quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Saudades dos bailes de outrora

Esquecido no guarda-roupa estava um livro (talvez o penúltimo) de atas do antigo Baile da Saudade do Clube União Recreativo Melhoramentos de São Paulo, da Cidade de Caieiras. Primeira ata do livro conforme está escrito:
“Ata da reunião ordinária realizada no dia 20 de maio de 1964 com a presença dos senhores diretores foi aberta a sessão as 19,30 horas.
Nesta reunião ficou resolvido enviar ao club da saudade do Brasil F. C. convite para o nosso baile. Em seguida foi lida a correspondência recebida dos senhores Pedro Godói, Carlos Generali, Artur Del Porto, Alfredo Casaroto, Luiz Nani, Pedro Dal Osto, Nerio Boreli, Jorge Dias de Moraes, Jaime Crispim, todos pedindo demissão, que foram concedidas ficando nosso diretor artístico encarregado de contratar músicos. Nada mais havendo a tratar encerrou-se a sessão as 21,00 horas”.
Secretário Stephan Kiss
Presidente Rubens (Não consegui decifrar o sobrenome, seria Crispim?).

Terceira ata do livro: “Ata da reunião ordinária realizada no dia 17-10-64 com a presença dos snrs diretores as 20,00 horas. Foi lida e aprovada a ata anterior, em seguida foi lida a correspondência recebida dos snrs José de Araujo, Nivaldo Soares, Nicolau Cardoso, Antonio Melo, José Osvaldo Polkorni, Nelson Calandrini. Todos com propostas para ingressar no nosso quadro social, que foram aceitos. Do snr Oswaldo Crispim pedindo sua demissão. Em seguida foi lido o balancete que foi aprovado. Ficou resolvido enviar ao senhor João Menegati, agradecendo seu donativo de Cr$ 20.000,00 uma carta. Sem mais a tratar encerrou-se a reunião as 22,00 horas”.
Secretario Stephan Kiss 
Presidente Rubens… (outra vez não consegui decifrar o sobrenome)  

Infelizmente, aqui não serão citados nomes de muitas pessoas muito conhecidas em Caieiras e que constam nas demais atas. Isso porque em muitas atas existe dificuldade para lê-las e como visto nas duas atas acima reescritas na íntegra nem constam os nomes dos diretores do clube.
Uma curiosidade na ata de 5-3-65: O Odair Donas solicitando o empréstimo de 200 copos para a festa de seu casamento. Também eu tive o prazer de participar da diretoria do Clube da Saudade de Caieiras, cujos bailes foram realizados no salão ou caramanchão do Clube União lá no Bairro da Cerâmica: “Ata da reunião do Clube da Saudade realizada no dia 31 de janeiro de 1973. A mesma teve seu início às 20,15 horas, com a presença de sua nova diretoria assim constituída: Presidente Odecio Gardim, Vice Miguel Rodrigues, 1º tesoureiro Mauro Pelizari de Souza, 2º tesoureiro Durval Barbosa, 1º secretário Leonel Del Porto, 2º secretário Plácido Cunha, Diretores de Patrimônio e Social Altino Olimpio e Eduardo Pinto cunha (o Sucuri). Essa mesma diretoria foi reeleita para 1974 com o Mauro P. de Souza sendo o presidente no lugar do Odecio Gardim”.

No início essa diretoria foi criticada pelos diretores fundadores do clube por não mais exigir que a orquestra do Senhor Sergio Valiosa tocasse músicas de ritmos bem antigos, como, maxixe, xote, baião, chorinho, valsa e etc. Tais ritmos mais eram para as pessoas já bem idosas. Outra curiosidade (ou maldade) era o apelido de Baile do PM (Baile do Pau Mole, risos), apelido este dado pelos mais jovens do lugar, mais por causa dos ritmos muito antigos “dos bailes do tempo do onça” que só os muito mais velhos é que sabiam dançar. Também, à meia-noite o baile era interrompido para os associados se alimentarem. Tudo era servido em duas ou três fileiras de mesas bem compridas e por isso os sempre brincalhões de plantão do lugar diziam que era a hora de se comer no cocho (risos). Essa e outras “intelectualidades” fizeram parte da história local. Eta cidadezinha de gente sempre pronta para criar situações cômicas onde nada de cômico existia (risos).

Nas duas gestões em que participei da diretoria do clube, nós já servíamos, à meia-noite, os lanches ou refeições sobre mesinhas individuais e por isso não havia interrupção nos bailes. Os repertórios musicais com ritmos para dançar mais atuais como, samba, mambo, rumba, valsa e bolero, promoveram mais animação aos bailes. Casais mais jovens foram atraídos para o quadro de sócios do clube. Isso nos fez limitar também o número de sócios, recusando outros interessados por causa da estrutura simples de que dispúnhamos. Sócios a mais poderiam superlotar o salão de baile e por isso tínhamos uma quantidade considerada certa (mais ou menos 100) para poder bem administrar o clube. Terminando, as atas do livro terminam na página cem, na data de 9/6/1976 com a diretoria do clube constituída pelos seguintes senhores: Lourides Del Porto, Nivaldo Soares, Fiorelo Rosolem, Odecio Gardim, Raul de Oliveira, Leonel Del Porto, Paulo Pinho e Rafael Coccuza. Outro livro de atas deve ter tido existência como continuação deste que está em meu poder, mas, não me lembro porque ainda o tenho sob minha guarda. Triste dizer que a maioria daqueles daquelas diretorias do clube da Saudade de Caieiras, bem como muitos dos seus associados, hoje, só continuam existindo nas lembranças de quem ainda os recordam. Os que se foram... Foram existentes para promoverem agradáveis entretenimentos para a existência de outros.

                                                                                     Altino Olimpio    










  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A tapeação da vida

A tapeação da vida

Quem muito evoluiu (ou já envelheceu) tendo perdido a curiosidade de qualquer coisa querer ver, querer saber, querer participar e tendo perdido o desejo de querer fazer, querer comprar, querer conquistar, querer ter e querer ser, tal pessoa já venceu as ilusões da vida restando-lhe apenas a ilusão de que se consegue viver sem elas (risos). Qualquer pessoa que se conheça ou não, “sem sombras de dúvidas” ela é uma iludida. Ela pensa que é alguém até que a morte a separe da vida tornando-a ninguém. Morrer não é ilusão. Nascer também não. Mas, no viver ela pode ser. Entre o nascer e o morrer, a ilusão não descansa para impedir que a realidade possa se expressar e decidir sobre o que convém ou não para a vida ser autêntica sem os engodos que redundam em decepções e desilusões futuras.

Entretanto, as ilusões parecem ser necessárias. Muitas delas servem para os entretenimentos. Mesmo sendo de momentos passageiros e ridículos no mais das vezes, muitos não conseguem ficar sem eles. Outras ilusões servem para desejar o que depois só servirá para atrapalhar. As ilusões são as tapeações para que a vida seja mais, digamos, atrativa. A maior desilusão seria conversar com uma pessoa que não tenha ilusão (risos), se é que neste mundo de doidos exista alguma. Por não ter ilusão, ela não concordaria que o Brasil seja o país do futuro. Por não ter ilusão, ela não acreditaria em eleição. Por não ter ilusão ela não acreditaria em político e nem em Partido bom. Ela desagradaria os iludidos e eles são muitos nesta nação onde corrupção é real e não é ilusão. Mas, como dizem, tem alguém vendo tudo isso e... Será que isso também não é...

