terça-feira, 31 de maio de 2016

Tudo culpa do lança perfume


Quando eu ainda não trabalhava, não fazia nada e também não atrapalhava o carnaval no clube onde eu morava estava chegando naquele meu estar precisando comprar um lança perfume para espirrar em outros no salão mas como não tinha dinheiro meu irmão falou vai carpir o meu terreno lá no Bairro de Perus que sem rodeios te dou cem cruzeiros e eu fui só que lá o mato estava grande o sol estava forte e eu não estava com sorte pois minhas mãos delicadas não queria calejá-las com o cabo da enxada então carpi só um pouco e lá naquele mato só peguei carrapato que muito me fizeram coçar o saco ai abandonei aquele trabalho resmungando que não era otário e com raiva voltei para onde eu morava e tomei banho esperando a noite chegar para meu irmão me pagar e foi quando aquele dinheiro me fez sentir como sendo o Luiz Inácio trambiqueiro e até mesmo pareceu que consegui aquele dinheiro vendendo mandioca roubada da mulher sapiens mas ai o carnaval chegou e meu pai falou não vá lá pular vá viajar não fique em casa e saia indo até aquele sítio de Atibaia que no passar dos anos ainda não se sabe quem são os donos e pode levar um amiguinho que lá tem um laguinho com dois pedalinhos e foi com eles que uma mulher aprendeu a dar grandes e invejadas pedaladas quando lá se encontrava de visita para banho se sol na grama tendo como parceiro um homem da elite que não era arruaceiro e que gostava de Brahma mas meu filho você também pode ir para Guarujá e te alerto desde já vai com o primo que ficou rico passear e dar um rolex por lá e com ele se instale num triplex já que o primo tem as chaves das portas e o porteiro não se importa se com ele você lá entrar mas saibam se esconder porque o dono de lá pode aparecer embora todos estejam convencidos que o dono de verdade é desconhecido entretanto não atendi ao conselho do meu pai e por bem ou por mal preferi ir ao carnaval mas não sabia que o castigo vem a cavalo pois pensando em me sair bem no embalo comprei um lança perfume que me deu trabalho pois logo sua válvula emperrou e não mais saia perfume pelo esguicho então tive que jogá-la no lixo e fiquei com raiva naquela hora porque havia jogado dinheiro fora e no fim do carnaval eu sabia que ia me dar mal porque meu irmão que era bom e um pedaço de pão ele  foi ver como estava carpido o terreno e viu que de fato lá ainda só tinha mato e ai ele me xingou de filho batuta mas a nossa mãe não tinha culpa e eu fiquei tão chateado mesmo sem ter pego chato no carnaval e como o remorso arde pensei em me confessar com um padre e para isso minha premissa foi  ir numa missa e naquele tempo já havia uma moça de nome Tela que dava por qualquer bagatela e lá também vi uma conhecida que não tinha medo do perigo pois vivia corneando o marido mas continuando lá vi que o padre era estrangeiro e novo no território brasileiro e quando alto ao invés dele ler Epístola de São João ele leu é pistola de São João ai não aguentei e cai na risada e aquela gente me olhou feio pensando que eu não valia nada e eu envergonhado com medo que pensassem que eu era um pecador fui saindo por um corredor resmungando assim seja e que assim seja e foi assim que eu sai da igreja mas meio zangado por não ter confessado para o padre o “golpe” que eu havia dado e que já era tão falado e até parece que tive um castigo e fiquei tonto pois cheguei até aqui sem vírgulas e sem pontos.


                                                                                 Altino Olimpio    

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Criança lembrança


Quando era menino ao levantar uma pedra que estava sobre a terra e ver que debaixo dela estava uma minhoca que sendo descoberta se contorcia pensamento não me havia se Deus existia.

Quando olhava pela janela eu só pensava naquilo que via e não no que não havia que as pessoas acreditavam que existia.

Quando lá fora chovia forte e suas águas escorriam pela rua de terra e formavam poças logo sobre elas eu me debruçava e no reflexo me via como o Narciso se via.

Todos os anos eu via o abacateiro florescer e depois seus verdes abacates aparecerem como num palco na tarde para os sabiás se apresentarem e cantarem. Fiquei moço com moças a namorar e nunca mais vi o abacateiro florido e nem os sabiás a cantar.

A cartilha escolar com as primeiras letras e ilustrações coloridas foram a primeira e mais apaixonante poesia da minha vida.

Naqueles tempos de comer doce de Maria Mole comprada no armazém tendo pra escolher entre a branca e a mais escura amarronzada já era um aprendizado para se ter preferências durante a vida.

Chutar lata vazia pelas ruas já era o dizer que ninguém mandaria em mim.

Quando nem sempre passava um enterro pela minha casa com o caixão do falecido sendo levado à frente acompanhado por muitas pessoas a pé e alguns familiares chorando meu pensamento parava de pensar no meu apenas observar o féretro a passar para só depois pensar em como a morte tanto medo podia causar.

Pela rua e se aproximando trazendo marmita vazia em que comia o pai se via vindo do trabalho para casa e para o filho isso era muita alegria.

Quando se via e se ouvia a banda do lugar tocar menino sentia revirar por dentro um sentimento que se fosse pra falar nunca iria conseguir explicar.

Mas o menino nunca pode gritar de alegria “o circo chegou” porque lá onde ele morava o circo nunca chegou e ele nunca viu tigres e leões enjaulados e nem palhaços engraçados para completarem seus tempos de criança.

                                                                               Altino Olimpio







  




