segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Traições e pecados foram prazeres

Naquele pedacinho do mundo, na cidadezinha de Caieiras do passado, qualquer pessoa tinha lá sua notoriedade. Lá ninguém ficava no anonimato. Todos se conheciam, sempre se viam e de todos, todos sabiam. Quem era quem, casado com quem, pai de quem, filho de quem, neto de quem. Em que seção da fábrica trabalhava e que profissão tinha e se era chefe ou subordinado e etc. Sabia-se até de quem tinha um caso extraconjugal “proibido” pela moral de quem não tinha um caso igual (risos). E esta crônica é dedicada a eles para o desagrado de quem gosta de tapar o sol com peneira e não gosta de falar das traições e dos “pecados” sensuais e sexuais das vidas alheias.

Naquele lugar onde a moral nem sempre sozinha habitava, existia aquele clube que era cúmplice para facilitar o que não podia se revelar. Enquanto um dos diretores do clube ficava por lá exercendo suas funções, outro que frequentava o clube e que era jogador de futebol aos domingos, ia até a casa do tal diretor “visitar” a esposa dele “nas sombras da noite”. Muitos anos depois, o próprio jogador me contou isso aos detalhes e como se vangloriava! Faz tempo que ele morreu e como era um livro aberto não levou nenhum segredo para o túmulo (risos). E aquela respeitável senhora alemã também... Quem diria, hein? Mas, já não se praticam traições e pecados tão prazerosos como se praticavam antigamente (risos). Muito tempo já se passou e aquele lugar que não mais existe, só na memória ficou com os segredos eróticos que sepultou.

                                                                                         Altino Olimpio  








 




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O Cemitério da Cerâmica e a lembrança dele

Ainda me lembro de quando para o início do mês de novembro, minha mãe Carmem plantava lírios brancos num dos canteiros da horta lá de casa, no Bairro da Fábrica de Caieiras. Eram eles para o feriado do Dia de Finados. Meu pai Alberto comprava maços de velas para a ocasião. Garoto ainda, minha irmã Anita me levava junto para irmos aos dois cemitérios daqueles tempos. O primeiro que ficava no Bairro da Cerâmica já era desativado e o outro ficava lá na Vila Cresciuma, hoje Centro de Caieiras, onde, continua sendo a última morada daqueles que se despedem dos que continuam vivos.  O trenzinho, ou melhor, a maquininha com mais vagões de passageiros do que era habitual, no Dia de Finados, saindo do Bairro da Fábrica com os vagões perfumados e coloridos pelas flores que os passageiros portavam para seus entes queridos desaparecidos, parava na Estaçãozinha da Cerâmica, onde cerâmica não havia e lá só se fabricava papel celulose.

Desembarcados da maquininha, enquanto ela se distanciava para seu trajeto final, eu, minha irmã com outros seguíamos a pé pela rua de terra e pelos trilhos dela até a entrada do Cemitério da Cerâmica que ficava à esquerda no começo da Rua dos Coqueiros, isso, pra quem vinha do Bairro da Fábrica. À direita lá estava o Rio Juquery. Da rua até a entrada do cemitério havia um grande e espaço quadrado e gramado muito agradável para os olhos antes da entrada do cemitério. A seguir, passava-se pelo portão de madeira e assim se adentrava àquele cemitério dos antepassados de Caieiras. Muitas pessoas lá compareciam para o anual “visitar” de seus nonos, avós e bisavós, limparem suas sepulturas e embelezá-las com flores. Também, muitas pessoas lá se reviam e aproveitavam para atualizarem suas conversas. O dia era propício para rever gente amiga de todas as vilas do lugar, como, das vilas de Caieiras, da Fábrica de Papel, do Monjolinho, da Calcárea, do Bonsucesso... Daquela gente daqueles dias finados de visitas ao cemitério, muitas já morreram e as não muitas que ainda sobrevivem já são idosas, inclusive eu.

