quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A vida é um bem perecível


Nada se sabe do antes e nem do “acontecimento” do início do nosso existir porque a consciência que faria isso saber ainda não existia em nós. Nascendo nenê, nós fomos um “surgir” sem saber e sem querer num ambiente ainda confuso onde nada distinguimos e nem nós mesmos nos distinguimos. Não nos existia aparências e nem diferenças. Tudo era tão estranho mesmo ainda não se tendo a consciência para tudo se estranhar. Éramos o que ainda não sabíamos “quem e o que éramos” numa situação de total obscuridade para os nossos sentidos de percepção ainda em formação. Entretanto, o instinto já havia nascido conosco e foi ele o causador do nosso choro por querer mamar. Isso tudo é o início da vida de qualquer “ser que sem saber e sem querer” surge neste vasto mundo. Alguns com o privilégio de ter nascido no seio de uma família rica e outros pelo descuido do destino de ter nascido no seio de uma família pobre. Até para nascer parece que já existe uma loteria da sorte (risos). Isso, se de fato a alma existe e se ela é atraída para dentro do corpo ao nascer da criança.

Mas, não é questão de sorte. Pais ricos geram crianças ricas e pais pobres geram crianças pobres. Unida ao tempo, nossa vida tem um período para existir nele. No fim desse período ela termina enquanto ele continua eternamente. Todos gostam de viver, embora, sabendo que num dia vão morrer. Pensar na própria morte ninguém gosta e quando se é jovem parece que ela vai demorar uma eternidade para chegar. Porém, a morte mais começa a se anunciar quando a velhice chega (e não demora muito) mostrando o desgaste do corpo. Existem pessoas que ficam irreconhecíveis pelas marcas com que o tempo, cruel, bandido e implacável como é, modifica suas fisionomias. É o “prognóstico” que o fim da vida já não tarda muito a chegar e não existe remédio para curar a morte, remédio só existe para curar doenças, isso, quando cura (risos).

Do antes de nascer nada se tem a perder, diferente do morrer quando se perde tudo o que se tem. Nisso está o ilusão de qualquer um, de tanto querer ter e de tanto querer ser. O “ter” é só um empréstimo para “possuir” qualquer coisa enquanto se vive. O “ser” na morte passa a ser “o que se era” enquanto se vivia (risos). Ninguém escapa desse fim “do ter e do ser”. Como não há alternativas e como a vida é um bem perecível, só há o consolo de querer viver bem e ser feliz (quando se consegue) no período de vida “reservado” para cada um pelo “destino” ou pela durabilidade de sua constituição corpórea. A morte, mais ela existe para livrar o mundo dos que se tornaram incômodos para a sociedade (risos). Só mesmo ela pode proporcionar alívio aos incomodados quando eles, por obrigação, dever ou pena, muito precisam cuidar dos seus incômodos (risos).

                                                                                     Altino Olimpio




sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Sensações


O mundo é belo, mas, a humanidade que ele suporta sobre si parece não merecê-lo como deveria. Quanto mais ela aumenta menos ela evolui. Sempre ela é vítima de influências e sugestões negativas. Os seres humanos, eles gostam, necessitam de sensações para viver e até se perdem por elas. Para eles, quaisquer “coisas” que são atrativas para seus entretenimentos, ao aceitá-las e sempre utilizá-las, isso é viver de sensações. Constantemente o ser humano as requer para, como dizem, ser feliz na vida. Sem tê-las, muitos até podem morrer de tédio (risos).

Vamos discorrer sobre algumas “sensações” que conquistam parte do povo: Futebol, televisão, internet, redes sociais, telefone celular, viajar, política, religião, sexo e etc. Todas essas formas de se entreter causam sensações, pois, se não causassem elas não teriam seus fanáticos seguidores. Cada um, mais convive com o seu “mundinho” de sensações que mais lhes agradam até já o ser escravo delas. Sendo assim, pode se tornar indiferente com a situação do seu país, estagnando sua participação quando ela seria necessária para exigir das “autoridades” governantes, algo publicamente necessário ou reclamar sobre o que geralmente lhe seria prejudicial.