domingo, 29 de maio de 2016

Nascer sem perceber e sem pedir


Alguém já escreveu: Quanto mais inconsciente mais feliz é o homem. A inconsciência que existia antes dele nascer o acompanha pela vida até ele morrer. Quando ele ainda não era e ainda não estava, num lugar qualquer do mundo, um homem e uma mulher na volúpia para obter gozo sexual, mais por descuido, provocaram uma gestação inesperada. Depois, sem antes ter existido para poder saber, sem antes ter existido para poder querer ou não querer, surgindo de dentro da fêmea humana, apareceu ao mundo uma nova criatura. Uma criança totalmente inconsciente, desprovida de razão e sem nenhum registro em sua mente virgem. Mais uma vítima para os adultos poluírem como quiserem com seus conceitos ridículos sobre a vida e sobre as inexistentes existências além da matéria.  Nascido então o homem, quando criança ele terá de submeter-se ao se igualar aos modos e aos comportamentos dos outros. Isso porque ele ainda não tem iniciativas próprias. Em todas as fases de sua existência ele é obrigado a se adaptar conforme as transformações vão surgindo. Sejam elas sobre a moral, sobre as leis, sobre a tecnologia incidindo em seu viver e etc. Ele nunca pode fazer tudo o que quer. Seus desejos nem sempre são realizados e isso pode causar frustração. Se ele se desviar para uma conduta condenada pela sociedade, isso o torna um infrator contra os costumes aceitos por ela. Em sua vida passa por tudo por que passam os outros, inconsciente que os imita em seus modos de viver, isto é, se submete a não se diferenciar deles para não ser considerado esquisito. Isso já é não ser livre para ser como quiser. Distraído, inconsciente da passagem do tempo, ele se vê numa idade avançada como se não a esperasse tão breve. Tempo de receber e de lastimar as notícias de amigos e conhecidos que morrem e também do pensar da própria morte já se aproximando. A vida pode lhe ter sido boa, mas, agora só na saudade, pois, a velhice se apresenta como sendo a decepção dela. A já percebida perda da vitalidade pelo lento andar, o rosto tornado quase irreconhecível por causa das rugas, a feiúra indisfarçável assassina da vaidade de ser bonito, isso tudo está a comprovar como a vida é bela (risos). Já me disseram que as pessoas ficam velhas e feias para não se importarem tanto quando são recolhidas do mundo. Não sei se isso é verdade. Mas, depois de me olhar no espelho deixei de me importar com a morte. Voltando ao homem, o coitado que não pediu pra nascer, “nasceram ele” e ele na vida “ficou ao Deus dará” de sua própria sorte (risos). Se inconformado com a velhice por ela o aproximar da saída do mundo, para o bem dele, existiram homens bem brincalhões. Ensinaram que o homem morre e “desmorre”. Morre e “desmorre”. Isto é a teoria da reencarnação (teoria) tendo o objetivo de levar o homem até a perfeição. Para isso ele reencarna aqui na terra muitas vezes até quando se torna perfeito para não mais precisar reencarnar. Tanto tenho procurado por homens perfeitos e só agora descobri a existência de muitos deles lá na Cidade de Brasília. Já aperfeiçoados, quando morrerem não mais precisarão reencarnar. GRAÇAS A DEUS! (risos) Entretanto, o homem, no mais das vezes inconsciente das realidades e irrealidades da vida, antes de nascer ele não existia, então nada sabia se ia nascer. Também, se não existia nem pedir pra nascer podia. No fim da vida também não sabe quando vai morrer, também não pede pra morrer, mas, vai morrer. Antes de morrer o homem existe, é consciente, mas, inconsciente também se depois de sua morte, como muitos acreditam, ele terá continuidade ou outra vida. Talvez seja verdade porque li em algum lugar: Homem, o eterno desconhecido de si mesmo. Eterno? Então pode mesmo ser verdade que a morte seja apenas uma porta para a eternidade. Isso deixa qualquer um feliz. Obaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

                                                                             Altino Olimpio




sábado, 28 de maio de 2016

Procura-se viva ou morta a felicidade



Ser feliz é o principal objetivo humano. Felicidade é a palavra mais conceituada, muito falada em todas as épocas entre todas as pessoas existentes no mundo. Afinal, qual é o verdadeiro significado dessa palavra? Sua definição varia conforme cada pessoa a julga ser. Seria saúde perfeita? Seria ter paz? Seria ser alegre? Seria amar e ser amado? Seria se rico? Seria ser belo ou bela? Seria ser inteligente? Seria ter fama? Seria sempre viajar? Para muitos a felicidade seria igual ao término de um filme romântico quando um casal de enamorados se beijando seriam felizes para sempre. Mas isso não existe. A vida é cheia de contratempos. Chego a duvidar que existam pessoas realmente felizes. Aquelas que assim se dizem, no mais das vezes mentem ou são propositalmente inconscientes de suas insignificâncias existenciais, de suas vidas por demais comuns e sem exemplos a serem seguidos por outros. O ser feliz significaria ser indiferente com o mal que aflige muita gente. Seria “fechar os olhos e tapar os ouvidos” para as atrocidades sofridas por muitos. Ser feliz é não se importar com aqueles sorteados com a morte por causa da fome. Ser feliz é desconhecer o quanto homens exploram homens neste solo “abençoado”. Por tudo isso e mais, ser feliz parece mesmo ser um estado de egoísmo intensificado pelo “cada um na sua” destes dias e se sentir independente das agruras sofridas por outros. Ser feliz pela sorte de ter sido humano e não um animal qualquer, é preciso ponderar se um animal qualquer não é o homem. Criatura da mais perversa! Sempre envolvido com mortes e com massacres. E raro existir um ano sem guerras. Os “homo sapiens” só se desentendem. Seria porque são inteligentes e racionais? Nem é bom imaginar se não fossem (risos).  A humanidade tem muitas de suas vergonhas e decepções a lastimar e nem sempre aprende a evitá-las. A tão infame inquisição católica torturou e assassinou muita gente tida como hereges e também como bruxas. A escravidão humana aceita como uma providência necessária e tendo existido por séculos, não teve misericórdia nem das religiões despreocupadas se era ou não do agrado de Deus. Antes da segunda Guerra Mundial, na Rússia o então Ditador Josef Stalin, como consta na história, foi responsável por mais de vinte milhões de mortes em seu próprio país. Na Grande Guerra, milhões de inocentes foram exterminados em câmaras de gás ou incinerados em fornos. Duas bombas atômicas dizimaram milhares de vidas nas cidades de Hiroshima e de Nagasaki no Japão. A ditadura de Mao Tsé-tung da China foi, como se estima, responsável por setenta milhões de mortes em tempo de paz. Esses horrores abalariam a felicidade geral se todos se conscientizassem da sempre existência de homens mentalmente deturpados e perigosos para a humanidade. Sabem-se, muitos leitores preferem escritos sobre flores, amores e sobre anjos sentados nas nuvens tocando harpa. Mas, aqui, estamos tratando da felicidade do ser humano e se vivendo entre tantos infortúnios ele ainda pode se considerar feliz. Aqui no Brasil, muitos têm medo de sair de suas casas por causa da violência, dos bandidos e dos assassinos de plantão. Mas, se todos se tornassem assaltantes, bandidos e assassinos, o medo de sair de casa deixaria de existir (risos). Neste texto cheguei até aqui, mas, ainda não sei se felicidade existe como muitos acreditam. Muitos tanto labutam para alcançá-la e quando a alcançam ela se escorrega e foge. Parece que ela é “impegável” (risos). Ainda bem. Se ela fosse material e visível, os políticos iriam criar impostos para ela. Por causa disso o povo ficaria mais endividado e “infeliz” (risos). Quanto aos ricos, eles poderiam declarar a felicidade no imposto de renda sem o perigo de ficarem na “malha fina”. Não acredito em felicidade, mas, mesmo assim sou muito feliz por não ser infeliz (risos).

