quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Saudades dos bailes de outrora

Esquecido no guarda-roupa estava um livro (talvez o penúltimo) de atas do antigo Baile da Saudade do Clube União Recreativo Melhoramentos de São Paulo, da Cidade de Caieiras. Primeira ata do livro conforme está escrito:
“Ata da reunião ordinária realizada no dia 20 de maio de 1964 com a presença dos senhores diretores foi aberta a sessão as 19,30 horas.
Nesta reunião ficou resolvido enviar ao club da saudade do Brasil F. C. convite para o nosso baile. Em seguida foi lida a correspondência recebida dos senhores Pedro Godói, Carlos Generali, Artur Del Porto, Alfredo Casaroto, Luiz Nani, Pedro Dal Osto, Nerio Boreli, Jorge Dias de Moraes, Jaime Crispim, todos pedindo demissão, que foram concedidas ficando nosso diretor artístico encarregado de contratar músicos. Nada mais havendo a tratar encerrou-se a sessão as 21,00 horas”.
Secretário Stephan Kiss
Presidente Rubens (Não consegui decifrar o sobrenome, seria Crispim?).

Terceira ata do livro: “Ata da reunião ordinária realizada no dia 17-10-64 com a presença dos snrs diretores as 20,00 horas. Foi lida e aprovada a ata anterior, em seguida foi lida a correspondência recebida dos snrs José de Araujo, Nivaldo Soares, Nicolau Cardoso, Antonio Melo, José Osvaldo Polkorni, Nelson Calandrini. Todos com propostas para ingressar no nosso quadro social, que foram aceitos. Do snr Oswaldo Crispim pedindo sua demissão. Em seguida foi lido o balancete que foi aprovado. Ficou resolvido enviar ao senhor João Menegati, agradecendo seu donativo de Cr$ 20.000,00 uma carta. Sem mais a tratar encerrou-se a reunião as 22,00 horas”.
Secretario Stephan Kiss 
Presidente Rubens… (outra vez não consegui decifrar o sobrenome)  

Infelizmente, aqui não serão citados nomes de muitas pessoas muito conhecidas em Caieiras e que constam nas demais atas. Isso porque em muitas atas existe dificuldade para lê-las e como visto nas duas atas acima reescritas na íntegra nem constam os nomes dos diretores do clube.
Uma curiosidade na ata de 5-3-65: O Odair Donas solicitando o empréstimo de 200 copos para a festa de seu casamento. Também eu tive o prazer de participar da diretoria do Clube da Saudade de Caieiras, cujos bailes foram realizados no salão ou caramanchão do Clube União lá no Bairro da Cerâmica: “Ata da reunião do Clube da Saudade realizada no dia 31 de janeiro de 1973. A mesma teve seu início às 20,15 horas, com a presença de sua nova diretoria assim constituída: Presidente Odecio Gardim, Vice Miguel Rodrigues, 1º tesoureiro Mauro Pelizari de Souza, 2º tesoureiro Durval Barbosa, 1º secretário Leonel Del Porto, 2º secretário Plácido Cunha, Diretores de Patrimônio e Social Altino Olimpio e Eduardo Pinto cunha (o Sucuri). Essa mesma diretoria foi reeleita para 1974 com o Mauro P. de Souza sendo o presidente no lugar do Odecio Gardim”.

No início essa diretoria foi criticada pelos diretores fundadores do clube por não mais exigir que a orquestra do Senhor Sergio Valiosa tocasse músicas de ritmos bem antigos, como, maxixe, xote, baião, chorinho, valsa e etc. Tais ritmos mais eram para as pessoas já bem idosas. Outra curiosidade (ou maldade) era o apelido de Baile do PM (Baile do Pau Mole, risos), apelido este dado pelos mais jovens do lugar, mais por causa dos ritmos muito antigos “dos bailes do tempo do onça” que só os muito mais velhos é que sabiam dançar. Também, à meia-noite o baile era interrompido para os associados se alimentarem. Tudo era servido em duas ou três fileiras de mesas bem compridas e por isso os sempre brincalhões de plantão do lugar diziam que era a hora de se comer no cocho (risos). Essa e outras “intelectualidades” fizeram parte da história local. Eta cidadezinha de gente sempre pronta para criar situações cômicas onde nada de cômico existia (risos).

