segunda-feira, 23 de maio de 2016

Uma história de amor




Uma história de amor

Sobre aquele dia escondido no tempo de lá do passado, não me lembro se viajei para aquela cidade do interior pelo ônibus da Viação Cometa, do Expresso Brasileiro ou pela Viação Pássaro Marrom. Sim, naquele sábado, trajado com terno e gravata, na Rodoviária de São Paulo, comprei passagem para ir para qualquer lugar. Sem se importar aonde o destino iria me levar, na viagem mais eu era o desperceber donde estava. Olhando pela janela do ônibus, meu olhar se perdia na paisagem sem apreciá-la. Eu estava muito chateado, triste mesmo. Vi a moça que eu tanto gostava aos beijos com um amigo meu. Que decepção e o amigo sabia o quanto eu gostava dela. Desilusão, como ela doía e eu não sabia. Distraído nem percebi quando o ônibus estacionou na principal praça daquela cidade. Era bonita, tinha coreto e até fonte cujos esguichos d’água se cruzavam ao se encontrarem no ar. Desembarquei do ônibus e a primeira coisa que fiz foi me ambientar com o lugar. Vi a Matriz, vi o cinema, a sorveteria, lanchonetes e vitrines de lojas já fechadas. Poucas pessoas circulando pela praça. O entardecer já havia ocultado o sol para logo vir o escurecer e com ele a lua aparecer. Eu já havia visto a lua estando bem longe de casa e em outra cidade. Não sei explicar como eram os sentimentos de vê-la, se eram de solidão, melancolia, de se sentir na distância ou mesmo de uma tristeza sem explicação. E foi nas minhas divagações que a noite chegou. Que surpresas ela iria me trazer? Lá estava eu para facilitar o destino a decidir meu futuro com alguém que eu não sabia quem. A praça antes solitária já contava com a companhia de muitas moças e rapazes surgidos para, como eu, em busca de sensações. A fonte luminosa que esteve em silêncio se tornou sonora emitindo cores que se substituíam enquanto músicas românticas se repercutiam. Ouvindo-as de perto, elas me provocaram o sentir de um vazio interior. Parecia que eu não tinha sorte com as namoradas. Esse pensamento me veio e para não lhe dar continuidade voltei a apreciar o movimento da praça. As moças, muitas delas todas sorridentes circulavam em volta da praça e os rapazes circulavam de encontro a elas, em direção contrária para ambos se verem de frente. Que flerte romântico! O aroma que se sentia era o de pipocas quentinhas quando aquelas moças me fitavam sorrindo sabendo que eu era um rapaz de fora, isto é, não era do lugar. Dentre tantos rostos vistos, tanto eu queria ver o de alguém especial. As voltas ao redor da praça se repetiam sempre com as mesmas moças, algumas se insinuando para uma aproximação e eu ainda esperando aquela especial. Talvez não fosse o meu dia de sorte e... De repente eu a vi! Nossos olhares se cruzaram. Meu coração, eu o senti bater mais forte. Ela não era uma moça como as outras. Ela era uma fada. Como podia uma beldade como ela estar livre num sábado à noite e numa praça? Como seria possível ela não ter namorado? Que ansiedade! Eu tinha que revê-la na próxima volta pela praça e o pensamento de não mais vê-la me atormentava. Lembrei-me de quando estive na Praça da Cidade de Bragança. Muitas moças bonitas por lá, mas, mais ou menos pelas vinte e duas horas, como por desencanto, elas desapareciam da praça e a gente que muito escolhia uma entre tantas, ficava só e “chupando o dedo” na praça vazia (risos). Entretanto, felizmente reencontrei aquela fada, me aproximei e convidei-a para conversar. Ela diminuiu o movimento de seus passos como se já estivesse me esperando. Suas amigas se afastaram na cumplicidade de nos deixar mais a vontade para melhor conversarmos. Depois de nos apresentarmos (eu não conseguia desviar o meu olhar dos olhos dela) ela me disse que sua intenção era só dar uma volta pela praça, pois, logo mais iria a um baile com os seus pais. Mas, resolveu dar mais uma volta, porque, simpatizou-se comigo e ficou com a curiosidade de me rever. Ela já estava tentando se despedir quando implorei para que ficasse na praça um pouco mais. Disse-lhe, por favor, não se vá. Por favor, fique mais um pouco aqui comigo. Não posso, disse ela, tenho que ir ao baile com meus pais e