                                                                            Altino Olimpio  


quarta-feira, 25 de maio de 2016

Tardes de Lindóia


Quem já percebeu aquele sentimento, não sei se nostálgico ou melancólico, dos instantes em que o dia está morrendo e nascendo a noite? Ou daqueles instantes não mais tão claros que quase já estão para o dia escurecer e assim anoitecer?  Muitas vezes isso me foi percepção. Hora para os pássaros se recolherem e para as galinhas irem para o poleiro. Antigamente, pelas ondas sonoras do rádio, às dezoito horas era a hora da “Ave Maria”, isso, pra quem ainda vive e se lembra. Sem dúvida, um homem soube tão bem relatar musicalmente aqueles momentos intermediários entre os dias e as noites quando parecia que a natureza se preparava para descansar. O homem se chamava José Gomes de Abreu, mais conhecido como Zequinha de Abreu. Nascido em Santa Rita do Passa Quatro em 1880 vindo a falecer em São Paulo em 1935 aos cinquenta e quatro anos de idade. Autor do mundialmente famoso chorinho “Tico-tico no Fubá”, também foi inspirado quando compôs a música “Tardes de Lindóia”. Cantada por nossos conhecidos artistas cantores como a Ângela Maria e pelo Francisco Petrônio, ao ouvi-los parece que se vê o fim do dia na antiga Cidade de Lindóia. Então, o Zequinha de Abreu percebeu, sentiu como ninguém, a emoção pra ele, de um fim de tarde numa cidadezinha do interior. Será que ele estava apaixonado quando compôs uma música com letra tão pertinente ao que ele viu e sentiu em Lindóia quando o sol recolheu seus raios de luz anunciando que o dia estava para terminar e todos poderiam ir descansar? Parece que o estou vendo, “vendo” em sua mente o fim do dia daquele lugar, durante a noite, pensando em como descrevê-lo como um poema, que, cantado iria provocar sentimentos parecidos ao que ele sentiu. Intento conseguido com estas letras da música:

Tardes silenciosas de Lindóia
Quando o sol morre tristonho
Tarde em que toda a natureza
Veste-se de véu, e sonho 

Mas que início cativante. Faz parecer que ‘a vida é bela’ e nada se interpõe contra ela.

Baixo os arvoredos murmurantes
De tênue brisa a soprar
Anjinho dos sonhos meus
Não sabes tu como é sublime contigo sonhar

Nota-se aqui um estado d’alma exaltado e um carinho especial para quem foi o anjinho dele.

Longe lá no horizonte calmo
As nuvens se incendeiam
Num incêndio de luz
Vibra e se exalta minh’alma
Na sensação que a seduz

A visão do horizonte e a visão do céu induzem mesmo a ter sensações de calma e de paz.

Um plangente sino toca
Chamando à prece a todos
Os que ainda sabem crer
Então eu sonho e creio
Beijar tua linda boca
Para acalmar o meu sofrer

Badalar de sinos que ressoavam pelos lares das cidades... Só de ouvi-los já era uma prece momentânea. Hoje, estamos na era de quando para muitos de nós “tudo já era”. Ouvindo a música em questão, ela parece conduzir o pensamento para épocas de quando não havia as tecnologias de hoje. A sensação principal era de mais as pessoas se verem e conversarem. Num lugar pequeno, fosse uma cidade, um bairro ou vila, quase todos se conheciam e em qualquer evento quase todos compareciam. Hoje, quem já tem muita idade e viu o local donde viveu ampliado pelo progresso, “ao olhar” para o passado, “vê” moradias e seus moradores que desapareceram como se nunca tivessem existido. E aquelas tantas pessoas que durante a nossa vida, de criança até adultos estivemos a conhecer e, no entanto, das tantas que já se foram, de quantas delas conseguimos lembrar? Voltando à música Tardes de Lindóia, se não fosse por ela e outras, o compositor dela, Zequinha de Abreu jamais seria lembrado, como, bilhões de anônimos que existiram pelo mundo, por não terem deixado “seus rastros” na história, não são lembrados e também são como nunca tivessem existido. Entretanto, nós que ainda estamos vivos e tendo quem se lembra de nós, ainda podemos brincar e cantar: “Lembrar deixa-me lembrar; Meus tempos de rapaz no Brás; As noites de serestas; Casais enamorados; E as cordas de um...”. Ah, é só pra homens. Mulheres não podem cantar: “Meus tempos de “rapaz” no Brás” (risos). Se bem que hoje os sexos se confundem e... ... ...