A ninguém conheci daqueles que lá estavam sepultados.  Todo haviam falecidos antes de eu nascer. Pelos nomes inscritos nas sepulturas, ou melhor, pelos sobrenomes conhecidos se sabia quem eram seus parentes que os “visitavam” naqueles dias feriados dedicados aos finados. Talvez não seja agradável dizer que um cemitério seja bonito, mas, assim eu considerava aquele desativado do Bairro da Cerâmica. Lá havia um túmulo “especial” onde eu e minha irmã acendíamos as velas e depositávamos os lírios brancos de minha mãe. “Pertencia” ele à Valdete Olimpio, nome este de um ainda anjo que, nascido em 1936 só viveu por seis meses. Às vezes, quando me lembro, sinto saudades daquela irmãzinha nascida antes de mim, mesmo não a tendo conhecido. Mas, e aquele pássaro que, numa das vezes que estive lá, sobrevoou em círculo o cemitério e depois retornou para a mata donde ele veio, aquela que ficava ao fundo do cemitério? Teria sido para imaginar, inventar alguma superstição? O pássaro... Garotos sempre foram mais curiosos, mais observadores que os adultos, daí a visão do pássaro. Minha curiosidade era pra ver as caveiras, conforme diziam, elas e outros ossos ficavam num buraco num dos muros daquele recinto silencioso dos já idos para o além. Caveiras eu nunca as vi, só vi o escuro donde diziam que elas ficavam (risos).

Aqueles dias de finados mais pareciam dias de festa. Lembro-me do carrinho donde se fazia “algodão doce” e vagamente do homem que o fazia e o vendia. Depois de termos estado no “cemitério de baixo” de Caieiras (como se dizia) se ia a pé para o cemitério da Vila Cresciuma. Lá, muito mais pessoas compareciam, porque, lá estavam sepultadas pessoas da geração mais recente. Entretanto, para os jovens até era uma boa oportunidade para os flertes. Lá se via as mocinhas que a gente gostava e elas não sabiam, como, vice-versa também. Agora com tudo mudado, o romantismo tendo sido abandonado, nem mais vou aos cemitérios, finado que estou para esse “comprometimento” sem os flertes de outrora (risos).

                                                                                       Altino Olimpio
     







segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O último prazer da vida


Esta é a história de um homem “bem vivido”. Muito ele cuidou de sua própria integridade fisiológica. Lembrando do passado, ele pensou que também fora ignorante como os outros eram, pois, de igual para igual, ele também se submeteu aos erros e exageros de sua alimentação, sem se preocupar se ela poderia lhe causar algum dano. Frequentar restaurantes era a sua felicidade gustativa. Em sua casa, sua esposa o mimava bem, sempre lhe preparando apetitosos alimentos compostos de carne e de gordura. Lembrar disso até lhe “dava água na boca”.

Numa ocasião soubera que estava hipertenso e daí começou a se preocupar com sua saúde. Programas de televisão sobre “boa alimentação” difundida por jovens nutricionistas que têm muita e muita vivência e muita experiência sobre nutrição e tudo sabem sobre o “poder muito poderoso” das propriedades dos alimentos, vendo-as e ouvindo-as, o homem se interessou em mudar seus hábitos alimentares. Tornou-se vegetariano fanático. Quando conversava com alguém sobre o comer carne ele dizia que não a comia porque seu estômago não era cemitério (risos). Em casa, às vezes tinha atrito com a esposa e filhos porque eles não se dispunham a aceitar o exemplo dele como sendo o melhor para a saúde deles. Brigava com a esposa quando ela não lhe comprava produtos da alimentação chamada de orgânica, que, já tinha conquistado os aficionados pela alimentação “preventiva” contra danos da saúde.  

Mas, coitado do homem. Tudo fez para evitar doença para poder viver mais, comendo melhor. Infelizmente, de nada adiantou seu “sacrifício” em deixar de saborear os alimentos mais saborosos, os tidos como prejudiciais para impedir o viver mais, porque, esteve condenado a morrer bem antes do que esteve a prever. Ele cometeu um assassinato e por isso esteve na prisão, no corredor da morte aguardando a dele. Seu dia para isso chegou e ofereceram-lhe a escolher a última refeição a que ele tinha direito antes de morrer. E ele pensou... Uma feijoada... Bife a role... Cupim assado... Um grande bife a milanesa... Linguiça de porco... Naquele dia e naquela hora, comida vegetariana ou orgânica... Nada disso! Qualquer um na hora de morrer iria querer ter mais prazer (risos). Não importa saber qual refeição o homem escolheu, também porque, esta história é uma ficção. Infelizmente para os bois, porcos e frangos, coitados, pois, eles não têm salvação. Eles fazem parte da “cadeia alimentar”. Culpa de quem criou o mundo assim e eu não sei quem foi. Ah se eu soubesse...