                                                                                         Altino Olimpio








quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A professora inesquecível

Minha amiga Maria Egna Mocelini Polimio me surpreendeu com o envio de uma fotografia antiga. Ela nem imagina a alegria que me proporcionou enviando-me a foto das professoras que lecionaram no grupo escolar donde nós nos diplomamos pela conclusão do curso primário da escola do lugar donde nascemos. Na foto as professoras estão num pequeno coreto que havia no terreno com um tímido jardim ao lado direito da escola. No feriado da terça-feira do dia da Proclamação da República do Brasil, ao rever a foto ela me transportou ao passado de quando na rua defronte a escola vi minha irmã Anita e outras meninas chorando. Perguntei-lhe porque estava chorando e ela só me respondeu: Não me enche, não me enche. Só depois fiquei sabendo que o choro fora porque era o último dia de aula para ela e para as outras meninas, e que nunca mais iriam ver a tão estimada professora, a Dona Silvia Brondy.
Dois ou três anos depois também eu cheguei até o “quarto ano” do primário e sob a “maestria” da Dona Silvia. Um “grande invento” da época já havia acontecido: A caneta esferográfica. Era de plástico amarelo transparente e se via por dentro um tubinho também transparente com tinta azul, que, era visível conforme ia se “gastando”, ou melhor, ia se acabando a tinta, mas, demorava. Antes dessa “novidade” e comodidade, para se escrever a tinta era preciso ter um tinteiro, isto é, um vidro de tinta. A caneta era um cabo de madeira com uma pena metálica encaixada numa das pontas. Repetidas vezes precisava “molhar” a ponta da pena no tinteiro para se escrever. E, para secar a tinta depois que se escrevia com ela no caderno, era preciso pressionar sobre o escrito um papel grosso “absorvente” de nome “mata borrão”. Mas, logo a pena se tornava inútil pelo seu manuseio e era preciso comprar outra. Era um espetáculo visual comprar outra lá no armazém. O “caixeiro” (vendedor) abria uma gaveta do balcão donde havia muitas de diversos tamanhos e modelos. No mais, eram claras na cor de metal, ou, amarelas como cor de ouro. Vê-las era agradável para a curiosidade infantil. 
Olhando para a Dona Silvia na foto ela me transportou para o passado e para aquela sala de aula donde semanalmente eu a via com o seu carisma contagiante. Eu a estou “vendo” agora pela memória indo de carteira em carteira para corrigir as lições de casa dos alunos. Entre outras lições, sempre havia quatro problemas de matemática. Como eu errava todos, com um lápis vermelho sempre a Dona Silvia escrevia sobre a lição da página do meu caderno a nota zero. Nenhum interesse eu tinha para ter problemas para resolver (risos). O meu interesse, normal e autêntico para a minha idade pueril era para o mundo que existia fora da escola e não na escola. Os dias ensolarados eram bonitos e musicados pelos cantos das cigarras. Eram coloridos pelas asas das borboletas pousadas nas flores silvestres e refrescante com a lagoa da “Vila da Ponte Seca” para se nadar. O futebol de rua ou de campinho era o expandir dos gritos dos meninos pelo “jogo de bola” tão competitivo entre as vilas do lugar. Empinar papagaio no morro, catar frutos na mata, como, goiaba para a mãe fazer doce com elas e outros entretenimentos da época, tudo compartilhava para o êxtase infantil e para as minhas notas zero da escola (risos). Elas perduraram por meio ano até quando eu quis e quando decidi me esforçar para melhorar “minhas notas” para poder “tirar o diploma” no fim do ano. Daí, minhas notas saltaram do zero para cem. Isso não foi comentado por mim e nem pela Dona Silvia como se o “inesperado” fosse assunto para alguma ocasião futura e veio mesmo a ser.
Naquela classe mista de alunos do quarto ano escolar, as meninas eram bem arrumadinhas. Os meninos nem tanto. Quase todos, inclusive, compareciam à escola, descalços e vestindo calças curtas. Era costume da época e nada tinha a ver com pobreza. Entretanto, quando chegou ‘aquele fim de ano’, ele trouxe a ansiedade e o nervosismo para “enfrentar” os exames que iriam avaliar quais alunos teriam condição de “passar ou repetir o ano”. Para isso o dia da tortura chegou (risos). Muita concentração aos exames naquele dia. O silêncio esteve propício até para meditar. Interessante, meninas e meninos, todos foram bem nos exames. Até aqueles “atrasados”, assim como eram conhecidos e que, a Dona Silvia os ajudou para não errarem nos exames que iriam qualificá-los para obterem seus diplomas. Então... No último dia de aula, lembro-me tão bem de quando a então professora Dona Silvia Brondy, de costas para a parede donde estava a lousa e de frente para os alunos, de pé e encostada em sua escrivaninha, ela se pôs a dar conselhos para os alunos nunca se descuidarem do que aprenderam na escola. Principalmente para aqueles que ela previa que não mais iriam estudar e para aqueles tidos como tendo muita dificuldade em aprender e, até foi citando os nomes deles. Como ela não citou o meu nome, algumas “meninas bonitinhas” fizeram-lhe o favor de citá-lo. A Dona Silvia significando o “não” com o agitar do dedo indicador de uma das mãos me “socorreu” (risos) e lhes disse: Não, ele não! Ele até superou muitos dos que estão aqui.  Ouvir tal testemunho foi animador para o meu ego.
A solenidade da entrega dos diplomas para os alunos daquele 4º ano escolar foi em dezembro de 1952 e ocorreu no salão do cinema do então Bairro da Fábrica de Papel de Caieiras, pouco tempo antes de ele ser destruído por um incêndio. Igual a outros, nunca mais vi a Dona Silvia e ela por ser como era, meiga, responsável e atenciosa deixou muitas saudades. Deixo aqui o “link” de um samba antigo que homenageia as professoras e nos recorda delas:
                                                                                       Altino Olimpio


 


sábado, 19 de novembro de 2016

O odiado Donald Tramp

Interessante, ou melhor, preocupante como a mídia sugestiona, influencia, polui e corrompe a mente de muitas pessoas incapacitadas para perceberem que são massas de manobras. Por aqui no Brasil ficaríamos livres das idiotices de outros países se a mídia que adota e tanto adora praticar o mal do massacre mental contra o povo, selecionasse para divulgar, apenas utilidades praticáveis. Mas, não, ela sobrecarrega todo o ar e todos os espaços do país com as imbecilidades, das quais, ela é especialista mor. Formadora de opinião, suas vítimas são todos aqueles desprovidos de discernimentos e de cultura para contradizê-la, para contrariá-la e mesmo para desprezá-la.

Uma de suas influenciadas, sendo ela de meu contato amistoso, numa de nossas conversas não me lembro como surgiu o nome do bilionário americano Donald Tramp. A reação dela sobre ele foi violenta: Homem nojento, eu o odeio, ele não presta, tarado sem vergonha. Sobre essa histeria inesperada por mim, eu lhe perguntei se ela o conhecia pessoalmente, se morava nos país dele, se era vizinha dele, se era detetive para saber tanto sobre a vida dele (risos). Mas, ela continuou a ofendê-lo com as mesmas palavras anteriores. Daí, para provocá-la eu lhe perguntei: Escuta, mas você é evangélica, como pode maltratar tanto alguém que você nem conhece? Você não sabe que é preciso perdoar e amar o inimigo? Não sabe que somos todos irmãos e que é preciso amar o próximo? (risos). Ela respondeu: Não quero saber de nada disso, ele é nojento, cafajeste e etc.