As pessoas sensatas são aquelas que podem ter suas sensações, mas, sem serem dominadas por elas. São as equilibradas. Ao contrário, as insensatas, como que, hipnotizadas, não ficam sem elas, considerando-as como partes indispensáveis de suas vidas. São as fracas dominadas pelas tentações. Às vezes tenho a sensação (risos) de lembrar que só os animais não precisam de sensações para viver. O homem, coitado, só de comer, trabalhar, dormir e se “acasalar”, é infeliz sem as sensações que o distraiam da consciência de si mesmo. Ele por ele mesmo não é sensação (risos). Então, precisa ir buscá-la fora de si em entretenimentos ou ocupações para que sua vida não seja monótona. E “assim caminha a humanidade”, sempre no ter aonde ir e no ter o que fazer para não se desfazer das sensações que lhes são o prazer de viver.


                                                                                   Altino Olimpio  

sábado, 17 de setembro de 2016

Baltazar do Corinthians, o "cabecinha de ouro"


No passado eu ouvi dizer: Todo homem tem que ter uma mulher, uma religião e torcer por um time de futebol. Conversa mole! Atualmente, sendo viúvo não tenho mulher, não tenho religião e não torço pra nenhum time de futebol. Mas, lá na infância, fui batizado, cursei o catecismo, participei da primeira comunhão e até fui crismado. Gostei de várias meninas daquela época romântica mesmo sem elas saberem. Quando já moço, tive namoradas e me apaixonei por elas e com uma me casei. Quanto ao futebol, até aos dez anos de idade eu fui corintiano naquele tempo do famoso Baltazar, o “cabecinha de ouro”. A escalação do time começava com o goleiro Cabeção (goleiro), Homero e Olavo na defesa e na “linha’ o principal atacante, o centro avante, como já escrevi, foi o Baltazar. Outros atacantes foram eles: Claudio, Luizinho, Carbone e Mario. Depois de 1952, outros vieram para formar o time do Corinthians, mas, nunca mais soube quem eram e nem mesmo soube dos nomes deles.

Lembro-me bem, quando, mais ou menos, aos dez anos de idade meu raciocínio esteve a funcionar para decidir se “torcer” para algum time de futebol profissional valia à pena. Se as emoções que o futebol despertava me interessavam. Se me lembro e se não me engano, já estava no auge a locução “contagiante” do saudoso Fiori Gigliotti, com os “aguenta coração” e “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”, frases estas sendo da sua inconfundível irradiação dos jogos de futebol de então. Mas, “aquela bola na trave, se foi pênalti ou não, se o juiz era ladrão, se algum jogador fosse o ídolo da torcida” e etc. pra que me interessariam se nada tinham a ver com a minha vida. Por isso, perdi o interesse de ouvir irradiações de jogos de futebol e mesmo os transmitidos pela televisão, cujo evento ainda era recente naqueles anos anteriores de minha juventude.

Apenas como “passa tempo” de quando não tinha outra coisa melhor para fazer, durante vários anos ainda assisti (não todos) aos jogos da Seleção Brasileira de Futebol, mas, sem me envolver emocionalmente. Trabalhando na Cidade de São Paulo, eu considerava como absurdos os “milhões” de pessoas abandonarem seus empregos para assistirem jogos da Copa do Mundo em seus lares. O transito ficava congestionado, trens e ônibus ficavam superlotados, tudo por causa da fácil aceitação geral que o povo tinha para esse esporte preferido dos brasileiros. Entretanto, já faz muitos anos que a Seleção Brasileira de Futebol também se tornou uma perda de tempo para mim. Não mais assisto aos seus jogos, mesmo não tendo algo melhor para fazer. Se não me engano, não deixei de ser brasileiro ou patriota por causa disso. Ainda tenho acompanhado a podridão dos políticos brasileiros. Gostaria que eles fossem pro escanteio comer grama.