                                                                                   Altino Olimpio 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Franco da Rocha, Cine Marajá e suas lembranças

Aquela moça estava doente e acamada. Os dias se passavam e ela ficava a observar uma pequena árvore que ficava num espaço entre a janela do quarto donde ela estava e uma parede do lado oposto. Os dias eram frios e estavam sempre nevando. O vento forte e gelado aos poucos ia derrubando as folhas daquela árvore. Todas as manhãs a moça contava quantas folhas ainda restavam resistindo ao vento. Ela recebia visitas em seu quarto e também a de um velho homem tido pelo pessoal daquele lugar, como sendo apenas um ser humano simples, comum, mal vestido e desprestigiado. A moça o tratava bem e confidenciava para ele: Veja pela janela aquela pequena árvore com as folhas que lhe restam em seus galhos, sendo poucas agora e que o vento ainda não as derrubou. Em cada dia passado elas foram diminuindo. Sei que estou muito doente e quando a última folha cair derrubada pelo vento da noite fria e nevada eu vou morrer. E o velho a contradizia para confortá-la e que tudo era apenas imaginação dela.

Logo, numa noite nevou e ventou muito. Ao clarear do dia a moça, ansiosa, ela olhou pela janela. Ela viu que todas as folhas que restavam caíram da pequena árvore. Mas, sobrou uma que não caiu. A última folha não caiu, então, ela se animou, seu semblante se iluminou, pois, a última folha resistiu ao vento e isso lhe significou que ela não ia morrer. Algumas mulheres entraram no quarto e logo foram falando pra moça o que havia acontecido. Aquele velho homem fora encontrado morto, talvez por ter ficado muito tempo ao frio do relento, onde foi encontrado. A moça que havia ficado alegre se entristeceu pela morte daquele velho e amigo. Pensando sobre aquele triste e inesperado acontecimento, distraída a moça dirigiu seu olhar para aquela árvore desfolhada e naquele instante uma forte rajada de vento derrubou o pequeno galho que sustentava aquela última folha da árvore que ainda existia. Mas, a folha não caiu, ela ficou suspensa no ar. Mas como foi possível isso? Então, a moça percebeu o que ocorrera. A folha não era folha. Era um desenho, era uma pintura dela na parede oposta donde ela estava. O velho homem a havia pintado antes de morrer de frio. Aquela última folha que não era folha foi pintada na parede para a moça acreditar que ela não iria morrer se uma folha resistisse ao mau tempo. Jogado ao chão próximo à parede ficou à vista os materiais que foram usados para a pintura daquela folha de árvore. E assim a moça entendeu que aquele sacrifício do velho foi para salvá-la.

Esta foi uma das quatro histórias contidas num filme que assisti no Cine Marajá da Cidade de Franco da Rocha, na minha juventude. Ao escrevê-la estive pensando naquela noite de então e as lembranças me foram surgindo. Dia de semana e sozinho fui àquele cinema porque, anteriormente vi o cartaz de propaganda daquele filme e me interessei em assisti-lo. Para quem antigamente ia pra Franco da Rocha, pra passear ou mesmo namorar, o principal problema era o fato de que pra se voltar de lá, o último trem passava muito cedo, antes das vinte e duas horas. Não havia outra condução para mais tarde. Não me lembro se já existiam os “cata loucos” (risos), aqueles ônibus assim mal apelidados, cujo trajeto deles era de Franco da Rocha até a Praça Princesa Izabel da Cidade de são Paulo. Mas, lá no cinema o filme que eu quis assistir ficou por último, isto é, para depois dos trailers de outros filmes e do primeiro a ser projetado que não me recordo qual foi. Finalmente teve início o filme que eu quis assistir e o tempo foi passando e chegando a agonia do saber que ia perder o último trem para voltar para casa. Aquela dúvida, aquela disputa do “fico ou não fico” até o fim do filme foi vencida pelo “fico e aconteça o que acontecer depois”. Assim me acalmei e me concentrei no filme e o assisti até o fim.