                                                                                       Altino Olimpio

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Uma história de amor




Uma história de amor

Sobre aquele dia escondido no tempo de lá do passado, não me lembro se viajei para aquela cidade do interior pelo ônibus da Viação Cometa, do Expresso Brasileiro ou pela Viação Pássaro Marrom. Sim, naquele sábado, trajado com terno e gravata, na Rodoviária de São Paulo, comprei passagem para ir para qualquer lugar. Sem se importar aonde o destino iria me levar, na viagem mais eu era o desperceber donde estava. Olhando pela janela do ônibus, meu olhar se perdia na paisagem sem apreciá-la. Eu estava muito chateado, triste mesmo. Vi a moça que eu tanto gostava aos beijos com um amigo meu. Que decepção e o amigo sabia o quanto eu gostava dela. Desilusão, como ela doía e eu não sabia. Distraído nem percebi quando o ônibus estacionou na principal praça daquela cidade. Era bonita, tinha coreto e até fonte cujos esguichos d’água se cruzavam ao se encontrarem no ar. Desembarquei do ônibus e a primeira coisa que fiz foi me ambientar com o lugar. Vi a Matriz, vi o cinema, a sorveteria, lanchonetes e vitrines de lojas já fechadas. Poucas pessoas circulando pela praça. O entardecer já havia ocultado o sol para logo vir o escurecer e com ele a lua aparecer. Eu já havia visto a lua estando bem longe de casa e em outra cidade. Não sei explicar como eram os sentimentos de vê-la, se eram de solidão, melancolia, de se sentir na distância ou mesmo de uma tristeza sem explicação. E foi nas minhas divagações que a noite chegou. Que surpresas ela iria me trazer? Lá estava eu para facilitar o destino a decidir meu futuro com alguém que eu não sabia quem. A praça antes solitária já contava com a companhia de muitas moças e rapazes surgidos para, como eu, em busca de sensações. A fonte luminosa que esteve em silêncio se tornou sonora emitindo cores que se substituíam enquanto músicas românticas se repercutiam. Ouvindo-as de perto, elas me provocaram o sentir de um vazio interior. Parecia que eu não tinha sorte com as namoradas. Esse pensamento me veio e para não lhe dar continuidade voltei a apreciar o movimento da praça. As moças, muitas delas todas sorridentes circulavam em volta da praça e os rapazes circulavam de encontro a elas, em direção contrária para ambos se verem de frente. Que flerte romântico! O aroma que se sentia era o de pipocas quentinhas quando aquelas moças me fitavam sorrindo sabendo que eu era um rapaz de fora, isto é, não era do lugar. Dentre tantos rostos vistos, tanto eu queria ver o de alguém especial. As voltas ao redor da praça se repetiam sempre com as mesmas moças, algumas se insinuando para uma aproximação e eu ainda esperando aquela especial. Talvez não fosse o meu dia de sorte e... De repente eu a vi! Nossos olhares se cruzaram. Meu coração, eu o senti bater mais forte. Ela não era uma moça como as outras. Ela era uma fada. Como podia uma beldade como ela estar livre num sábado à noite e numa praça? Como seria possível ela não ter namorado? Que ansiedade! Eu tinha que revê-la na próxima volta pela praça e o pensamento de não mais vê-la me atormentava. Lembrei-me de quando estive na Praça da Cidade de Bragança. Muitas moças bonitas por lá, mas, mais ou menos pelas vinte e duas horas, como por desencanto, elas desapareciam da praça e a gente que muito escolhia uma entre tantas, ficava só e “chupando o dedo” na praça vazia (risos). Entretanto, felizmente reencontrei aquela fada, me aproximei e convidei-a para conversar. Ela diminuiu o movimento de seus passos como se já estivesse me esperando. Suas amigas se afastaram na cumplicidade de nos deixar mais a vontade para melhor conversarmos. Depois de nos apresentarmos (eu não conseguia desviar o meu olhar dos olhos dela) ela me disse que sua intenção era só dar uma volta pela praça, pois, logo mais iria a um baile com os seus pais. Mas, resolveu dar mais uma volta, porque, simpatizou-se comigo e ficou com a curiosidade de me rever. Ela já estava tentando se despedir quando implorei para que ficasse na praça um pouco mais. Disse-lhe, por favor, não se vá. Por favor, fique mais um pouco aqui comigo. Não posso, disse ela, tenho que ir ao baile com meus pais e eles já estão me esperando. Insisti dizendo-lhe também quero ir, onde é o baile? Por favor, dá pra você entender que quero continuar a te ver? Continuar a ficar com você? Como não consegui persuadi-la acompanhei-a até uma esquina e lá nos despedimos com a promessa de nos revermos no baile. Voltei pra praça para me alimentar numa lanchonete e fiquei contando os minutos como para empurrá-los para eles passarem mais depressa. Finalmente chegou à hora de ir ao salão do baile. Não longe da praça, quando lá cheguei o baile já havia começado. Logo a vi quando ela também me viu e comentou algo ao seu pai que também ficou me fitando. Logo me aproximei e tirei-a para dançar. Aqueles cabelos longos e escuros, aqueles olhos verdes, aquele sorriso, aquela meiguice de sua feminilidade eram de enlouquecer. Eu já estava perdidamente apaixonado. Dançamos várias seleções musicais ao som da excelente orquestra que lá se apresentou naquele dia. Numa pausa da orquestra fui até onde ficava o bar para tomar um refrigerante. Lá já havia uns rapazes e deles ouvi várias indecências contra minha pessoa. Não pude reagir, pois, sozinho não poderia enfrentá-los. Eles eram do lugar e deviam estar enciumados por eu “ser de fora” e estar “dando em cima” de uma moça da cidade deles. Desconsiderei aquelas provocações e voltei para o baile, para os braços da única dama que meus olhos viam naquele salão. Fomos toda a emoção, todo o carinho e toda a felicidade que qualquer pessoa pode desejar até a orquestra tocar a última música do baile e quando a pedi em namoro e ela me aceitou. Naquele estado de alma exaltado nos despedimos com o compromisso de nos revermos no próximo sábado. Voltei para a praça para esperar o amanhecer e embarcar no primeiro ônibus de volta para casa. Sentei-me num banco mantendo na mente aquele rosto, aquele sorriso e aqueles olhos verdes daquela que deveria ser a mulher da minha vida. Até me via casado com ela e já com os nossos ainda pequenos filhos reinando pela nossa casa. Interrompendo minha imaginação, três cachorros abanando os rabos de mim se aproximaram. Pareciam cachorros abandonados, mansos que eram acariciei os três. Outro cachorro enorme apareceu e teve início uma briga entre eles. Tentei separá-los e foi quando aquele enorme cão me mordeu. Gritei e gritei de tanta dor e de repente aconteceu uma transformação, uma desgraça... Os cachorros sumiram... A praça desapareceu... Foi quando me vi em casa, no meu quarto e escrevendo pelo computador.  Não vi nenhum amigo beijando uma moça que eu gostasse. Não existiu aquela viagem a uma cidade do interior lá no meu passado. Não estive naquela praça encantada procurando o amor da minha vida. Em nenhum baile fui onde me apaixonei por uma fada. Isso não existe. Tudo não passou de uma imaginação engendrada para o meu passar do tempo de domingo. Contudo neste texto “dei” uma idéia de como o passado era mais romântico. Moças e rapazes tinham mais oportunidade de se encontrarem numa praça, com mais possibilidades para namoros “sérios” terminando em casamento. O advento da televisão no início da década de cinquenta do século passado veio para prejudicar os vai-e-vem de jovens em busca de romances nas noites e nas praças das cidades. As moças se produziam e saiam pelas praças com a clara intenção de serem notadas pelos rapazes. Isso tinha o nome de “footing”, que, no idioma inglês tem o significado de “ir a pé”. A televisão com seus programas, no mais das vezes, imbecís, incluindo programas em capítulos diários (novelas) sequentes até aos sábados, isso, parece que mais veio para “prender” pessoas em suas casas, esvaziando as praças, clubes e desfavorecendo as oportunidades de encontros para namoros. Hoje, nas noites de sábados e de domingos as praças ficam vazias. Perderam toda aquela atração de outrora. Os rapazes de hoje não mais têm a ilusão de se deslocarem para as praças das cidades do interior atrás de aventuras, porque, por lá só encontrariam a solidão. Mais fácil seria encontrarem grupos de jovens “craques” em footing pelas contagiantes alucinações.