                                                                               Altino Olimpio








sábado, 10 de setembro de 2016

Confronto com a realidade


Gozado, às vezes me pergunto quem eu sou como se já tivesse deixado de saber. São “coisas” da idade avançada. Às vezes também me conformo como sendo alguém que não é ninguém dentre os tantos mais de duzentos milhões de brasileiros. Meus anteriores anos vividos foram envolvidos com trabalho, família, entretenimentos, relacionamentos amistosos e amorosos, fraternidades filosóficas, filantrópicas, leitura e etc. cujas experiências seriam para minha evolução e para ser como eu deveria ser na velhice. Mas, agora já nela ou perto dela, me encontro desfeito de tudo o que eu pensava que deveria ser (risos). Nada sou daquele “deveria ser” resultante das experiências vividas e nem me lembro “de como deveria ou queria ser” (risos). Penso muito no “nada se sustenta” do sempre estar por detrás das mentiras e das ilusões da vida. Na idade avançada à vida me pegou na armadilha da realidade de que “o que sou hoje” seja igual ao mesmo nada que eu era de quando ainda estive iludido na preparação “para como eu deveria ser no futuro”. Cheguei rápido ao tal futuro como qualquer ser, para apenas “só estar a viver por viver” e mais nada (risos) como se só isso fosse importante. Muitos podem estar na mesma situação, mas, mantendo ainda os mesmos “ares” de importância que pensavam ter no passado, nem desconfiam que até o “ser interessante” para outros desaparece mesmo antes da velhice se estabelecer completamente (risos).

Se o conteúdo deste texto fosse dito aos amigos e conhecidos, me interrompendo antes de saberem do que se trata, sei “de cor” o que iriam dizer: “Você não deve pensar assim. Todos têm importância na vida e todos são interessantes perante Deus. Ele sempre sabe o que faz. Não seja pessimista. Pense só em coisas boas. Passeie, viaje, leia, reze, aprecie a natureza, o luar e o brilho das estrelas” e etc. Isso mesmo, amigos e conhecidos... Como eles são úteis, falantes e inoportunos (risos). Sempre pensam que tem solução para tudo, menos para os próprios problemas e mesmo assim são especialistas para sanarem os problemas dos outros (risos). Entretanto, como sempre acontece, o objetivo principal do texto iria ficar desprezado para ser vencido pelo “deixa disso, não é bem assim, você está exagerando” e etc. O texto acima, um tanto pessoal, mais está a ser o resultado de observações sobre como a velhice, pelo enfraquecimento da capacidade motora, mental e da memória, ela pode “por a perder” tudo o que se relaciona com a evolução mental de até então. Mas, isso já nada afeta, porque, na velhice, sendo quase a regra geral do “só resta mesmo apenas viver por viver” nada mais importa (risos). Diante deste mundo tão tumultuado, o esquecer de quem se é ou de quem se era, até pode ser bem-vindo (risos).


                                                                                         Altino Olimpio

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O médico nazista também viveu no paraíso


