sexta-feira, 20 de maio de 2016

Catar pinhão


Naquele lugarejo mantido por uma fábrica de papel tendo só ruas de terra, tendo só gente boa nas casas quase todas parecidas, tendo um rio para quem quisesse passear de barco e pescar, lugar dos muitos pés de mamonas, goiabeiras nas matas e abacateiro em quase todos os quintais das casas e outras árvores frutíferas, pássaros e borboletas em profusão, cantos das cigarras repercutindo pelos dias de sol de verão... Que lugar esplêndido de rapazes e moças bonitas. Minha irmã Anita e amigas, uma vez tinham ido num passeio para catar pinhão. Plantações de pés de pinhão (araucárias) da indústria de papel do local tinham muitas ao derredor daquele lugar místico. Mesmo em dias claros, era sombrio e escuro por dentro daquelas plantações que ocupavam áreas enormes de terreno. Também eu com algum amigo e com meu cachorro várias vezes fui buscar pinhão. Levava uma sacolinha de pano (bornal), estilingue e muitas pedras nos bolsos da calça. Embrenhava-me pela selva de araucárias me desviando de matas baixas que tinham espinhos, como, os pés de amoras silvestres ou selvagens. Caminhando por entre os troncos dos altos pés de pinhão, vez ou outra se encontrava esparramado pelo chão, pinhões que haviam caído de lá de cima da copa da árvore “pinhoeira”. Era de provocar uma emoção, embora simples, o achar, ver pelo chão aqueles comestíveis amarelos espalhados. Naquele frescor das sombras e naquele silêncio arborizado, a vida se interiorizava com a natureza acrescentando mais paz interior. Os pensamentos sobre quaisquer outros fatos da existência desapareciam. A vida não era outra coisa senão o catar pinhão. Uma real higiene mental! Quando não havia pinhões pelo chão era preciso derrubá-los lá do alto da copa de suas árvores. Era preciso explodi-los quando se encontravam unidos formando uma bola bem redonda. Para acertar a “bola” só se conseguia com uma estilingada. Era preciso ter boa mira para acertar. Quando se acertava... Póóóóóóóóó era o barulho que se ouvia do espatifar da bola antecedendo a queda espalhada dos seus pinhões. Ai era só catá-los pelo chão. Mais de uma vez trouxe aquele bornal recheado para casa. Era trabalho para a mãe ter que cozinhá-los. Hoje, já estando velho, quando me concentro para enviar boas vibrações mentais para outros (até parece), me “bate” uma grande tristeza pelas muitas pessoas que nunca em suas vidas foram catar pinhão (risos). Elas nem imaginam o que perderam por não terem ido. Elas nunca souberam o que é conversar com árvores. Eu também nunca soube (risos).