                                                                                         Altino Olimpio

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Catar pinhão


Naquele lugarejo mantido por uma fábrica de papel tendo só ruas de terra, tendo só gente boa nas casas quase todas parecidas, tendo um rio para quem quisesse passear de barco e pescar, lugar dos muitos pés de mamonas, goiabeiras nas matas e abacateiro em quase todos os quintais das casas e outras árvores frutíferas, pássaros e borboletas em profusão, cantos das cigarras repercutindo pelos dias de sol de verão... Que lugar esplêndido de rapazes e moças bonitas. Minha irmã Anita e amigas, uma vez tinham ido num passeio para catar pinhão. Plantações de pés de pinhão (araucárias) da indústria de papel do local tinham muitas ao derredor daquele lugar místico. Mesmo em dias claros, era sombrio e escuro por dentro daquelas plantações que ocupavam áreas enormes de terreno. Também eu com algum amigo e com meu cachorro várias vezes fui buscar pinhão. Levava uma sacolinha de pano (bornal), estilingue e muitas pedras nos bolsos da calça. Embrenhava-me pela selva de araucárias me desviando de matas baixas que tinham espinhos, como, os pés de amoras silvestres ou selvagens. Caminhando por entre os troncos dos altos pés de pinhão, vez ou outra se encontrava esparramado pelo chão, pinhões que haviam caído de lá de cima da copa da árvore “pinhoeira”. Era de provocar uma emoção, embora simples, o achar, ver pelo chão aqueles comestíveis amarelos espalhados. Naquele frescor das sombras e naquele silêncio arborizado, a vida se interiorizava com a natureza acrescentando mais paz interior. Os pensamentos sobre quaisquer outros fatos da existência desapareciam. A vida não era outra coisa senão o catar pinhão. Uma real higiene mental! Quando não havia pinhões pelo chão era preciso derrubá-los lá do alto da copa de suas árvores. Era preciso explodi-los quando se encontravam unidos formando uma bola bem redonda. Para acertar a “bola” só se conseguia com uma estilingada. Era preciso ter boa mira para acertar. Quando se acertava... Póóóóóóóóó era o barulho que se ouvia do espatifar da bola antecedendo a queda espalhada dos seus pinhões. Ai era só catá-los pelo chão. Mais de uma vez trouxe aquele bornal recheado para casa. Era trabalho para a mãe ter que cozinhá-los. Hoje, já estando velho, quando me concentro para enviar boas vibrações mentais para outros (até parece), me “bate” uma grande tristeza pelas muitas pessoas que nunca em suas vidas foram catar pinhão (risos). Elas nem imaginam o que perderam por não terem ido. Elas nunca souberam o que é conversar com árvores. Eu também nunca soube (risos).

                                                                                Altino Olimpio
            
ont-size:14.0pt'> 



Futebol com melancia


Há anos, uma vez por mês vou até um restaurante da Avenida Paulista de São Paulo para um almoço, reunido com a “Turma dos Mais de Cinquenta”. Depois de ter almoçado e saboreado várias sobremesas, como sempre, deixo pro fim degustar os pedaços de melancia. Sentado junto a mesa com amigas e amigos de ambos os lados e defronte, naquele tanto “zum zum” das conversas e risos, ao mirar “meus pedaços” de melancia no prato para degustá-los, uma forte lembrança se apoderou de meus pensamentos. “Aquele dia do meu primeiro pedaço de melancia...” Quedei-me absorto inconsciente de tudo e de todos que estavam naquele ambiente. Distraído, mentalmente ausentei-me daquele lugar alegre e me vi distante, lá no passado criança, num dia de domingo, no clube de esportes do lugarzinho donde nasci e me criei. Sob o forte sol havia jogo de futebol. Como sempre, tinha presente muita gente conhecida do lugar. Arquibancada lotada, mas, a maioria sempre ficava lado a lado pela extensão das cercas laterais do campo de futebol que era de ripas de madeira pintadas. O clube, frequentado por famílias, ele era a única atração e distração local. “Naquele dia” estava eu junto à cerca onde era o barranco de um dos lados da arquibancada vendo o jogo do alto, quando, abaixo e a minha direita, por detrás da trave do gol, num espaço plano com gramas misturadas com vegetações rasteiras, foi onde aquele caminhão estacionou. Que havia naquele caminhão? Por que pessoas se aproximaram dele? A curiosidade infantil me fez ir até lá para ver e vi. Na carroceria do caminhão havia o que eu nunca havia visto, muitas melancias e dois homens as estavam cortando em pedaços para vender.   E eu menino fiquei “com água na boca” vendo pessoas mordendo pedaços daquela fruta vermelha. Que gosto ela teria? Como também tanto desejei um pedaço daquilo! Mas custava “quinhento réis” (cinquenta centavos) e eu não tinha. Mas eu queria e queria e então... “Pernas pra que te quero”. Sai de lá correndo sem parar todo afobado até chegar em minha casa para pedir dinheiro pra minha mãe e ela me deu. Ufa, que alegria. Outra vez em disparada voltei ao clube temendo que o caminhão já pudesse ter ido embora. Mas, não! Lá ainda estava ele. Comprei e desfrutei da delícia do meu primeiro pedaço de melancia. Com a casca verde por fora e com o que seria seu núcleo, o vermelho pigmentado por sementes pretas. Como era fácil ser feliz naqueles tempos. Naquele dia a felicidade estava num pedaço de melancia (risos). E, na lembrança daquele dia e do percurso que percorri ida e volta para buscar dinheiro em casa, revi as ruas por onde correndo passei, como também, revi quase todos os seus moradores que eu conhecia tão bem. Ah aquele lugar... Todos tinham as mesmas condições para viver naqueles tempos de quando se era pobre sem saber que se era. Retornando do passado para o presente voltei a ser sorrisos e atenção para os amigos do almoço. Eles, tão presentes no presente, conversando e distraídos como estavam, jamais perceberam que por alguns momentos, não estive lá com eles mesmo lá estando