Ah então você gosta de serelepe? Vou te convidar para um pic-nic lá no Espia Fogo da Vila do Tico-tico. Sempre eu via serelepes por lá e como eram rápidos seus movimentos pelos galhos das árvores. O que também tinha muito por lá eram cobras venenosas. Para lá ir se passava pelo bangalô dos alemães da Indústria Melhoramentos de Papel de Caieiras. Aquela estrada que passava pelo bangalô era de terra ladeada por coqueiros cujos coquinhos que caiam ao chão o amarelavam. Antes de chegar àquela estrada romântica, vindo do Bairro da Fábrica havia aquele caminho entre matas que passava, onde à esquerda havia o alto paredão de pedra, que para nós tinha o nome de “pedreira”, onde abaixo dela e ao lado tinha a casa onde morava o Francisco (ele tinha o apelido de sultão).  Numa ocasião lá em cima daquele enorme paredão de pedra, na mata e no plaino que tinha lá, eu chorei muito. Não, não foi por ter levado o fora de alguma namoradinha. Fui ferroado por muitos marimbondos que me atacaram covardemente. Hoje, lá no Velório de Caieiras revi pessoas que fazia tempo que não via. Algumas tinham parentesco com o alemão, Sr. Henrique Dick, chefe do laboratório (Seção Verificação) donde eu trabalhei. Devido a alguma semelhança e sem ele saber o apelido dele para poucos era Randolph Scott, nome daquele “mocinho” dos filmes de faroeste do passado.  Ainda me lembro da Suzana, filha dele e de quase todos da vizinhança donde o Sr. Dick morava, incluindo o Sr. Walter Kohl, também morador daquele lugar próximo da Capela de São José que ficava lá no alto e na frente dos eucaliptos que sombreavam por lá. “Se não me engano” (risos), incógnito e bem disfarçado de inocente, naquele local também morou por uns tempos o médico nazista Josef Mengele, o anjo da morte do Campo de Concentração de Auschwitz. Agora na saudade daquele lugar... "Eu cheguei em frente ao portão; Meu cachorro me sorriu latindo; Minhas malas coloquei no chão; Eu voltei; Tudo estava igual como era antes... Eu voltei agora pra ficar, porque aqui; Aqui é o meu lugar..." Ah, caramba, esqueci que "aquele lugar não existe mais, demoliram tudo (risos). Mas aquela sorveteria do Sr. Alfredo Satrapa que ficava lá no Filtro Rein e na rua onde morava o Sr. João Satrapa, minha nossa, que delicia que era. Pegava-se um sorvete e se ia na cerca de arame farpado donde abaixo estavam três enormes tanques d'água que ali eram tratadas. Pronto, os olhos internos da Egna agora estão revendo aquele lugar (risos). Será que o Nelson, teu marido, Egna, conheceu aquele paraíso?

Altino Olimpio


Que saudade eu tenho daquele tempo quando a gente ia passear na pedreira, lembro muito bem do bangalô, quantas vezes consegui passar pela cerca para tentar ver o que tinha lá dentro. Eu gostava de me aventurar entrando um pouco no mato mais fechado, isso quando eu ia com o meu pai procurar orquídeas que eram a paixão dele, lá a gente via passarinhos, um mais bonito que o outro. Lembro que uma vez vimos uma saracura com uma porção de filhotinhos e, quantas cobras a gente via sobre as pedras tomando sol, serelepes muito espertos, passando rápidos pelas árvores. Só não me lembro desse Espia Fogo, aliás, nunca tinha ouvido sobre ele, li a respeito em um texto que a Vera de Freitas escreveu. Ainda bem que nunca fui picada por marimbondos... Lembro da família Dick, da Suzana que também estudava conosco na mesma classe da escola, Lembro do Walter Kohl, da sorveteria do seu Alfredo... Quem sabe até a gente tenha conversado com o Mengele...
As lembranças são tantas que se fosse escrever, ficaria aqui a noite toda digitando. Foi muito bom relembrar!

Egna Mocelini Pomilio


Informando, só agora recebi esta tua mensagem. O "espia fogo" Egna, lá no alto era uma casinha ou construção de madeira muito bem feita contendo um telefone de manivela. Era para servir de aviso quando algum incêndio acontecia nas matas da Indústria Melhoramentos. De lá, à esquerda, se avistava uma pequena parte do Bairro de Perus. Numa das ocasiões que estive lá, bem ao lado daquela casinha vi uma cascavel sob o sol tirando uma soneca. Eu a matei com uma estilingada certeira na cabeça dela. Coitada, ela nem teve tempo de acordar para morrer. Disso muito me arrependo. Foi "coisa de moleque". Estando lá entre matas, serelepes e cobras, no silêncio do espia fogo parecia que se estava num lugar do fim do mundo. O lugar era muito agradável para se sentir numa calmaria e no sentir de não ser aquela importância que pensamos ser entre  aquela integração com a natureza quieta onde tudo lhe é igual sem distinções especiais.

Altino Olimpio