Nas duas gestões em que participei da diretoria do clube, nós já servíamos, à meia-noite, os lanches ou refeições sobre mesinhas individuais e por isso não havia interrupção nos bailes. Os repertórios musicais com ritmos para dançar mais atuais como, samba, mambo, rumba, valsa e bolero, promoveram mais animação aos bailes. Casais mais jovens foram atraídos para o quadro de sócios do clube. Isso nos fez limitar também o número de sócios, recusando outros interessados por causa da estrutura simples de que dispúnhamos. Sócios a mais poderiam superlotar o salão de baile e por isso tínhamos uma quantidade considerada certa (mais ou menos 100) para poder bem administrar o clube. Terminando, as atas do livro terminam na página cem, na data de 9/6/1976 com a diretoria do clube constituída pelos seguintes senhores: Lourides Del Porto, Nivaldo Soares, Fiorelo Rosolem, Odecio Gardim, Raul de Oliveira, Leonel Del Porto, Paulo Pinho e Rafael Coccuza. Outro livro de atas deve ter tido existência como continuação deste que está em meu poder, mas, não me lembro porque ainda o tenho sob minha guarda. Triste dizer que a maioria daqueles daquelas diretorias do clube da Saudade de Caieiras, bem como muitos dos seus associados, hoje, só continuam existindo nas lembranças de quem ainda os recordam. Os que se foram... Foram existentes para promoverem agradáveis entretenimentos para a existência de outros.

                                                                                     Altino Olimpio    










  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A tapeação da vida

A tapeação da vida

Quem muito evoluiu (ou já envelheceu) tendo perdido a curiosidade de qualquer coisa querer ver, querer saber, querer participar e tendo perdido o desejo de querer fazer, querer comprar, querer conquistar, querer ter e querer ser, tal pessoa já venceu as ilusões da vida restando-lhe apenas a ilusão de que se consegue viver sem elas (risos). Qualquer pessoa que se conheça ou não, “sem sombras de dúvidas” ela é uma iludida. Ela pensa que é alguém até que a morte a separe da vida tornando-a ninguém. Morrer não é ilusão. Nascer também não. Mas, no viver ela pode ser. Entre o nascer e o morrer, a ilusão não descansa para impedir que a realidade possa se expressar e decidir sobre o que convém ou não para a vida ser autêntica sem os engodos que redundam em decepções e desilusões futuras.

Entretanto, as ilusões parecem ser necessárias. Muitas delas servem para os entretenimentos. Mesmo sendo de momentos passageiros e ridículos no mais das vezes, muitos não conseguem ficar sem eles. Outras ilusões servem para desejar o que depois só servirá para atrapalhar. As ilusões são as tapeações para que a vida seja mais, digamos, atrativa. A maior desilusão seria conversar com uma pessoa que não tenha ilusão (risos), se é que neste mundo de doidos exista alguma. Por não ter ilusão, ela não concordaria que o Brasil seja o país do futuro. Por não ter ilusão, ela não acreditaria em eleição. Por não ter ilusão ela não acreditaria em político e nem em Partido bom. Ela desagradaria os iludidos e eles são muitos nesta nação onde corrupção é real e não é ilusão. Mas, como dizem, tem alguém vendo tudo isso e... Será que isso também não é...