                                                                                          Altino Olimpio 

Mistérios insolúveis


Muitas idéias foram formuladas sobre a vida do homem e o propósito dela. Mas, o mistério da vida é inacessível ao pensamento comum, ordinário. Esforços existiram e eles ainda existem para o homem se apoderar do compreender das causas que antecedem o efeito que culminam na criação dele. Essa questão não está à altura de qualquer pensador comum resolver e nem à altura de qualquer “tida autoridade” sobre esse tema, o mais complexo. Os seres humanos nascem, vivem e até suas mortes suas dúvidas os acompanham. Se Deus existe de fato, se existe alma e se ela é imortal. Comprovação, mesmo, inexiste para ser certeza inabalável, embora, muitos atestam tais existências como sendo certificadas pela fé, ou mais pelas suas convicções pessoais. A alma é a coqueluche das religiões. Sem ela não se poderia especular sobre outro plano de existência onde ela teria punições ou recompensas pelos seus comportamentos enquanto encarnada. Nisso, sobre a existência incorpórea, suposto está que a existência “espiritual” é que é a real. E a existência corporal serve apenas para ser o invólucro (corpo) para a alma poder ser e se manifestar neste plano material e objetivo.  Contudo, também, muitos vivem até morrer na certeza da existência de Deus, da alma, do céu dos falecidos e etc. Tudo isso é ensinado pelas religiões, pelos seus expoentes “credenciados” para isso, embora, sem mesmo eles nunca terem vivido as experiências extracorpóreas que ensinam a outros. Eles também aprenderam “o que sabem ou pensam saber”, provenientes de histórias do passado contidas em literatura sagrada. Então, muito fica pelo “faz de conta que é”. Mas, os fiéis, devotos para aprender nunca duvidam do que lhes é ensinado. Por isso, suas certezas inculcadas por outros seguem confortáveis até suas mortes. Continuar a existir depois da morte é mesmo um conforto. Só é uma pena que a alma não possa comer um delicioso pudim, chupar sorvete, saborear uma boa feijoada com uma cerveja gelada, votar, transar gostoso e etc. (risos). Talvez, muitas almas até que apreciariam “desmorrer” para poder voltar a viver com os seus corpos para com eles poder usufruir dos seus anteriores prazeres terrenos, decepcionando assim, com seus retornos a terra, o anfitrião do céu (risos). Quanto aos mistérios da vida, os homens sempre se utilizaram da imaginação para não deixar em branco o conhecimento do destino final deles.  Daí proveio à concordância quase geral sobre o existir de uma existência extraterrena para a morada dos desencarnados.

                                                                       Altino Olimpio






terça-feira, 17 de maio de 2016

Apartamentos do se apartar


À noite e a grande cidade com suas luzes acesas
Muitos se sentem a sós na imensidão dela
Em cada apartamento o viver é restrito
Da janela se vê ao redor o cerco de outros prédios
Com suas luzes também acesas revelando ambientes
De quem lá vive no desconhecimento recíproco
Abaixo também se vê luzes de lanternas de carros
Faróis acesos e sons de buzinas ecoando pelas ruas
Semáforos se alternando em suas cores
Verde e o amarelo e o vermelho condutoras
Tais imagens se tornam esquecidas e desprezadas
Quando a rotina delas se torna comum
E não mais exercem atração para a distração
Em apartamento não existe a visão da “casa ao lado”
Nem vizinhos para conversar no muro ou na cerca
Além dos do lado existem os de cima e os de baixo
Dependem da coincidência para se verem no elevador
Nem sempre são de sorrisos e de cumprimentos
O “cada um na sua” reflete como são suas intimidades
Apartamentos se grandes ou médios ou pequenos
Podem conter a monotonia de seus habitantes
Cada um no seu existir individual de ser
Um em cada cômodo de sua particularidade
Aprisionados em seus entretenimentos eletrônicos
Já sem disposição para o relacionamento familiar
Tornado tão comum e sem novidades para agradar
Dando condição para a melancolia se instalar
Com o sentimento de se estar longe do mundo
E de se sentir só e ser anônimo entre a população
O apagar das luzes da cidade pelo amanhecer
É o reclamar para o sol logo aparecer
Chegando ele vai dissipando solidão noturna
Ela que é mais presente aos fins de semana
Quando o ter onde ir é ficar preso no apartamento
O sol e os afazeres diurnos são atenuantes
De aborrecimentos melancólicos noturnos
Até novamente a chegada da noite
Da grande cidade com suas luzes acesas
Se iluminando indiferente de quem se sinta só
Mesmo com outros num mesmo apartamento

                                         Altino Olimpio
SR ALTINO 
mais uma vez me delicio com uma crônica!

Já começou pelo titulo - apartamento x apartar  (do separar, distanciar, isolar) nunca prestei atenção neste detalhe.
Várias vezes que morei em aptos fiquei admirando outros aptos e vendo como podemos viver em pequenas caixas isolados e sem ser conhecido - é triste e sinistro!
Isso me lembra do termo  aposentar  - ir para o aposento de pijama e se retirar da vida!
Grande abraço
Luciano G Nina crm 42164
Sabe que sempre quis morar apartamento! Às vezes ainda quero. Mais por tranquilidade que por outra coisa. Ando cansada de arrumar casa, lavar quintal. Penso em algo menor, bem menor. Por outro lado desisto quando penso nesta solidão comum dos moradores de um prédio. Desisto quando penso que não vou ver mais o vizinho, as crianças do lado, o cachorro da casa da frente, o som alto de uns festeiros que eu tenho aos fundos... Enfim, morar em apartamento só é bom pra quem fica fora o dia todo e volta só pra dormir. Aposentada em apartamento???? Nossa senhora, ainda mais aqui em Caieiras! Vou-me sentir enterrada viva.
Abraços
Fátima Chiati





