Parece que “o mundo está virado de ‘pernas’ pro ar” (risos). Esses meios de informações, eles também são capacitados para deformações. Neste Brasil que conheço, como se sabe, a serviço da mídia alguns formadores de opiniões famosos (os prostitutos da distorção dos fatos) se vendem para opinarem pela proteção de corruptos e até para enaltecerem-nos como honestos. Voltando à amiga que se “desvangelizou” por uns momentos, como ela, tantas outras sofrem da mesma doença de nome “midialização degenerativa e incurável” (risos). Quanto ao bilionário americano, o que foi eleito para ser presidente, se ele não roubar nenhum crucifixo do país depois do término de seu mandato, tudo estará bem. E a mídia brasileira, ela perturbou demais e demais “incucando” no povo daqui a disputa eleitoral americana, se já não bastasse a nossa, que já é tão enfadonha.


                                                                                      Altino Olimpio  

domingo, 13 de novembro de 2016



Paixões de outrora são histórias agora

Música para lembrar paixões do passado
Passado das paixões como foi bom
Sempre tinha alguém que se queria bem
Alguém para nos chamar de meu bem
Não se sabia que uma pessoa querida
Era só para aquela fase vivida da vida
Sem continuação daqueles alegres agoras  
Para quem só era daqueles outroras
O passado ah o passado lembrado
Fugiu no tempo sem deixar recado
Mas de quem gostei tenho tudo marcado
Aqui neste presente das recordações
De quando as paixões e as emoções
São agora apenas nomes de situações

Altino Olimpio

www.youtube.com/watch?v=cxldSb-q2mE


Meditação


Sobre este assunto “meditação”, talvez, nenhuma das pessoas de meu relacionamento esteja interessada em sequer saber sobre sua utilidade ou prática. É raro alguém conversar comigo sobre isso. Então, esse tema não faz parte do cotidiano das pessoas que conheço. Este texto não sendo direcionado para elas, mais ele está para as pessoas interessadas em suas evoluções, mentais ou “espirituais”, diferentes daquelas “populares” praticadas através das religiões. Técnicas existem várias para a prática da meditação, como também existem explicações sobre o objetivo delas. Como é óbvia, a busca quase sempre é pelo inusitado, isto é, conseguir uma percepção extra-sensorial além da percepção dos sentidos convencionais. Para isso, além da necessidade de se relaxar num ambiente confortável e silencioso, muito se requer a ausência de pensamentos. Essa impossibilidade decepciona quase todos, por pensarem que, sempre fracassam nessa tentativa de excluí-los para poderem realmente meditar.

O excluir pensamentos na meditação, como dizem, seria para facilitar, “dar espaço” para a possibilidade da recepção de um “insight”, sendo ele uma súbita captação de uma solução para algum problema, ou ainda, sendo a recepção de uma mensagem insólita. Para quem não consegue se livrar dos pensamentos (e ninguém consegue) e fica a se lamentar, a explicação é simples. Nós pensamos e não deixamos de pensar porque nós temos memória. Igual ao passar do tempo, ininterrupta, ela é um exteriorizar de pensamentos em profusão e sem interrupção. Não há como interromper a atividade da memória. Só seria possível se existisse algum mecanismo físico, que, ao pressioná-lo pudéssemos paralisá-la (desligá-la) temporariamente. Daí sim a mente ficaria livre de pensamentos para absorver pensamentos outros que fossem insólitos. Mas, infelizmente, “com a memória desligada nada seria registrado” e a meditação seria inútil, como inútil é sempre nas vezes, de quando, oriundos da memória os pensamentos que surgem, atrapalham sua eficiência.

Existe aquela técnica de mentalmente ficar repetindo um mantra na meditação, se concentrando nele para “tentar” estancar os pensamentos. Por poucos segundos até que se consegue essa “proeza”. Entretanto, se concentrar num mantra (ou num pensamento fixo) tentando torná-lo predominante na mente num esforço para impedir pensamentos aleatórios, esse esforço já não seria um estorvo para um insight qualquer e desejado? Outra “técnica” é aquela de não tentar impedir os pensamentos e ficar acompanhando-os conforme apareçam, para “ver” como surgem e como se dissipam. Isso mais se parece com devaneio do que com meditação. Talvez sirva bem para o propósito de diversão de quando não se tem o que fazer.

Também, concentrar-se na respiração, como atestam, é uma ótima meditação. Existe farta literatura sobre isso à disposição de quem queira usufruir dos seus benefícios. A meditação sempre teve como objetivo o desejo do expandir da consciência para outros planos além daqueles comuns a todos. Instituições afins com o propósito de promover o preparo para seus associados galgarem “as alturas” de tais planos, tendo também em seus ensinamentos as “técnicas de meditação”, elas solicitam que seus membros associados comuniquem suas experiências resultantes de suas meditações, quando tais experiências sejam sobre fenômenos subjetivos, abstratos. Contudo, nunca soube do êxito de alguém sobre alguma percepção extra-sensorial derivada de alguma de suas meditações que fosse relevante para ser revelada para a instituição a que pertence. Entre meditação, reza ou oração, qual seria a mais eficaz para se obter resultados práticos e reais? Nunca vou saber, pois, não fazem parte do meu cotidiano.


                                                                                    Altino Olimpio 

domingo, 6 de novembro de 2016

O Extraterrestre

O Extraterrestre

Aquele homem já há algum tempo aposentado, sem ter o que fazer para se ocupar, ele se propôs a refletir sobre a existência, não a dele, a dos outros. Falando consigo mesmo ele se perguntava se os seres humanos são normais. Como sempre gostou de ouvir músicas, sobre ela foi a sua primeira reflexão. Elas sempre foram de provocar emoções para os românticos. Como exemplo a letra de uma música do passado: “Ninguém me ama ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor, a vida passa e eu sem ninguém e quem me abraça não me quer bem...” Talvez o compositor dessa música tenha tido mesmo vivido essa situação de abandono, mas, algum cantor ou cantora ao cantá-la em público, agradou e agradeceu pelos aplausos. Ambos, música e interpretes dela tornaram-se sucesso. Entretanto, cantoras ou cantores quando se apresentaram num palco para cantarem tal música, nenhum deles esteve triste e infeliz como a música está a dar a entender. Mentiram ao cantar que não eram amados, que estavam infelizes e que se sentiam abandonados e mesmo assim foram aplaudidos. O mesmo acontece com qualquer outra música que esteja a expressar tristeza ou alegria. Chamam de arte o se fazer estar no lugar de outro sem estar. Será que os seres humanos são normais? (risos).

Por todo o mundo milhares de pessoas frequentam estádios para assistirem aos jogos de futebol, coisa que, aquele velho homem sem ter o que fazer não se envolve. Num gramado, vinte e dois marmanjos de dois times desse esporte ficam chutando uma bola. Uns chutam pra cá, outros chutam contra pra lá até que a bola entre num dos gols. Na arquibancada repleta por torcedores (sofredores) muito é o gritar, o xingar, o roer das unhas e até mesmo, as vezes, acontece o brigar entre as torcidas dos times adversários. Para muitos, ver o time de seus corações perder um jogo, isso resulta num mau humor às vezes incontrolável. Será que os seres humanos são normais? Assim se pergunta aquele homem do início deste texto (risos).

Diariamente, semanalmente, mensalmente e anualmente, mais a atenção das mulheres são voltadas para o assistir das telenovelas. Mas, elas são irritantes e inúteis para a cultura. Mais são sobre maus exemplos. São repletas de intrigas e mais intrigas e como é intrigante o existir de pessoas que conseguem se sentar num sofá de uma sala e aos capítulos se entregarem “de corpo e alma” a seguir o enredo de um desvairado qualquer autor de novelas medíocres.  Muitas pessoas precisam se preencher e por isso se preenchem com qualquer coisa, nem que seja fútil e inútil. Se entreter com o que só serve para se entreter só é útil para quem ganha com o preparar do entreter para outros. Será que os seres humanos são normais?

