sábado, 9 de abril de 2016

Somos o que não somos

  
“A ininterrupta atividade da mente está para se fugir da simplicidade dos momentos presentes sem atrativos para quem muito já viveu”. Interessante! O tédio que aflige muitas pessoas nesta época bombardeada por tantas informações pode encontrar refúgio na conectividade da mente com o passado mais romântico, mais atraente. Quando se está a sós, sem ter no que pensar, os pensamentos se pensam por si mesmos. Eles são o passado sempre presente nos presentes. Um após outro eles são sequências querendo atenção. Numa profusão constante, os pensamentos são mensageiros da memória. Pensamentos vêm e vão. Eles se substituem até quando um deles tenha maior chance de se fixar na mente por mais tempo que outros. Isso ocorre na lembrança de um fato mais importante e emocionante. Seguir o pensamento dessa lembrança, do início ao fim, conforme aconteceu no passado, “isso é o anular da percepção do estado presente, temporariamente”. Sendo assim, o fato lembrado, tendo sido agradável ou não, ele esteve a preencher o vazio do presente se presente só lhe estava à monotonia naquele “não há nada pra se fazer”. Sobre nossos pensamentos já ouve quem escrevesse que não somos quem pensamos. Sobre esse tema, algumas instituições esotéricas também sugerem não sermos quem pensamos ser. Mas, quando pensamos em quem somos, somos a retrospectiva de toda a nossa vida de até então. Lembramos de nossa antiga casa, de nossa infância, de nossos pais, irmãos, parentes, amigos, escolas, profissão, namoro, casamento, alegrias e decepções, entretenimentos e etc. Tudo esteve a ser o nosso condicionamento. Condicionamento é a nossa programação mental (cerebral) desde o nosso nascimento. Nosso modo de ser, de pensar, de desejar, de entender, de gostar ou desgostar está relacionado conforme tenha sido o nosso condicionamento até o presente. Se não somos o que pensamos, se não somos o resultado do nosso condicionamento, existiria algo mais para identificar quem somos? Este assunto não é novidade e nem estranho para a minoria daqueles ávidos na busca para obter conhecimentos para os seus desenvolvimentos mentais, conceituais. Entretanto, tal assunto é estranho para a maioria do apenas “existir por existir”, também dos devotos religiosos. As instituições esotéricas consideram como “seres humanos comuns” todos os desleixados com as suas evoluções psicológicas e místicas. Se tal evolução existe e possa ser alcançada, aqui não está sendo considerado o seu mérito. Entretanto, existem ensinamentos para excluir todos os pensamentos durante meditações. Essa ausência de pensamentos, se conseguida (é quase ou mesmo impossível), ela é seguida pelo “nada se pensa, portanto nada se tem e nada se é” que seria a “alma” destituída de todo o nosso condicionamento durante nossa existência terrena. Isto seria “o algo mais” a identificar quem nós somos, conforme acreditam os estudos esotéricos, isto é, somos o que está por detrás ou subjacente a todas as experiências vividas que contribuíram para a formação de nossa personalidade. No entanto, não é propósito destes escritos virem a filosofar sobre teorias ou fatos decorrentes de nossa existência, se ela é conforme pensamos ser ou não. No início estivemos a considerar a constância dos pensamentos para a útil interrupção ou interferência na simplicidade e na monotonia dos momentos dos nossos estados presentes. A frase do filósofo René Descartes (1596-1650) “penso, logo existo” deveria bastar para as nossas curiosidades. Mas, não! O homem necessita desvendar os mistérios que o preocupa. Mas, vários deles “desvendados” não passam de serem apenas especulações. E assim, de especulação em especulação a vida passa. Acreditar nelas sem a devida reflexão ou precaução é mesmo habitual entre as pessoas irrefletidas, elas, sendo da maioria, principalmente nesta época.

                                                                                   Altino Olimpio