eles já estão me esperando. Insisti dizendo-lhe também quero ir, onde é o baile? Por favor, dá pra você entender que quero continuar a te ver? Continuar a ficar com você? Como não consegui persuadi-la acompanhei-a até uma esquina e lá nos despedimos com a promessa de nos revermos no baile. Voltei pra praça para me alimentar numa lanchonete e fiquei contando os minutos como para empurrá-los para eles passarem mais depressa. Finalmente chegou à hora de ir ao salão do baile. Não longe da praça, quando lá cheguei o baile já havia começado. Logo a vi quando ela também me viu e comentou algo ao seu pai que também ficou me fitando. Logo me aproximei e tirei-a para dançar. Aqueles cabelos longos e escuros, aqueles olhos verdes, aquele sorriso, aquela meiguice de sua feminilidade eram de enlouquecer. Eu já estava perdidamente apaixonado. Dançamos várias seleções musicais ao som da excelente orquestra que lá se apresentou naquele dia. Numa pausa da orquestra fui até onde ficava o bar para tomar um refrigerante. Lá já havia uns rapazes e deles ouvi várias indecências contra minha pessoa. Não pude reagir, pois, sozinho não poderia enfrentá-los. Eles eram do lugar e deviam estar enciumados por eu “ser de fora” e estar “dando em cima” de uma moça da cidade deles. Desconsiderei aquelas provocações e voltei para o baile, para os braços da única dama que meus olhos viam naquele salão. Fomos toda a emoção, todo o carinho e toda a felicidade que qualquer pessoa pode desejar até a orquestra tocar a última música do baile e quando a pedi em namoro e ela me aceitou. Naquele estado de alma exaltado nos despedimos com o compromisso de nos revermos no próximo sábado. Voltei para a praça para esperar o amanhecer e embarcar no primeiro ônibus de volta para casa. Sentei-me num banco mantendo na mente aquele rosto, aquele sorriso e aqueles olhos verdes daquela que deveria ser a mulher da minha vida. Até me via casado com ela e já com os nossos ainda pequenos filhos reinando pela nossa casa. Interrompendo minha imaginação, três cachorros abanando os rabos de mim se aproximaram. Pareciam cachorros abandonados, mansos que eram acariciei os três. Outro cachorro enorme apareceu e teve início uma briga entre eles. Tentei separá-los e foi quando aquele enorme cão me mordeu. Gritei e gritei de tanta dor e de repente aconteceu uma transformação, uma desgraça... Os cachorros sumiram... A praça desapareceu... Foi quando me vi em casa, no meu quarto e escrevendo pelo computador.  Não vi nenhum amigo beijando uma moça que eu gostasse. Não existiu aquela viagem a uma cidade do interior lá no meu passado. Não estive naquela praça encantada procurando o amor da minha vida. Em nenhum baile fui onde me apaixonei por uma fada. Isso não existe. Tudo não passou de uma imaginação engendrada para o meu passar do tempo de domingo. Contudo neste texto “dei” uma idéia de como o passado era mais romântico. Moças e rapazes tinham mais oportunidade de se encontrarem numa praça, com mais possibilidades para namoros “sérios” terminando em casamento. O advento da televisão no início da década de cinquenta do século passado veio para prejudicar os vai-e-vem de jovens em busca de romances nas noites e nas praças das cidades. As moças se produziam e saiam pelas praças com a clara intenção de serem notadas pelos rapazes. Isso tinha o nome de “footing”, que, no idioma inglês tem o significado de “ir a pé”. A televisão com seus programas, no mais das vezes, imbecís, incluindo programas em capítulos diários (novelas) sequentes até aos sábados, isso, parece que mais veio para “prender” pessoas em suas casas, esvaziando as praças, clubes e desfavorecendo as oportunidades de encontros para namoros. Hoje, nas noites de sábados e de domingos as praças ficam vazias. Perderam toda aquela atração de outrora. Os rapazes de hoje não mais têm a ilusão de se deslocarem para as praças das cidades do interior atrás de aventuras, porque, por lá só encontrariam a solidão. Mais fácil seria encontrarem grupos de jovens “craques” em footing pelas contagiantes alucinações.


                                                                                         Altino Olimpio