Aquele homem em seu refletir lembrou-se do que dizem da democracia e sorriu. Sempre ouviu dizer que nesse sistema de governo é o povo quem exerce a soberania (até parece). Através do voto secreto, não tão secreto o povo escolhe políticos para representá-lo na administração e nas decisões importantes para o bem do país. Acontece que muitos eleitores, principalmente os com pouca instrução que não se interessam por política, nas eleições eles votam em qualquer um. Os que se julgam mais entendidos, mais inteligentes para votar e não votam em qualquer um candidato, quase sempre são enganados, pois, não é incomum eles votarem e elegerem corruptos que se apropriam do erário num administrar em causa própria. Quando não, seus eleitos ficam a mercê dos interesses de poder de seus partidos políticos ao invés de se dedicarem para a solução de problemas do país. No Brasil existem tantos partidos políticos que redundam em discórdias entre eles e só servem para atrapalhar o viver do povo. Será que os seres humanos são normais? (risos).

E aquele homem desocupado retroagiu seu pensamento para o passado. Lembrou-se de quando a mídia televisiva compactuando com interesses ocultos, muito divulgava cenas lamentáveis dos maus atendimentos e dos maus tratos dos doentes nos hospitais públicos “gratuitos” do sistema de previdência do país. Doentes sendo atendidos deitados em macas e sem higiene pelos corredores dos hospitais superlotados de enfermos, outros morrendo antes de serem atendidos e etc. Tudo isso foi um golpe (risos) para facilitar e forçar a necessidade da existência dos primeiros Planos de Saúde como “salvação” para quem já estava amedrontado e indignado com as condições precárias dos nossos hospitais. Aqueles hospitais, que, “por direito” da população que paga por muitos impostos, tinham o dever de atendê-la e bem. Hoje, os Planos de Saúde são uma doença psicológica para quem não os têm ou para aqueles que não mais conseguem pagá-los por serem tão caros. Entretanto... Será que os seres humanos são normais?

Neste país nada se cria e tudo se copia. Palavras estas do saudoso sábio apresentador de programa de calouros, Abelardo Barbosa, o conhecido como Chacrinha que faleceu em 1988. Por aqui já copiaram do exterior o dia do Halloween, ou, o Dia das Bruxas, agora também comemorado até nas escolas envolvendo crianças ingênuas iguais aos ingênuos adultos, como, seus pais e seus professores. O costume para esse dia é se fantasiar de bruxa, de vampiro, de caveira e de outros horrores do folclore sobrenatural. Ser criança não é um privilégio só das crianças, também é para os adultos que nunca deixam de ser crianças. Tudo faz parte da evolução humana. Mas, aquele homem reflexivo que julga e critica costumes pensa: Será que os seres humanos são normais? (risos).

E o homem pessimista continuou pensando: Por todo o mundo existem milhões de cidades com os seus milhões de praças onde foram erigidos incontáveis templos para a reverência de um poder que nunca se revelou objetivamente. Isso não impediu catástrofes, calamidades, acidentes, guerras, doenças, muita mortandade precoce e etc. Muitos propagam uma entidade que não é de agora, mas, agora na invisibilidade ainda atua como protetor e conforto para os visíveis. Com tantos acidentes, tantas doenças, tanta fome no mundo, tantos roubos, tantos assassinatos, tanta exploração do homem sobre o seu semelhante, existe alguma proteção de fato, sem ser aquela imaginada? E outra vez: Será que os seres humanos são normais?

Os homens acreditam que quando os homens morrem, eles continuam “vivendo” num outro lugar que não se sabe donde, e ninguém e nem o famoso Sigmund Freud conseguiria explicar onde ficaria esse lugar (risos). Será que os seres humanos são normais? Com essa pergunta repetida, o homem que esteve a se concentrar no que pensou serem desvarios dos seres humanos, por não mais suportar viver entre tantas incongruências, o coitado enlouqueceu. Por pensar não ter as mesmas idéias e mesmas condutas dos seres humanos, ele cismou que não era daqui, isto é, não era humano e sim um alienígena, um extraterrestre. Louco como ficou foi visto gritando e falando sozinho pelas ruas: Goool, goool, “7 a 1” pra Alemanha contra o Brasil, foi golpe, foi golpe da oposição sim, viva a ditadura democrática, eu vim de outro planeta e não sou delirante como vocês, pra mim pau é pedra e pedra é pau, eu acendo o farol do carro nas estradas para os cegos que não enxergam de dia, eu só voto em ladrão se ele for meu irmão... Chega de risos, a “coisa” é muito séria e não é bom brincar, mas... Será que os seres humanos são normais?

                                                                                        Altino Olimpio












quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Tentações religiosas


Às vezes me vejo a lembrar de minhas andanças pelo passado e fatos vividos vão reaparecendo na minha mente. Garoto de então, foi lá na Capela de São José que ficava no lugar mais alto do hoje extinto Bairro da Fábrica de Papel de Caieiras onde aprendi o catecismo. Foi por iniciativa própria, pois, nunca havia visto, pelo menos por uma vez, o meu pai numa igreja. Talvez por isso eu seja hoje, como é sabido, muito religioso (risos). Mas, juntamente com outros, minha Primeira Comunhão foi realizada na Igreja Nossa Senhora do Rosário do Bairro de Caieiras. Lembro-me que depois houve guloseimas para a meninada no comemorar do sagrado evento. Como “um assunto puxa outro”, o padre daquela época, muito querido e famoso, sempre se reunia com a garotada num páteo plano da igreja para jogar bola e, sem tirar a batina. Época boa de quando pela simpatia e dinamismo do padre ao promover entretenimentos, os jovens frequentavam a igreja, como eu, por ter sido um Congregado Mariano.    

Parecendo ter um ponto fraco como o do “Calcanhar de Aquiles” da mitologia grega, o padre surpreendeu tendo praticado com muito amor o amor ao próximo com algumas mulheres. Parecia não se importar com o Dia do Juízo Final e por isso comecei a pensar que esse tal dia do além fosse apenas uma possibilidade remota. Não soube se o padre em seus sermões dominicais se referia ao adultério. Soube que houve um afastamento dele para que ele se ausentasse da região. Pelo zunzum que ouvi, fora porque ele era um simpatizante do espiritismo. Nunca acreditei nisso, foi apenas um zunzum. Mas, que ele era espirituoso, isso, ele era sim. Ele, tendo partido para sempre do lugar que tão bem conquistou, deixou algumas mulheres “só a ver navios” onde não existia mar (risos). Depois dele houve outro, um padre português que “pisou na bola”, pois, teve que deixar da butina, ou melhor, da batina, porque, fugiu com a mulher que o profanava e já não era segredo. Este texto aqui em curso é “água com açúcar” para quem hoje tenha o hábito de assistir as novelas televisionadas e queira detratar, destituir os fatos que, queiram ou não, foram parte da historia do município.

Histórias “cabeludas” sobre pessoas de qualquer lugar sempre existiram para se contar ou para se evitar. Isso ainda pode deixar qualquer pessoa “com a pulga atrás da orelha” pelo receio de que uma história sobre ela possa ser lembrada abalando sua reputação ou a de algum parente dela. (Risos, e o linguajar do passado misturado com gíria, como acima, bem que era engraçado). Continuando, os anos se passaram e quando as lembranças do padre benfeitor e histórico já estavam quase esquecidas, eu tive a oportunidade de revê-lo por volta do ano de 1965, no Centro da Cidade de São Paulo, na Praça da Sé. La estava eu com minha futura esposa num feriado para assistir a um evento, cuja atração era uma missa a ser realizada para os soldados do nosso exército. A praça toda esteve “tomada” por eles e eram muitos, todos fardados de verde como nunca eu havia visto antes, tantos deles reunidos num mesmo lugar. Estando eu meio “exprimido” numa das calçadas da praça com minha, então, namorada, vi quando quase rente a mim passou, com outras autoridades militares, o padre que tinha conquistado o povo da terrinha donde nasci. Todo soberbo estava ele, fardado também, pois, ele era capelão do exército. Não deu pra ver se foi ele quem conduziu a missa “ao ar livre” daquele dia, ocupado que estive dando mais atenção pra namorada.