segunda-feira, 16 de maio de 2016

Dois homens diferentes, completamente


Na década de sessenta do século passado, trabalhei na S. A. White Martins do Bairro da Pompéia da Cidade de São Paulo. Naquele prédio de seis andares eu trabalhei no quarto como desenhista. Daquela época, um fato ficou na minha memória e o relato agora. Havia lá um diretor e como eu soube, ele tinha um caráter elevado. Sempre que ganhava presente de alguém vindo de algum relacionamento comercial, ele escrevia uma carta de agradecimento e a enviava junto com a devolução do presente. Fácil de explicar essa atitude. Para ele, o aceitar presentes significava ficar devendo favores. Pelo Brasil afora, como fiquei sabendo, quem aceitava presentes de fornecedores eram (não generalizando) os compradores das indústrias. Sim, soube que ganhavam, às vezes, presentes valiosos e por isso, quem os presenteava tinham mais chances de vencer concorrências para vender seus produtos.  Nesse caso, os presentes para os compradores eram o corromper de suas honestidades podendo ser a corrupção tão em voga. Extremo oposto daquele diretor da S. A. White Martins foi um ex-presidente do Brasil. Quando venceu seu mandato e deixou a presidência, ele não trouxe para seu antigo lar os presentes que ganhou apenas num veículo. Precisou de uma caravana para transportar os presentes que havia ganhado (risos). Com tantos presentes recebidos teria ele se tornado devedor para retribuir de alguma forma os privilégios com que fora presenteado? Mas, muitos dos seus presentes recebidos (sem segundas intenções... até parece) não puderam ser desfrutados, porque, todos não cabiam no seu apartamento. Então, encaixotados foram instalados num galpão, talvez alugado para isso. Sabem-se lá quando tais presentes poderão ser desencaixotados para algum uso. O ex-presidente sempre foi de um partido político onde se dizia primava a mais louvável ética. Se nela estava inserido o caráter, não sei. Finalizando, comparando o ex-presidente com aquele antigo diretor da S. A. White Martins, com qual deles se expressaria mais a dignidade humana como exemplo a ser seguido? Gozado, hoje com tantos valores desvirtuados que tanto me confundiram, até fico em dúvida sobre em qual dos dois teríamos o melhor exemplo para seguir (risos). Aquele que devolve presentes e não fica com o “rabo preso” ou aquele que não devolve e fica preso devendo favores a quem o presenteou? Que o Deus da Índia o “Brahma” nos ilumine.


                                                                                      Altino Olimpio 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A janela e o presente


Fui até a janela olhar para fora
As imagens são sempre as mesmas
A mesma rua e as mesmas residências
É difícil ver vizinhos fora de suas casas
O silêncio se escondeu nos barulhos
Dos veículos sempre a passar    
Pessoas desconhecidas agora passam
Passando ou não elas me são indiferentes
Seres humanos são apenas seres humanos
Igualam-se em suas ilusões e superstições
Sendo só o “já vi e ouvi” e nada acrescentam
Os segundos e os minutos e as horas
São o marcar do tempo dos homens
Imperceptíveis nestes dias sem agoras
Com tempos sem momentos diferentes
Que se repetem diferentes de outrora
Quando para tudo existia uma hora
Não como a qualquer hora de agora
Que seja qual for faz parte do meu tanto faz
O fechar das cortinas da janela
Deixou pra fora o mundo de fora
O pensamento procura algo para pensar
E reencontra a perceptividade do presente
O presente de agora sempre mais presente
O presente sem imagens e sem palavras
Sendo o forte sentir da vida sendo vivida
Ausente de pensamentos indesejáveis
Ausente também de quaisquer lembranças
Vida sendo como ela é e sendo o presente
Agora com sua percepção mais constante
Resultante das perdas das ilusões
Provenientes da existência agora mais longa
Pensamento meu e melhor amigo meu
Enquanto nós tivermos um ao outro
Nunca nos sentiremos abandonados
Somos aquele diálogo interno sem segredos
Preferindo viver longe dos mesmismos
Para o viver da nossa cumplicidade mental
Que diariamente nos entretêm e nos diverte
E até nos faz escrever

                                     Altino Olimpio












quinta-feira, 5 de maio de 2016

Amor aos ideais contrários

Tenho raiva das pessoas que não acreditam em milagres. Eles existem e aqui está um exemplo deles. Nesta terrinha boa abençoada por Deus, temos no Congresso e no Senado criaturas humanas sempre dizendo que lá estão para defender a democracia. Muito louvável! A democracia sendo protegida por sujeitos tidos como sendo comunistas. Percebem como milagres existem? Ao contrário, não existem democratas defendendo o comunismo. Isso é falta de equiparação e é não ter reciprocidade. Mas, isso não impede que neste país comunistas e democratas se dêem bem. Atualmente, o Brasil democrata é declarado como amigo de países comunistas. Um desses países até enviou para cá milhares de seus profissionais da saúde, “homens livres”, para colaborarem em sanar o problema da falta de médicos para a população democrata brasileira. Na troca de favores, pela amizade e pela milagrosa conveniência entre democratas e comunistas, o Brasil enviou para o país amigo, milhões de dólares para obras de lá. Não só isso, bilhões de dólares também já foram distribuídos entre outros países comunistas, como se sabe. Nunca houve inquietação política ou popular sobre isso, porque, neste nosso país, temos dinheiro de sobra. Nada nos falta neste paraíso do nosso viver. Por isso, às vezes, milhões de pessoas saem às ruas e avenidas em passeata de agradecimento, gritando e cantando envoltos pelas cores do verde e amarelo, comendo coxinha e também exibindo cartazes com inscrições favoráveis à situação, como: fica governo, nós te amamos, nós adoramos os nossos políticos. Viva a atual democracia comunista, viva o comunismo democrático. Bem, chega por hoje. Acabou este programa cômico. Precisamos voltar ao trabalho e que “entochem” a tocha da ilusão mundial.