Terminada a seção de cinema já bem tarde da noite, sai pela rua com a preocupação de como iria voltar para casa. Passei pelo Clube Dezessete, assim como ele era chamado e onde uma vez lá estive num baile. Já não havia mais ninguém pelas ruas. Tudo estava deserto. Mais a frente, passei pelo Cine São João e logo cheguei à proximidade da estação do trem. Seria onde iria decidir como resolver sair daquela situação preocupante, provocada que foi pela minha irresponsabilidade de jovem. Valeu à pena assistir ao filme, mas, a consequência do depois dele foi sentir a aflição que eu senti: Ter que sozinho e na escuridão transitar a pé até Caieiras. Melhor seria caminhar pela ferrovia do que pela rodovia que demorava mais. E fiquei numa indecisão naquele “vou e não vou e daqui a pouco eu vou” por algum tempo. Sorte minha! Enquanto estive titubeando apareceu um automóvel e eu conheci o motorista. Um rapaz que já o havia visto lá no clube de onde eu morava, mas, nunca havia conversado com ele. Não me lembro porque ele parou o veículo próximo a mim, só lembro que aproveitei para lhe explicar minha situação de estar sem como regressar para onde eu morava. Nisso pedi-lhe uma carona. Ele, percebendo a “gravidade” da minha situação, disse para o amigo que estava com ele “vamos levá-lo”.

Aquele “anjo da guarda” da minha noite de irresponsável me trouxe até a estação de trem de Caieiras. Minhas lembranças chegam só até aqui. Esforcei-me para lembrar se naquele dia eu já morava na Rua dos Coqueiros de Caieiras ou se ainda morava no Bairro da Fábrica, mas, não consegui me lembrar. Se tivesse lembrado eu saberia se ainda tive que caminhar por mais de uma hora entre a escuridão e as matas que ladeavam a estrada até chegar ao Bairro da Fábrica com medo dos fantasmas, que como diziam, eles ficavam assombrando lá no fim da subida da famosa “Serrinha”, assim como ela era conhecida. Franco da Rocha de outrora tinha cinemas também transformados em lojas agora. Tudo é para o progresso, entretanto, “pela lembrança” sempre tenho regresso para onde quero.


                                                                                    Altino Olimpio  

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Fumaças da saudade


Dezesseis horas da sexta-feira, dia sete de outubro de dois mil e dezesseis. Tarde de sol bem agradável e céu de azul escuro como nunca havia visto entre os espaços do branco algodão das nuvens. Ouvindo a música “The sound of music” do filme “Noviça Rebelde”, cantada pela Susan Erens da Orquestra do Maestro André Rieu, olhando para a distância do “azul e branco” do céu, com o pensamento sem pensamento, minha alegria de viver daquele momento foi premiada por visões de um passado que pensei esquecido. Vi-me ainda menino no final do tempo da utilização da locomotiva a vapor (Maria fumaça) da Indústria Melhoramentos de Caieiras. No trajeto do Bairro de Caieiras para o Bairro da Fábrica donde eu nasci e morava, à noite, a locomotiva puxando seus vagões de passageiros abertos de ambos os lados, eles eram para os passageiros o interagir com os ruídos que ela provocava rompendo o silêncio noturno. Que saudade daquele sacolejo do vagão e do piiiiiiiiiiiii estridente do apito dela. E ela com o seu pfum,pfum,pfum, pfum... pfum... pfum... Som característico soltando pedacinhos de luz na escuridão da noite, ou melhor, soltando brasas pelo ar. Elas penetravam pelos vagões donde as pessoas se davam tapas para apagá-las tentando evitar que elas queimassem a pele de seus rostos e pescoços. Quando queimava bem que doía (risos). Às vezes aquelas brasas queimavam e furavam as roupas dos passageiros para só depois eles verem o prejuízo na claridade de suas casas (risos).

Era muito divertido e emocionante aquele translado com a Maria fumaça com seus vagões sem qualquer iluminação. Para os namorados fogosos daquela época que queriam se beijar as escondidas com receio do “o que poderão falar de nós” a escuridão era proteção contra os de “língua comprida ou linguarudos”, aqueles que comentavam sobre as quem eram as “brasas encobertas” daquele lugar paradisíaco donde o amor proibido nem sempre ficava oculto para sempre. Mas, o assunto aqui é sobre a “máquina a fogo”, assim também como era chamada a Maria fumaça daqueles tempos de outrora. E, restam poucas pessoas ainda vivas daquelas que o destino as fez viver para ver o fim de um período romântico de quando a fumaça da locomotiva parecia escrever pelo ar a sua despedida para depois se tornar parte da história, da mesma história do povo simples e feliz daquele lugar de agora apenas da nossa memória.