Num momento depois se ouviu uma voz ordenando o descansar para os pracinhas que, estavam na “posição de sentido”. Quase todos eles, ao mesmo tempo, ficaram batendo os pés ao chão como para relaxar seus músculos. Isso foi o provocar do barulho de um tropel produzido pelo bater de botas ao solo asfaltado. Minha namorada desatou a rir, porque, brincalhão como sempre fui, falei-lhe ao ouvido, que, os pracinhas, como se estivessem dando coices, eles ficaram parecidos com cavalos. A cena daquele tropel me foi instantânea para tal comparação. Nós muito rimos juntos, mas, ela quando gargalhava não parava mais. Fiquei com receio que isso pudesse nos causar alguma complicação se alguns dos pracinhas percebessem que estivemos rindo deles. Felizmente eles não perceberam. Contudo, o que isso “teve a ver” com a história do padre? Nada! Apenas aconteceu no último dia em que eu o vi ainda tão altaneiro e me lembrei daquelas gargalhadas saudosas.

Anos depois eu soube da morte daquele padre que muito deu no que falar pelos benefícios que produziu para o lugar donde fora destinado a cumprir a nobre missão religiosa e social tendo, por isso, sido muito querido, estimado e agradecido pelo povo de então.  Ele esteve na Itália na Segunda Guerra Mundial e no fim dela em 1945 retornou para Caieiras.  Seu nome, “Padre Aquiles Silvestre” também é nome de rua. Aqui, num jeito brincalhão e mesmo ousado de escrever crônica, um lado considerado malicioso de uma parte de uma história regional, brevemente esteve tentando, mentalmente, conduzir outros para “o como era o antigamente” daqueles tempos de quando éramos mais felizes e não sabíamos, e isso, está no dizer de muitos que são daquela época da simplicidade de viver sem as sofisticações destes dias desta era, que, mais provocam o distanciamento entre as pessoas.


                                                                                         Altino Olimpio  

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Traições e pecados foram prazeres

Naquele pedacinho do mundo, na cidadezinha de Caieiras do passado, qualquer pessoa tinha lá sua notoriedade. Lá ninguém ficava no anonimato. Todos se conheciam, sempre se viam e de todos, todos sabiam. Quem era quem, casado com quem, pai de quem, filho de quem, neto de quem. Em que seção da fábrica trabalhava e que profissão tinha e se era chefe ou subordinado e etc. Sabia-se até de quem tinha um caso extraconjugal “proibido” pela moral de quem não tinha um caso igual (risos). E esta crônica é dedicada a eles para o desagrado de quem gosta de tapar o sol com peneira e não gosta de falar das traições e dos “pecados” sensuais e sexuais das vidas alheias.

Naquele lugar onde a moral nem sempre sozinha habitava, existia aquele clube que era cúmplice para facilitar o que não podia se revelar. Enquanto um dos diretores do clube ficava por lá exercendo suas funções, outro que frequentava o clube e que era jogador de futebol aos domingos, ia até a casa do tal diretor “visitar” a esposa dele “nas sombras da noite”. Muitos anos depois, o próprio jogador me contou isso aos detalhes e como se vangloriava! Faz tempo que ele morreu e como era um livro aberto não levou nenhum segredo para o túmulo (risos). E aquela respeitável senhora alemã também... Quem diria, hein? Mas, já não se praticam traições e pecados tão prazerosos como se praticavam antigamente (risos). Muito tempo já se passou e aquele lugar que não mais existe, só na memória ficou com os segredos eróticos que sepultou.

                                                                                         Altino Olimpio  








 




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O Cemitério da Cerâmica e a lembrança dele

Ainda me lembro de quando para o início do mês de novembro, minha mãe Carmem plantava lírios brancos num dos canteiros da horta lá de casa, no Bairro da Fábrica de Caieiras. Eram eles para o feriado do Dia de Finados. Meu pai Alberto comprava maços de velas para a ocasião. Garoto ainda, minha irmã Anita me levava junto para irmos aos dois cemitérios daqueles tempos. O primeiro que ficava no Bairro da Cerâmica já era desativado e o outro ficava lá na Vila Cresciuma, hoje Centro de Caieiras, onde, continua sendo a última morada daqueles que se despedem dos que continuam vivos.  O trenzinho, ou melhor, a maquininha com mais vagões de passageiros do que era habitual, no Dia de Finados, saindo do Bairro da Fábrica com os vagões perfumados e coloridos pelas flores que os passageiros portavam para seus entes queridos desaparecidos, parava na Estaçãozinha da Cerâmica, onde cerâmica não havia e lá só se fabricava papel celulose.

Desembarcados da maquininha, enquanto ela se distanciava para seu trajeto final, eu, minha irmã com outros seguíamos a pé pela rua de terra e pelos trilhos dela até a entrada do Cemitério da Cerâmica que ficava à esquerda no começo da Rua dos Coqueiros, isso, pra quem vinha do Bairro da Fábrica. À direita lá estava o Rio Juquery. Da rua até a entrada do cemitério havia um grande e espaço quadrado e gramado muito agradável para os olhos antes da entrada do cemitério. A seguir, passava-se pelo portão de madeira e assim se adentrava àquele cemitério dos antepassados de Caieiras. Muitas pessoas lá compareciam para o anual “visitar” de seus nonos, avós e bisavós, limparem suas sepulturas e embelezá-las com flores. Também, muitas pessoas lá se reviam e aproveitavam para atualizarem suas conversas. O dia era propício para rever gente amiga de todas as vilas do lugar, como, das vilas de Caieiras, da Fábrica de Papel, do Monjolinho, da Calcárea, do Bonsucesso... Daquela gente daqueles dias finados de visitas ao cemitério, muitas já morreram e as não muitas que ainda sobrevivem já são idosas, inclusive eu.

A ninguém conheci daqueles que lá estavam sepultados.  Todo haviam falecidos antes de eu nascer. Pelos nomes inscritos nas sepulturas, ou melhor, pelos sobrenomes conhecidos se sabia quem eram seus parentes que os “visitavam” naqueles dias feriados dedicados aos finados. Talvez não seja agradável dizer que um cemitério seja bonito, mas, assim eu considerava aquele desativado do Bairro da Cerâmica. Lá havia um túmulo “especial” onde eu e minha irmã acendíamos as velas e depositávamos os lírios brancos de minha mãe. “Pertencia” ele à Valdete Olimpio, nome este de um ainda anjo que, nascido em 1936 só viveu por seis meses. Às vezes, quando me lembro, sinto saudades daquela irmãzinha nascida antes de mim, mesmo não a tendo conhecido. Mas, e aquele pássaro que, numa das vezes que estive lá, sobrevoou em círculo o cemitério e depois retornou para a mata donde ele veio, aquela que ficava ao fundo do cemitério? Teria sido para imaginar, inventar alguma superstição? O pássaro... Garotos sempre foram mais curiosos, mais observadores que os adultos, daí a visão do pássaro. Minha curiosidade era pra ver as caveiras, conforme diziam, elas e outros ossos ficavam num buraco num dos muros daquele recinto silencioso dos já idos para o além. Caveiras eu nunca as vi, só vi o escuro donde diziam que elas ficavam (risos).

