá no Velório de Caieiras revi pessoas que fazia tempo que não via. Algumas tinham parentesco com o alemão, Sr. Henrique Dick, chefe do laboratório (Seção Verificação) donde eu trabalhei. Devido a alguma semelhança e sem ele saber o apelido dele para poucos era Randolph Scott, nome daquele “mocinho” dos filmes de faroeste do passado.  Ainda me lembro da Suzana, filha dele e de quase todos da vizinhança donde o Sr. Dick morava, incluindo o Sr. Walter Kohl, também morador daquele lugar próximo da Capela de São José que ficava lá no alto e na frente dos eucaliptos que sombreavam por lá. “Se não me engano” (risos), incógnito e bem disfarçado de inocente, naquele local também morou por uns tempos o médico nazista Josef Mengele, o anjo da morte do Campo de Concentração de Auschwitz. Agora na saudade daquele lugar... "Eu cheguei em frente ao portão; Meu cachorro me sorriu latindo; Minhas malas coloquei no chão; Eu voltei; Tudo estava igual como era antes... Eu voltei agora pra ficar, porque aqui; Aqui é o meu lugar..." Ah, caramba, esqueci que "aquele lugar não existe mais, demoliram tudo (risos). Mas aquela sorveteria do Sr. Alfredo Satrapa que ficava lá no Filtro Rein e na rua onde morava o Sr. João Satrapa, minha nossa, que delicia que era. Pegava-se um sorvete e se ia na cerca de arame farpado donde abaixo estavam três enormes tanques d'água que ali eram tratadas. Pronto, os olhos internos da Egna agora estão revendo aquele lugar (risos). Será que o Nelson, teu marido, Egna, conheceu aquele paraíso?

Altino Olimpio


Que saudade eu tenho daquele tempo quando a gente ia passear na pedreira, lembro muito bem do bangalô, quantas vezes consegui passar pela cerca para tentar ver o que tinha lá dentro. Eu gostava de me aventurar entrando um pouco no mato mais fechado, isso quando eu ia com o meu pai procurar orquídeas que eram a paixão dele, lá a gente via passarinhos, um mais bonito que o outro. Lembro que uma vez vimos uma saracura com uma porção de filhotinhos e, quantas cobras a gente via sobre as pedras tomando sol, serelepes muito espertos, passando rápidos pelas árvores. Só não me lembro desse Espia Fogo, aliás, nunca tinha ouvido sobre ele, li a respeito em um texto que a Vera de Freitas escreveu. Ainda bem que nunca fui picada por marimbondos... Lembro da família Dick, da Suzana que também estudava conosco na mesma classe da escola, Lembro do Walter Kohl, da sorveteria do seu Alfredo... Quem sabe até a gente tenha conversado com o Mengele...
As lembranças são tantas que se fosse escrever, ficaria aqui a noite toda digitando. Foi muito bom relembrar!

Egna Mocelini Pomilio


Informando, só agora recebi esta tua mensagem. O "espia fogo" Egna, lá no alto era uma casinha ou construção de madeira muito bem feita contendo um telefone de manivela. Era para servir de aviso quando algum incêndio acontecia nas matas da Indústria Melhoramentos. De lá, à esquerda, se avistava uma pequena parte do Bairro de Perus. Numa das ocasiões que estive lá, bem ao lado daquela casinha vi uma cascavel sob o sol tirando uma soneca. Eu a matei com uma estilingada certeira na cabeça dela. Coitada, ela nem teve tempo de acordar para morrer. Disso muito me arrependo. Foi "coisa de moleque". Estando lá entre matas, serelepes e cobras, no silêncio do espia fogo parecia que se estava num lugar do fim do mundo. O lugar era muito agradável para se sentir numa calmaria e no sentir de não ser aquela importância que pensamos ser entre  aquela integração com a natureza quieta onde tudo lhe é igual sem distinções especiais.

Altino Olimpio