                                                                                     Altino Olimpio 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A estupidez está na moda


Ah! É difícil achar o caminho que leve a considerar a existência de Deus em meio à confusão mental e tumultos em que se encontra a humanidade. Ela não se comporta com respeito ou como sendo temente a Ele, embora, o ser humano adulto confie em Deus como qualquer criança confia em seus pais, mas, ambos podem não ser o que se espera deles. Pois, está cada vez mais difícil viver num mundo tão conturbado sem poder reagir, gritar e desabafar a decepção com essa raça de seres humanos considerados como sendo o ápice da criação, mas, mais são da “má criação”.  O mundo vive sob um bombardeio proveniente de uma guerra psicológica que é muito “agradável e contagiante” que nos torna facilmente dominados e até coniventes com ela, para sermos “emburrecidos”.
Como não haveria eu de reclamar e ser crítico estando em meio de um mundo onde os homens exploram homens, mentem, desmoralizam, corrompem, roubam e matam?

Desde muito tempo me parece que os políticos e as religiões gostam mais dos incultos, talvez porque, sejam eles os mais preparados para promover prosperidade para outros. Mal posso ler um jornal sem me decepcionar com as notícias sobre os fatos tão lastimáveis do dia a dia. Não sei quais são os prazeres das pessoas ao se sentarem numa sala para assistirem programas de televisão que mais são atentados contra seus caracteres, contra suas morais ou inteligências. Também não sei quais são as alegrias que possam promover as tais das redes sociais que prendem muito as atenções e ocupam o tempo dos que tem muito tempo para perder (risos). Agora, neste mundo cada vez mais barulhento povoado com muitos seres impertinentes, preferível é o isolamento ao invés de compartilhar com os “nada acrescenta” dos outros. Hoje em dia, parece que viver só como a um animal extraviado seja melhor do que viver em bando com muitos dos seres humanos, animalizados que são pelas suas carências intelectuais e pela carência de humanidade. Existiria algum desacordo sobre isso?

                                                                        Altino Olimpio




domingo, 2 de outubro de 2016

A Rua da Pensão e a "venda" de antes do armazém


Hoje a tarde foi um daqueles dias vazios com tudo parecendo sem significado. Uma melancolia do nada me apareceu e eu indo pra cá e pra lá não conseguia me livrar dela. Olhei pela janela do meu quarto para o quintal do vizinho e só vi o espaço vazio donde existia um pé de manga. Gostava de ficar olhando-o, principalmente pelos bonitos papagaios que nele pousavam e pelo ruído que faziam, pareciam estar em festa. Mas, por que o vizinho teve que cortar aquele pé de manga?  Nada tendo o que fazer, resolvi ouvir música pelo computador. Músicas que emocionam provocam lembranças e dessa vez não foi diferente. Logo me vi por dentro donde se encontra tudo o que me foi vivido. Desta vez “estou me vendo” no lugar onde nasci e vivi lá no Bairro da Fábrica, em Caieiras. Estou no Largo da Portaria Um de entrada da fábrica de papel da Indústria Melhoramentos.

Aqui bem no meio do Largo da Portaria tem um jardim e um pequeno lago artificial com peixinhos vermelhos. Retroagindo mais no tempo, aqui era a casa onde morava a família Marim e onde numa dependência da casa o Senhor Benjamim Marim possuía uma espécie de bar. Lembro de ter estado nesse bar com meu pai Alberto Olimpio quando eu ainda era garoto. Se me lembro havia até uns caixotes para se sentar enquanto se saboreava cachaça de alambique. Ainda não existia a portaria de entrada e o ingresso para o trabalho na indústria era livre e sem “marcar o ponto”. Também não havia portão por onde entravam e saiam os caminhões para transporte de papel.

Hoje, daquele lugar existem não muitas pessoas ainda vivas para confirmarem o que descrevo nestas lembranças. Então, continuando, com a construção da Portaria Um, a casa do Senhor Benjamim Marim foi demolida para a construção do jardim anteriormente citado. Do lado da portaria e em declive existiu a rua sem saída que era a Rua da Pensão, como era conhecida. Descendo por ela, a primeira casa à direita era a da Família Lisa, depois a da Família Mandri. Não me lembro de outros moradores, mas, mais para baixo morou o Zé Birilo que era casado com a Dona Rosa Lopes, irmã do muito conhecido Maquinaia (Orlando Lopes). Na última casa do lado direito morou o bem conhecido Arnaldo Gouveia e seus pais. Depois desta casa, finalizando as do lado direito da rua existiu a primeira escola do lugar, que, talvez nem tivesse tido nome. Depois a escola serviu para a sede e os ensaios da Banda Melhoramentos.