Aqueles dias de finados mais pareciam dias de festa. Lembro-me do carrinho donde se fazia “algodão doce” e vagamente do homem que o fazia e o vendia. Depois de termos estado no “cemitério de baixo” de Caieiras (como se dizia) se ia a pé para o cemitério da Vila Cresciuma. Lá, muito mais pessoas compareciam, porque, lá estavam sepultadas pessoas da geração mais recente. Entretanto, para os jovens até era uma boa oportunidade para os flertes. Lá se via as mocinhas que a gente gostava e elas não sabiam, como, vice-versa também. Agora com tudo mudado, o romantismo tendo sido abandonado, nem mais vou aos cemitérios, finado que estou para esse “comprometimento” sem os flertes de outrora (risos).

                                                                                       Altino Olimpio
     







segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O último prazer da vida


Esta é a história de um homem “bem vivido”. Muito ele cuidou de sua própria integridade fisiológica. Lembrando do passado, ele pensou que também fora ignorante como os outros eram, pois, de igual para igual, ele também se submeteu aos erros e exageros de sua alimentação, sem se preocupar se ela poderia lhe causar algum dano. Frequentar restaurantes era a sua felicidade gustativa. Em sua casa, sua esposa o mimava bem, sempre lhe preparando apetitosos alimentos compostos de carne e de gordura. Lembrar disso até lhe “dava água na boca”.

Numa ocasião soubera que estava hipertenso e daí começou a se preocupar com sua saúde. Programas de televisão sobre “boa alimentação” difundida por jovens nutricionistas que têm muita e muita vivência e muita experiência sobre nutrição e tudo sabem sobre o “poder muito poderoso” das propriedades dos alimentos, vendo-as e ouvindo-as, o homem se interessou em mudar seus hábitos alimentares. Tornou-se vegetariano fanático. Quando conversava com alguém sobre o comer carne ele dizia que não a comia porque seu estômago não era cemitério (risos). Em casa, às vezes tinha atrito com a esposa e filhos porque eles não se dispunham a aceitar o exemplo dele como sendo o melhor para a saúde deles. Brigava com a esposa quando ela não lhe comprava produtos da alimentação chamada de orgânica, que, já tinha conquistado os aficionados pela alimentação “preventiva” contra danos da saúde.  

Mas, coitado do homem. Tudo fez para evitar doença para poder viver mais, comendo melhor. Infelizmente, de nada adiantou seu “sacrifício” em deixar de saborear os alimentos mais saborosos, os tidos como prejudiciais para impedir o viver mais, porque, esteve condenado a morrer bem antes do que esteve a prever. Ele cometeu um assassinato e por isso esteve na prisão, no corredor da morte aguardando a dele. Seu dia para isso chegou e ofereceram-lhe a escolher a última refeição a que ele tinha direito antes de morrer. E ele pensou... Uma feijoada... Bife a role... Cupim assado... Um grande bife a milanesa... Linguiça de porco... Naquele dia e naquela hora, comida vegetariana ou orgânica... Nada disso! Qualquer um na hora de morrer iria querer ter mais prazer (risos). Não importa saber qual refeição o homem escolheu, também porque, esta história é uma ficção. Infelizmente para os bois, porcos e frangos, coitados, pois, eles não têm salvação. Eles fazem parte da “cadeia alimentar”. Culpa de quem criou o mundo assim e eu não sei quem foi. Ah se eu soubesse...


                                                                                   Altino Olimpio 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Franco da Rocha, Cine Marajá e suas lembranças

Aquela moça estava doente e acamada. Os dias se passavam e ela ficava a observar uma pequena árvore que ficava num espaço entre a janela do quarto donde ela estava e uma parede do lado oposto. Os dias eram frios e estavam sempre nevando. O vento forte e gelado aos poucos ia derrubando as folhas daquela árvore. Todas as manhãs a moça contava quantas folhas ainda restavam resistindo ao vento. Ela recebia visitas em seu quarto e também a de um velho homem tido pelo pessoal daquele lugar, como sendo apenas um ser humano simples, comum, mal vestido e desprestigiado. A moça o tratava bem e confidenciava para ele: Veja pela janela aquela pequena árvore com as folhas que lhe restam em seus galhos, sendo poucas agora e que o vento ainda não as derrubou. Em cada dia passado elas foram diminuindo. Sei que estou muito doente e quando a última folha cair derrubada pelo vento da noite fria e nevada eu vou morrer. E o velho a contradizia para confortá-la e que tudo era apenas imaginação dela.

Logo, numa noite nevou e ventou muito. Ao clarear do dia a moça, ansiosa, ela olhou pela janela. Ela viu que todas as folhas que restavam caíram da pequena árvore. Mas, sobrou uma que não caiu. A última folha não caiu, então, ela se animou, seu semblante se iluminou, pois, a última folha resistiu ao vento e isso lhe significou que ela não ia morrer. Algumas mulheres entraram no quarto e logo foram falando pra moça o que havia acontecido. Aquele velho homem fora encontrado morto, talvez por ter ficado muito tempo ao frio do relento, onde foi encontrado. A moça que havia ficado alegre se entristeceu pela morte daquele velho e amigo. Pensando sobre aquele triste e inesperado acontecimento, distraída a moça dirigiu seu olhar para aquela árvore desfolhada e naquele instante uma forte rajada de vento derrubou o pequeno galho que sustentava aquela última folha da árvore que ainda existia. Mas, a folha não caiu, ela ficou suspensa no ar. Mas como foi possível isso? Então, a moça percebeu o que ocorrera. A folha não era folha. Era um desenho, era uma pintura dela na parede oposta donde ela estava. O velho homem a havia pintado antes de morrer de frio. Aquela última folha que não era folha foi pintada na parede para a moça acreditar que ela não iria morrer se uma folha resistisse ao mau tempo. Jogado ao chão próximo à parede ficou à vista os materiais que foram usados para a pintura daquela folha de árvore. E assim a moça entendeu que aquele sacrifício do velho foi para salvá-la.

Esta foi uma das quatro histórias contidas num filme que assisti no Cine Marajá da Cidade de Franco da Rocha, na minha juventude. Ao escrevê-la estive pensando naquela noite de então e as lembranças me foram surgindo. Dia de semana e sozinho fui àquele cinema porque, anteriormente vi o cartaz de propaganda daquele filme e me interessei em assisti-lo. Para quem antigamente ia pra Franco da Rocha, pra passear ou mesmo namorar, o principal problema era o fato de que pra se voltar de lá, o último trem passava muito cedo, antes das vinte e duas horas. Não havia outra condução para mais tarde. Não me lembro se já existiam os “cata loucos” (risos), aqueles ônibus assim mal apelidados, cujo trajeto deles era de Franco da Rocha até a Praça Princesa Izabel da Cidade de são Paulo. Mas, lá no cinema o filme que eu quis assistir ficou por último, isto é, para depois dos trailers de outros filmes e do primeiro a ser projetado que não me recordo qual foi. Finalmente teve início o filme que eu quis assistir e o tempo foi passando e chegando a agonia do saber que ia perder o último trem para voltar para casa. Aquela dúvida, aquela disputa do “fico ou não fico” até o fim do filme foi vencida pelo “fico e aconteça o que acontecer depois”. Assim me acalmei e me concentrei no filme e o assisti até o fim.