                                                                                         Altino Olimpio








quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A professora inesquecível

Minha amiga Maria Egna Mocelini Polimio me surpreendeu com o envio de uma fotografia antiga. Ela nem imagina a alegria que me proporcionou enviando-me a foto das professoras que lecionaram no grupo escolar donde nós nos diplomamos pela conclusão do curso primário da escola do lugar donde nascemos. Na foto as professoras estão num pequeno coreto que havia no terreno com um tímido jardim ao lado direito da escola. No feriado da terça-feira do dia da Proclamação da República do Brasil, ao rever a foto ela me transportou ao passado de quando na rua defronte a escola vi minha irmã Anita e outras meninas chorando. Perguntei-lhe porque estava chorando e ela só me respondeu: Não me enche, não me enche. Só depois fiquei sabendo que o choro fora porque era o último dia de aula para ela e para as outras meninas, e que nunca mais iriam ver a tão estimada professora, a Dona Silvia Brondy.
Dois ou três anos depois também eu cheguei até o “quarto ano” do primário e sob a “maestria” da Dona Silvia. Um “grande invento” da época já havia acontecido: A caneta esferográfica. Era de plástico amarelo transparente e se via por dentro um tubinho também transparente com tinta azul, que, era visível conforme ia se “gastando”, ou melhor, ia se acabando a tinta, mas, demorava. Antes dessa “novidade” e comodidade, para se escrever a tinta era preciso ter um tinteiro, isto é, um vidro de tinta. A caneta era um cabo de madeira com uma pena metálica encaixada numa das pontas. Repetidas vezes precisava “molhar” a ponta da pena no tinteiro para se escrever. E, para secar a tinta depois que se escrevia com ela no caderno, era preciso pressionar sobre o escrito um papel grosso “absorvente” de nome “mata borrão”. Mas, logo a pena se tornava inútil pelo seu manuseio e era preciso comprar outra. Era um espetáculo visual comprar outra lá no armazém. O “caixeiro” (vendedor) abria uma gaveta do balcão donde havia muitas de diversos tamanhos e modelos. No mais, eram claras na cor de metal, ou, amarelas como cor de ouro. Vê-las era agradável para a curiosidade infantil. 
Olhando para a Dona Silvia na foto ela me transportou para o passado e para aquela sala de aula donde semanalmente eu a via com o seu carisma contagiante. Eu a estou “vendo” agora pela memória indo de carteira em carteira para corrigir as lições de casa dos alunos. Entre outras lições, sempre havia quatro problemas de matemática. Como eu errava todos, com um lápis vermelho sempre a Dona Silvia escrevia sobre a lição da página do meu caderno a nota zero. Nenhum interesse eu tinha para ter problemas para resolver (risos). O meu interesse, normal e autêntico para a minha idade pueril era para o mundo que existia fora da escola e não na escola. Os dias ensolarados eram bonitos e musicados pelos cantos das cigarras. Eram coloridos pelas asas das borboletas pousadas nas flores silvestres e refrescante com a lagoa da “Vila da Ponte Seca” para se nadar. O futebol de rua ou de campinho era o expandir dos gritos dos meninos pelo “jogo de bola” tão competitivo entre as vilas do lugar. Empinar papagaio no morro, catar frutos na mata, como, goiaba para a mãe fazer doce com elas e outros entretenimentos da época, tudo compartilhava para o êxtase infantil e para as minhas notas zero da escola (risos). Elas perduraram por meio ano até quando eu quis e quando decidi me esforçar para melhorar “minhas notas” para poder “tirar o diploma” no fim do ano. Daí, minhas notas saltaram do zero para cem. Isso não foi comentado por mim e nem pela Dona Silvia como se o “inesperado” fosse assunto para alguma ocasião futura e veio mesmo a ser.
Naquela classe mista de alunos do quarto ano escolar, as meninas eram bem arrumadinhas. Os meninos nem tanto. Quase todos, inclusive, compareciam à escola, descalços e vestindo calças curtas. Era costume da época e nada tinha a ver com pobreza. Entretanto, quando chegou ‘aquele fim de ano’, ele trouxe a ansiedade e o nervosismo para “enfrentar” os exames que iriam avaliar quais alunos teriam condição de “passar ou repetir o ano”. Para isso o dia da tortura chegou (risos). Muita concentração aos exames naquele dia. O silêncio esteve propício até para meditar. Interessante, meninas e meninos, todos foram bem nos exames. Até aqueles “atrasados”, assim como eram conhecidos e que, a Dona Silvia os ajudou para não errarem nos exames que iriam qualificá-los para obterem seus diplomas. Então... No último dia de aula, lembro-me tão bem de quando a então professora Dona Silvia Brondy, de costas para a parede donde estava a lousa e de frente para os alunos, de pé e encostada em sua escrivaninha, ela se pôs a dar conselhos para os alunos nunca se descuidarem do que aprenderam na escola. Principalmente para aqueles que ela previa que não mais iriam estudar e para aqueles tidos como tendo muita dificuldade em aprender e, até foi citando os nomes deles. Como ela não citou o meu nome, algumas “meninas bonitinhas” fizeram-lhe o favor de citá-lo. A Dona Silvia significando o “não” com o agitar do dedo indicador de uma das mãos me “socorreu” (risos) e lhes disse: Não, ele não! Ele até superou muitos dos que estão aqui.  Ouvir tal testemunho foi animador para o meu ego.
A solenidade da entrega dos diplomas para os alunos daquele 4º ano escolar foi em dezembro de 1952 e ocorreu no salão do cinema do então Bairro da Fábrica de Papel de Caieiras, pouco tempo antes de ele ser destruído por um incêndio. Igual a outros, nunca mais vi a Dona Silvia e ela por ser como era, meiga, responsável e atenciosa deixou muitas saudades. Deixo aqui o “link” de um samba antigo que homenageia as professoras e nos recorda delas:
                                                                                       Altino Olimpio