terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Saudades da natureza



Aquele lugar tão gracioso me viu chegar
Viu-me nenê a ser menino e a crescer
Crescido fui moço como foram outros
De criança até ser grande eu era o explorar
E me encantar dos cantos e recantos
Daqueles locais que foram o meu lar
A casa que eu morava e todas as outras
Eram parecidas e pouco se diferenciavam
Na minha tinha jardim inclinado com grama
Onde era plano havia um cercado de buchinho
Cercando pés de rosas plantadas dentro dele
Minha rua era de terra como lá todas eram
Do outro lado dela tinha uma cerca
A mata por detrás dela escondia o barranco
Onde tinha bananeiras plantadas até perto do rio
Lá sentado na margem observando sua correnteza
Ela me interiorizava distraído em devaneios
Surgiam curiosidades do meu viver e de como eu era
Os postes da rua tinham iluminação fraca à noite
E as mariposas rodeavam suas lâmpadas fracas
E assim se distraiam na luz do afastar da escuridão
Durante o dia o sol era um banhar de calor e luz
Ele era a alegria para as borboletas coloridas
No bater de suas asas eram lentas ao voarem
Muitas vezes as vi imóveis em flores silvestres
Elas pareciam existir para embelezar o mundo
As mamonas verdes com seus cachos de bolinhas
Tinham seus espinhos moles que não espinhavam
Eram o pousar dos pássaros tizius a pular e a cantar
Eu vi fortes chuvas que deixavam poças na rua
Como o Narciso também eu me espelhei nelas
Entre raios e trovões ouvi minha mãe falar alto
Diante de a vela acesa repetir o nome Santa Bárbara
Era para o acalmar da tempestade de granizo
Tinha o nome de chuva de pedra
Elas embranqueciam o chão da horta
Uma a uma colocadas numa caneca com açúcar
As pedrinhas de gelo eram sorvetes da natureza
Quando a chuva se enfraquecia e ia embora
O sol que estava escondido reaparecia
Para brilhar em cores nos pingos de chuva pelo ar
Que restaram para formar as cores do arco-íres
Em casa o abacateiro era o refúgio das rolinhas
O pé de amora sempre atraia sabiás e sanhaços
E o de caqui era o preferido pelos colibris
Lembro-me do cachorro Lulu e do gato amarelo
Meu companheiro o Lulu era preto e branco
Esperto o gato cego de um olho roubava alimentos
Minha mãe sempre o expulsava da cozinha
Contudo... O tempo a passar a tudo faz mudar
Chega à adaptação ou à inevitável imitação da vida
Da vida das responsabilidades sociais exigidas
Ser mais um no mundo dos escravos do ter e do ser
E só existir no como e no que a humanidade está a existir
Vivendo mais na humanidade e distante da natureza
Adeus bananeiras do barranco e do rio devaneio
Adeus meus espelhos de poça d’água da chuva
Adeus as borboletas e ao Lulu e ao gato amarelo
Adeus pedrinhas de gelo sorvete da chuva
Adeus ao se admirar com as cores do arco-íres
Adeus à inocência dos meus primeiros tempos
Os tempos de agora não são como os de outrora
Parece existir apenas para o passar das horas
Neste mundo onde o viver está tão tumultuado 
E faz saber que a natureza está por fora
Das agruras que neste mundo vigora
A natureza sempre esteve para o bem da humanidade
E a humanidade é o maior mal para ela
Natureza e seres humanos são antagônicos

Altino Olimpio