Terminada a seção de cinema já bem tarde da noite, sai pela rua com a preocupação de como iria voltar para casa. Passei pelo Clube Dezessete, assim como ele era chamado e onde uma vez lá estive num baile. Já não havia mais ninguém pelas ruas. Tudo estava deserto. Mais a frente, passei pelo Cine São João e logo cheguei à proximidade da estação do trem. Seria onde iria decidir como resolver sair daquela situação preocupante, provocada que foi pela minha irresponsabilidade de jovem. Valeu à pena assistir ao filme, mas, a consequência do depois dele foi sentir a aflição que eu senti: Ter que sozinho e na escuridão transitar a pé até Caieiras. Melhor seria caminhar pela ferrovia do que pela rodovia que demorava mais. E fiquei numa indecisão naquele “vou e não vou e daqui a pouco eu vou” por algum tempo. Sorte minha! Enquanto estive titubeando apareceu um automóvel e eu conheci o motorista. Um rapaz que já o havia visto lá no clube de onde eu morava, mas, nunca havia conversado com ele. Não me lembro porque ele parou o veículo próximo a mim, só lembro que aproveitei para lhe explicar minha situação de estar sem como regressar para onde eu morava. Nisso pedi-lhe uma carona. Ele, percebendo a “gravidade” da minha situação, disse para o amigo que estava com ele “vamos levá-lo”.

Aquele “anjo da guarda” da minha noite de irresponsável me trouxe até a estação de trem de Caieiras. Minhas lembranças chegam só até aqui. Esforcei-me para lembrar se naquele dia eu já morava na Rua dos Coqueiros de Caieiras ou se ainda morava no Bairro da Fábrica, mas, não consegui me lembrar. Se tivesse lembrado eu saberia se ainda tive que caminhar por mais de uma hora entre a escuridão e as matas que ladeavam a estrada até chegar ao Bairro da Fábrica com medo dos fantasmas, que como diziam, eles ficavam assombrando lá no fim da subida da famosa “Serrinha”, assim como ela era conhecida. Franco da Rocha de outrora tinha cinemas também transformados em lojas agora. Tudo é para o progresso, entretanto, “pela lembrança” sempre tenho regresso para onde quero.


                                                                                    Altino Olimpio  

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Fumaças da saudade


Dezesseis horas da sexta-feira, dia sete de outubro de dois mil e dezesseis. Tarde de sol bem agradável e céu de azul escuro como nunca havia visto entre os espaços do branco algodão das nuvens. Ouvindo a música “The sound of music” do filme “Noviça Rebelde”, cantada pela Susan Erens da Orquestra do Maestro André Rieu, olhando para a distância do “azul e branco” do céu, com o pensamento sem pensamento, minha alegria de viver daquele momento foi premiada por visões de um passado que pensei esquecido. Vi-me ainda menino no final do tempo da utilização da locomotiva a vapor (Maria fumaça) da Indústria Melhoramentos de Caieiras. No trajeto do Bairro de Caieiras para o Bairro da Fábrica donde eu nasci e morava, à noite, a locomotiva puxando seus vagões de passageiros abertos de ambos os lados, eles eram para os passageiros o interagir com os ruídos que ela provocava rompendo o silêncio noturno. Que saudade daquele sacolejo do vagão e do piiiiiiiiiiiii estridente do apito dela. E ela com o seu pfum,pfum,pfum, pfum... pfum... pfum... Som característico soltando pedacinhos de luz na escuridão da noite, ou melhor, soltando brasas pelo ar. Elas penetravam pelos vagões donde as pessoas se davam tapas para apagá-las tentando evitar que elas queimassem a pele de seus rostos e pescoços. Quando queimava bem que doía (risos). Às vezes aquelas brasas queimavam e furavam as roupas dos passageiros para só depois eles verem o prejuízo na claridade de suas casas (risos).

Era muito divertido e emocionante aquele translado com a Maria fumaça com seus vagões sem qualquer iluminação. Para os namorados fogosos daquela época que queriam se beijar as escondidas com receio do “o que poderão falar de nós” a escuridão era proteção contra os de “língua comprida ou linguarudos”, aqueles que comentavam sobre as quem eram as “brasas encobertas” daquele lugar paradisíaco donde o amor proibido nem sempre ficava oculto para sempre. Mas, o assunto aqui é sobre a “máquina a fogo”, assim também como era chamada a Maria fumaça daqueles tempos de outrora. E, restam poucas pessoas ainda vivas daquelas que o destino as fez viver para ver o fim de um período romântico de quando a fumaça da locomotiva parecia escrever pelo ar a sua despedida para depois se tornar parte da história, da mesma história do povo simples e feliz daquele lugar de agora apenas da nossa memória.


                                                                                     Altino Olimpio 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A estupidez está na moda


Ah! É difícil achar o caminho que leve a considerar a existência de Deus em meio à confusão mental e tumultos em que se encontra a humanidade. Ela não se comporta com respeito ou como sendo temente a Ele, embora, o ser humano adulto confie em Deus como qualquer criança confia em seus pais, mas, ambos podem não ser o que se espera deles. Pois, está cada vez mais difícil viver num mundo tão conturbado sem poder reagir, gritar e desabafar a decepção com essa raça de seres humanos considerados como sendo o ápice da criação, mas, mais são da “má criação”.  O mundo vive sob um bombardeio proveniente de uma guerra psicológica que é muito “agradável e contagiante” que nos torna facilmente dominados e até coniventes com ela, para sermos “emburrecidos”.
Como não haveria eu de reclamar e ser crítico estando em meio de um mundo onde os homens exploram homens, mentem, desmoralizam, corrompem, roubam e matam?

Desde muito tempo me parece que os políticos e as religiões gostam mais dos incultos, talvez porque, sejam eles os mais preparados para promover prosperidade para outros. Mal posso ler um jornal sem me decepcionar com as notícias sobre os fatos tão lastimáveis do dia a dia. Não sei quais são os prazeres das pessoas ao se sentarem numa sala para assistirem programas de televisão que mais são atentados contra seus caracteres, contra suas morais ou inteligências. Também não sei quais são as alegrias que possam promover as tais das redes sociais que prendem muito as atenções e ocupam o tempo dos que tem muito tempo para perder (risos). Agora, neste mundo cada vez mais barulhento povoado com muitos seres impertinentes, preferível é o isolamento ao invés de compartilhar com os “nada acrescenta” dos outros. Hoje em dia, parece que viver só como a um animal extraviado seja melhor do que viver em bando com muitos dos seres humanos, animalizados que são pelas suas carências intelectuais e pela carência de humanidade. Existiria algum desacordo sobre isso?

                                                                        Altino Olimpio




domingo, 2 de outubro de 2016

A Rua da Pensão e a "venda" de antes do armazém


Hoje a tarde foi um daqueles dias vazios com tudo parecendo sem significado. Uma melancolia do nada me apareceu e eu indo pra cá e pra lá não conseguia me livrar dela. Olhei pela janela do meu quarto para o quintal do vizinho e só vi o espaço vazio donde existia um pé de manga. Gostava de ficar olhando-o, principalmente pelos bonitos papagaios que nele pousavam e pelo ruído que faziam, pareciam estar em festa. Mas, por que o vizinho teve que cortar aquele pé de manga?  Nada tendo o que fazer, resolvi ouvir música pelo computador. Músicas que emocionam provocam lembranças e dessa vez não foi diferente. Logo me vi por dentro donde se encontra tudo o que me foi vivido. Desta vez “estou me vendo” no lugar onde nasci e vivi lá no Bairro da Fábrica, em Caieiras. Estou no Largo da Portaria Um de entrada da fábrica de papel da Indústria Melhoramentos.