                                                                                Altino Olimpio
            
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Futebol com melancia


Há anos, uma vez por mês vou até um restaurante da Avenida Paulista de São Paulo para um almoço, reunido com a “Turma dos Mais de Cinquenta”. Depois de ter almoçado e saboreado várias sobremesas, como sempre, deixo pro fim degustar os pedaços de melancia. Sentado junto a mesa com amigas e amigos de ambos os lados e defronte, naquele tanto “zum zum” das conversas e risos, ao mirar “meus pedaços” de melancia no prato para degustá-los, uma forte lembrança se apoderou de meus pensamentos. “Aquele dia do meu primeiro pedaço de melancia...” Quedei-me absorto inconsciente de tudo e de todos que estavam naquele ambiente. Distraído, mentalmente ausentei-me daquele lugar alegre e me vi distante, lá no passado criança, num dia de domingo, no clube de esportes do lugarzinho donde nasci e me criei. Sob o forte sol havia jogo de futebol. Como sempre, tinha presente muita gente conhecida do lugar. Arquibancada lotada, mas, a maioria sempre ficava lado a lado pela extensão das cercas laterais do campo de futebol que era de ripas de madeira pintadas. O clube, frequentado por famílias, ele era a única atração e distração local. “Naquele dia” estava eu junto à cerca onde era o barranco de um dos lados da arquibancada vendo o jogo do alto, quando, abaixo e a minha direita, por detrás da trave do gol, num espaço plano com gramas misturadas com vegetações rasteiras, foi onde aquele caminhão estacionou. Que havia naquele caminhão? Por que pessoas se aproximaram dele? A curiosidade infantil me fez ir até lá para ver e vi. Na carroceria do caminhão havia o que eu nunca havia visto, muitas melancias e dois homens as estavam cortando em pedaços para vender.   E eu menino fiquei “com água na boca” vendo pessoas mordendo pedaços daquela fruta vermelha. Que gosto ela teria? Como também tanto desejei um pedaço daquilo! Mas custava “quinhento réis” (cinquenta centavos) e eu não tinha. Mas eu queria e queria e então... “Pernas pra que te quero”. Sai de lá correndo sem parar todo afobado até chegar em minha casa para pedir dinheiro pra minha mãe e ela me deu. Ufa, que alegria. Outra vez em disparada voltei ao clube temendo que o caminhão já pudesse ter ido embora. Mas, não! Lá ainda estava ele. Comprei e desfrutei da delícia do meu primeiro pedaço de melancia. Com a casca verde por fora e com o que seria seu núcleo, o vermelho pigmentado por sementes pretas. Como era fácil ser feliz naqueles tempos. Naquele dia a felicidade estava num pedaço de melancia (risos). E, na lembrança daquele dia e do percurso que percorri ida e volta para buscar dinheiro em casa, revi as ruas por onde correndo passei, como também, revi quase todos os seus moradores que eu conhecia tão bem. Ah aquele lugar... Todos tinham as mesmas condições para viver naqueles tempos de quando se era pobre sem saber que se era. Retornando do passado para o presente voltei a ser sorrisos e atenção para os amigos do almoço. Eles, tão presentes no presente, conversando e distraídos como estavam, jamais perceberam que por alguns momentos, não estive lá com eles mesmo lá estando


                                                                                          Altino Olimpio 

Mistérios insolúveis


Muitas idéias foram formuladas sobre a vida do homem e o propósito dela. Mas, o mistério da vida é inacessível ao pensamento comum, ordinário. Esforços existiram e eles ainda existem para o homem se apoderar do compreender das causas que antecedem o efeito que culminam na criação dele. Essa questão não está à altura de qualquer pensador comum resolver e nem à altura de qualquer “tida autoridade” sobre esse tema, o mais complexo. Os seres humanos nascem, vivem e até suas mortes suas dúvidas os acompanham. Se Deus existe de fato, se existe alma e se ela é imortal. Comprovação, mesmo, inexiste para ser certeza inabalável, embora, muitos atestam tais existências como sendo certificadas pela fé, ou mais pelas suas convicções pessoais. A alma é a coqueluche das religiões. Sem ela não se poderia especular sobre outro plano de existência onde ela teria punições ou recompensas pelos seus comportamentos enquanto encarnada. Nisso, sobre a existência incorpórea, suposto está que a existência “espiritual” é que é a real. E a existência corporal serve apenas para ser o invólucro (corpo) para a alma poder ser e se manifestar neste plano material e objetivo.  Contudo, também, muitos vivem até morrer na certeza da existência de Deus, da alma, do céu dos falecidos e etc. Tudo isso é ensinado pelas religiões, pelos seus expoentes “credenciados” para isso, embora, sem mesmo eles nunca terem vivido as experiências extracorpóreas que ensinam a outros. Eles também aprenderam “o que sabem ou pensam saber”, provenientes de histórias do passado contidas em literatura sagrada. Então, muito fica pelo “faz de conta que é”. Mas, os fiéis, devotos para aprender nunca duvidam do que lhes é ensinado. Por isso, suas certezas inculcadas por outros seguem confortáveis até suas mortes. Continuar a existir depois da morte é mesmo um conforto. Só é uma pena que a alma não possa comer um delicioso pudim, chupar sorvete, saborear uma boa feijoada com uma cerveja gelada, votar, transar gostoso e etc. (risos). Talvez, muitas almas até que apreciariam “desmorrer” para poder voltar a viver com os seus corpos para com eles poder usufruir dos seus anteriores prazeres terrenos, decepcionando assim, com seus retornos a terra, o anfitrião do céu (risos). Quanto aos mistérios da vida, os homens sempre se utilizaram da imaginação para não deixar em branco o conhecimento do destino final deles.  Daí proveio à concordância quase geral sobre o existir de uma existência extraterrena para a morada dos desencarnados.

                                                                       Altino Olimpio