Do lado esquerdo da Rua da Pensão e perpendicular a ela existia uma ruazinha sem saída onde numa das esquinas ficava a casa donde morou a Família Valbuza. Também morou por ali uma senhora, viúva, se me lembro, mãe do conhecido Xisto e seu irmão José Petri Lima. O Senhor Armando Canhaci, pai da Nilza também morou naquela ruazinha. A esposa dele era costureira e uma vez me costurou uma calça de brim. Na outra esquina da ruazinha era o início do prédio da pensão que emprestava seu nome pra rua que vinha de lá da Portaria Um, como já “dito” e era a última construção do lado esquerdo. No fim dela existia uma escadaria que era o acesso para a Rua do Barbeiro que ficava acima. No início da escada, à direita ficava o portão de entrada da casa do Senhor Zeca Monteiro, o pai da Floriza. Se aqui cito nomes de pessoas é porque descendentes daquelas famílias do lugar vivendo agora em outros locais se lembram delas.

Tentando descrever o que é difícil para pessoas estranhas àquele local, mais o objetivo destas lembranças é para os que lá do extinto Bairro da Fábrica tiveram suas “raízes” de existência. Prosseguindo com a narrativa, a Rua da Pensão terminava num grande portão que parecia ser de uma entrada de automóvel, o que não era. Era da entrada onde logo após se situava a casa do Senhor Genésio Gerólamo, esposa, e seus filhos, Aluizio, Alcides e Alceu. Abaixo da casa ficava a “venda” que ainda vou descrever. Passando pela casa do Senhor Genésio, mais para frente ficava a casa donde morava o Senhor Constante Toigo, sua esposa Violinda Pim Toigo e o filho deles.

Passo agora a descrever sobre a “venda” de que poucos se lembram. Um pouco antes do portão de entrada da casa do Senhor Genésio, à direita e rente à parede da antiga construção que era da escola e depois passou a ser a sede da banda, havia uma longa escada cuja descida terminava num páteo todo cimentado. Parecia mesmo um enorme fosso quadrado cercado de ambos os lados por altas paredes. Nada se via dali a não serem as paredes que o ocultavam. Numa das paredes, aquela que ficava ao lado e abaixo da entrada da casa do Senhor Genésio, havia uma espécie de reentrância que servia de gol para, como eu tinha visto, alguns garotos chutarem bola contra um goleiro que lá ficava para a brincadeira que se chamava de “rebatida”.

Da escada, atravessando pelo páteo e assim caminhando por uns trinta metros, mais ou menos, lá estava à porta de entrada da “venda” que ficava por baixo da casa do Senhor Genésio. Ainda não era usual o nome de armazém. Só se tornou usual depois da “venda” ter sido substituída pela nova construção do prédio do “armazém”, em outro lugar de mais fácil acesso. Além do Senhor Genésio que era o “chefe” da venda, os “caixeiros”, se não me engano, lá eram os senhores Joaquim Sanchez, o Kique, o Pierim, o Elpídeo, Lazaro Roque (?) e a “caixa” para cobrança das compras era a Dalva Araujo que morava em Monjolinho. Às vezes era costume a meninada pedir para a Dalva carimbar suas mãos com o carimbo que ela usava para dar “baixa” nos recibos já pagos das compras efetuadas.

Lembrando, daquele páteo oculto de antes da entrada da venda, se ouvia ruídos provenientes das atividades da fábrica de papel. Ouviam-se ruídos estridentes do trenzinho (maquininha) “de carga” que por lá trafegava sobre os trilhos trazendo aparas ou rolos de celulose para a fabricação de vários tipos de papel. Estas lembranças são, mais ou menos, do ano de 1950, de quando eu ainda criança ia até aquela venda que se escondeu no passado para fazer compras de alimentos para a minha mãe.  Aquele local continua intacto em minha memória. Mas, será para sempre esquecido, desaparecido da mente depois que eu e as pessoas com a mesma idade da minha e daquele mesmo lugar tiverem partido daqui deste mundo para sempre. Como é inevitável, aquele local aqui descrito será como se nunca tivesse existido, como também, os que por lá existiram e até já são esquecidos.

                                                                                   Altino Olimpio