                                                                                Altino Olimpio 

Passar a saliva funcionava


Muitos dizeres pelo jargão popular (gíria) do passado foram esquecidos. O “passar a saliva”, por exemplo, foi um daqueles dizeres que desapareceram. Passar a saliva significava passar a conversa numa moça e convencê-la para namorar. No dia dezessete do mês de abril de dois mil e dezesseis, aconteceu no Congresso Brasileiro (só podia ser) durante votação para a aceitação de um processo de impeachment um fato romântico que até foi televisionado. Um deputado, tal de Jean Wyllys carinhosamente cuspiu no rosto do muito macho e valente deputado Jair Bolsonaro. A seguir o cuspidor correu como para provocar um corre-corre e um pega-pega lá no Congresso Brasileiro. Mas o Bolsonaro, homem de família, para manter sua reputação preferiu desconsiderar aquela prevaricação. Pergunta-se: Será que a cuspida não teria sido para “passar a saliva” no Bolsonaro? Teria sido isso e todos interpretaram diferentes pensando ter sido uma desavença entre os dois?  Somente os dois podem esclarecer. Ás vezes o rancor entre duas pessoas pode ser um amor que esteja oculto (risos). O fato foi mais engraçado do que a engraçada antiga Escolinha do Professor Raimundo e da Praça da Alegria da televisão. O Conselho de Ética da Câmara bem que poderia homenagear o belo salivador Jean Wyllys por ter sido protagonista de um bom espetáculo para o povo brasileiro (risos).   

                                                                                     Altino Olimpio






terça-feira, 3 de maio de 2016

A desonestidade nacional

     A desonestidade nacional

     Quando aos dezoito anos de idade eu era um rapaz simples e ingênuo de Caieiras, vim para a Cidade de São Paulo à Rua Brigadeiro Tobias para “tirar” minha carteira de identidade, isso em 1960. Naquele local, um salão enorme, nunca eu havia visto tanta gente tendo o mesmo objetivo. Era fila para tudo, como ainda hoje é e faz parte da felicidade brasileira. Estando na fila minha vez chegou para o passar da tinta nos meus dedos para o copiar das minhas impressões digitais. Havia vários homens para isso. Aquele senhor que o bom destino escolheu para me atender, foi-me muito simpático, sorridente, muito amigo. Senti-me especial e muito valorizado. Mas, depois que ele já havia transferido minhas impressões digitais para um cartão, ele educadamente, honestamente, carinhosamente me pediu algum dinheiro. Isso foi um susto quase vertigem para um jovem do interior daquela época. Inacreditável, como um senhor tão “honrado” sendo um funcionário público, já tendo seu salário mensal pode pedir dinheiro por algo que já estava sendo pago por fazer? Depois do ocorrido ainda fiquei por perto para “apreciar” aquele meu primeiro motivo aprender a amar ao próximo. Essa prática “legal e profissional” era usual entre todos aqueles atendentes de lá. Meu amor pelo próximo não ficou só nisso. No transcorrer da minha vida perdi vários “negócios” por não ter oferecido compensações extras para vencer concorrências. Um engenheiro arquiteto perguntou-me qual era a minha comissão sobre um produto que eu vendia para as construtoras. Respondi-lhe
   de quanto era a comissão e o cara de pau propôs dividirmos à meio minha comissão para, então, comprar o que eu vendia. Nunca mais voltei lá e devido a ele reforcei muita mais a minha admiração e estima pelo próximo... Bem distante da minha presença. Essas lembranças “suaves” são de quando a engenharia estava em crise e eu sendo projetista precisei “me virar” como vendedor (risos). Naqueles tempos eu não tinha evolução (talvez ainda não tenha) e por isso eu era maldoso no pensar: Será que existe algum brasileiro que preste neste país (risos)? Hoje não mais penso assim. O “pegar o que não pertence” faz parte da filosofia de vida. Pra alguns até é motivo de orgulho. Sinônimo de inteligência. Quando se levava uma televisão pro conserto, talvez a peça dela para ser trocada custasse pouco, mas, técnico que era técnico podia cobrar dezenas ou centenas de vezes o valor da peça do conserto. O mesmo podia acontecer num conserto de automóvel. Qualquer pessoa inexperiente sobre mecânica poderia ou não, dependendo do mecânico, pagar a mais pelo conserto. Pelo menos eles fazem alguma coisa. Que dizer das religiões que ganham dinheiro só falando? Todos sabem disso. Entretanto, alguém consegue imaginar quantas falcatruas monetárias existem por dia entre os brasileiros? Existem alguns desinformados que fecham os olhos e ficam pensando que o Brasil inteiro está roubando (risos). Nossa, que exagero!Não é bem assim. Nem todos têm a mesma oportunidade (risos). Ainda me lembro da propaganda, daquela da lei da vantagem do jogador de futebol, o Gerson, que, “vinha bem a calhar” para muitos brasileiros: O tirar vantagem em tudo. Entretanto, se diariamente existe desonestidade entre os civis brasileiros nas suas relações comerciais é porque muitos deles “sem querer” acatam esse costume vigente desde há muito tempo, sendo regra quase geral. Os políticos antes de serem como tais, de donde surgiram eles? Teriam surgido de algum convento? Se não me engano eles surgiram do povo. Então... Coitadinhos, eles têm as mesmas fraquezas, as mesmas ilusões, as mesmas ambições, as mesmas incoerências e até mesmo as mesmas safadezas, as mesmas desonestidades com que o ser humano explora ser humano. Só quem acredita em milagres pode pensar que todos eles sejam honestos sabendo de onde vieram, isto é, do povo. Mas, a responsabilidade dos políticos é maior do que qualquer cidadão comum, porque, ao serem empossados como deputados, senadores ou presidente, eles ficam sob um juramento, aquele de “manter, defender e cumprir a Constituição, OBSERVAR AS LEIS, promover o bem geral do povo brasileiro e etc.” Infelizmente, como se sabe, tal juramento é desprezado quando alguns idiotas eleitos servem-se do ganho ilícito para seus contentamentos de bandido, conforme a Mídia sempre divulga. Atualmente temos no Congresso Brasileiro e no Senado, algumas mulheres competentes e por isso, inteligentes. Mas, “só para contrariar” temos também algumas ignorantes e fanáticas defensoras do que e de quem não se deve defender e como irrita ouvi-las quando estão na tribuna com suas argumentações falseadas. Elas seriam mais felizes em seus Estados de origem e em suas casas sendo ótimas operadoras de fogão e operadoras de máquina de lavar roupa (risos). Quanto aos parlamentares, não todos, mas... Nesta época de quando parece que a ética, a moral, a sinceridade e a honestidade fugiram correndo do Brasil para evitarem seus assassinatos, os lugares deixados por elas foram ocupados pela corrupção, ela sendo mais evidente nos meios políticos.  Como não sou pessimista, tenho a esperança que daqui a apenas um milhão de anos o Brasil só terá em seu solo seres humanos perfeitos sem qualquer desvio de conduta que possa prejudicar seus semelhantes. Esse tempo chegará, só é preciso termos paciência. Oremos irmãos.

                                                                           Altino Olimpío