Aqui bem no meio do Largo da Portaria tem um jardim e um pequeno lago artificial com peixinhos vermelhos. Retroagindo mais no tempo, aqui era a casa onde morava a família Marim e onde numa dependência da casa o Senhor Benjamim Marim possuía uma espécie de bar. Lembro de ter estado nesse bar com meu pai Alberto Olimpio quando eu ainda era garoto. Se me lembro havia até uns caixotes para se sentar enquanto se saboreava cachaça de alambique. Ainda não existia a portaria de entrada e o ingresso para o trabalho na indústria era livre e sem “marcar o ponto”. Também não havia portão por onde entravam e saiam os caminhões para transporte de papel.

Hoje, daquele lugar existem não muitas pessoas ainda vivas para confirmarem o que descrevo nestas lembranças. Então, continuando, com a construção da Portaria Um, a casa do Senhor Benjamim Marim foi demolida para a construção do jardim anteriormente citado. Do lado da portaria e em declive existiu a rua sem saída que era a Rua da Pensão, como era conhecida. Descendo por ela, a primeira casa à direita era a da Família Lisa, depois a da Família Mandri. Não me lembro de outros moradores, mas, mais para baixo morou o Zé Birilo que era casado com a Dona Rosa Lopes, irmã do muito conhecido Maquinaia (Orlando Lopes). Na última casa do lado direito morou o bem conhecido Arnaldo Gouveia e seus pais. Depois desta casa, finalizando as do lado direito da rua existiu a primeira escola do lugar, que, talvez nem tivesse tido nome. Depois a escola serviu para a sede e os ensaios da Banda Melhoramentos.

Do lado esquerdo da Rua da Pensão e perpendicular a ela existia uma ruazinha sem saída onde numa das esquinas ficava a casa donde morou a Família Valbuza. Também morou por ali uma senhora, viúva, se me lembro, mãe do conhecido Xisto e seu irmão José Petri Lima. O Senhor Armando Canhaci, pai da Nilza também morou naquela ruazinha. A esposa dele era costureira e uma vez me costurou uma calça de brim. Na outra esquina da ruazinha era o início do prédio da pensão que emprestava seu nome pra rua que vinha de lá da Portaria Um, como já “dito” e era a última construção do lado esquerdo. No fim dela existia uma escadaria que era o acesso para a Rua do Barbeiro que ficava acima. No início da escada, à direita ficava o portão de entrada da casa do Senhor Zeca Monteiro, o pai da Floriza. Se aqui cito nomes de pessoas é porque descendentes daquelas famílias do lugar vivendo agora em outros locais se lembram delas.

Tentando descrever o que é difícil para pessoas estranhas àquele local, mais o objetivo destas lembranças é para os que lá do extinto Bairro da Fábrica tiveram suas “raízes” de existência. Prosseguindo com a narrativa, a Rua da Pensão terminava num grande portão que parecia ser de uma entrada de automóvel, o que não era. Era da entrada onde logo após se situava a casa do Senhor Genésio Gerólamo, esposa, e seus filhos, Aluizio, Alcides e Alceu. Abaixo da casa ficava a “venda” que ainda vou descrever. Passando pela casa do Senhor Genésio, mais para frente ficava a casa donde morava o Senhor Constante Toigo, sua esposa Violinda Pim Toigo e o filho deles.

Passo agora a descrever sobre a “venda” de que poucos se lembram. Um pouco antes do portão de entrada da casa do Senhor Genésio, à direita e rente à parede da antiga construção que era da escola e depois passou a ser a sede da banda, havia uma longa escada cuja descida terminava num páteo todo cimentado. Parecia mesmo um enorme fosso quadrado cercado de ambos os lados por altas paredes. Nada se via dali a não serem as paredes que o ocultavam. Numa das paredes, aquela que ficava ao lado e abaixo da entrada da casa do Senhor Genésio, havia uma espécie de reentrância que servia de gol para, como eu tinha visto, alguns garotos chutarem bola contra um goleiro que lá ficava para a brincadeira que se chamava de “rebatida”.

Da escada, atravessando pelo páteo e assim caminhando por uns trinta metros, mais ou menos, lá estava à porta de entrada da “venda” que ficava por baixo da casa do Senhor Genésio. Ainda não era usual o nome de armazém. Só se tornou usual depois da “venda” ter sido substituída pela nova construção do prédio do “armazém”, em outro lugar de mais fácil acesso. Além do Senhor Genésio que era o “chefe” da venda, os “caixeiros”, se não me engano, lá eram os senhores Joaquim Sanchez, o Kique, o Pierim, o Elpídeo, Lazaro Roque (?) e a “caixa” para cobrança das compras era a Dalva Araujo que morava em Monjolinho. Às vezes era costume a meninada pedir para a Dalva carimbar suas mãos com o carimbo que ela usava para dar “baixa” nos recibos já pagos das compras efetuadas.

Lembrando, daquele páteo oculto de antes da entrada da venda, se ouvia ruídos provenientes das atividades da fábrica de papel. Ouviam-se ruídos estridentes do trenzinho (maquininha) “de carga” que por lá trafegava sobre os trilhos trazendo aparas ou rolos de celulose para a fabricação de vários tipos de papel. Estas lembranças são, mais ou menos, do ano de 1950, de quando eu ainda criança ia até aquela venda que se escondeu no passado para fazer compras de alimentos para a minha mãe.  Aquele local continua intacto em minha memória. Mas, será para sempre esquecido, desaparecido da mente depois que eu e as pessoas com a mesma idade da minha e daquele mesmo lugar tiverem partido daqui deste mundo para sempre. Como é inevitável, aquele local aqui descrito será como se nunca tivesse existido, como também, os que por lá existiram e até já são esquecidos.

                                                                                   Altino Olimpio



  


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A vida é um bem perecível


Nada se sabe do antes e nem do “acontecimento” do início do nosso existir porque a consciência que faria isso saber ainda não existia em nós. Nascendo nenê, nós fomos um “surgir” sem saber e sem querer num ambiente ainda confuso onde nada distinguimos e nem nós mesmos nos distinguimos. Não nos existia aparências e nem diferenças. Tudo era tão estranho mesmo ainda não se tendo a consciência para tudo se estranhar. Éramos o que ainda não sabíamos “quem e o que éramos” numa situação de total obscuridade para os nossos sentidos de percepção ainda em formação. Entretanto, o instinto já havia nascido conosco e foi ele o causador do nosso choro por querer mamar. Isso tudo é o início da vida de qualquer “ser que sem saber e sem querer” surge neste vasto mundo. Alguns com o privilégio de ter nascido no seio de uma família rica e outros pelo descuido do destino de ter nascido no seio de uma família pobre. Até para nascer parece que já existe uma loteria da sorte (risos). Isso, se de fato a alma existe e se ela é atraída para dentro do corpo ao nascer da criança.

Mas, não é questão de sorte. Pais ricos geram crianças ricas e pais pobres geram crianças pobres. Unida ao tempo, nossa vida tem um período para existir nele. No fim desse período ela termina enquanto ele continua eternamente. Todos gostam de viver, embora, sabendo que num dia vão morrer. Pensar na própria morte ninguém gosta e quando se é jovem parece que ela vai demorar uma eternidade para chegar. Porém, a morte mais começa a se anunciar quando a velhice chega (e não demora muito) mostrando o desgaste do corpo. Existem pessoas que ficam irreconhecíveis pelas marcas com que o tempo, cruel, bandido e implacável como é, modifica suas fisionomias. É o “prognóstico” que o fim da vida já não tarda muito a chegar e não existe remédio para curar a morte, remédio só existe para curar doenças, isso, quando cura (risos).

Do antes de nascer nada se tem a perder, diferente do morrer quando se perde tudo o que se tem. Nisso está o ilusão de qualquer um, de tanto querer ter e de tanto querer ser. O “ter” é só um empréstimo para “possuir” qualquer coisa enquanto se vive. O “ser” na morte passa a ser “o que se era” enquanto se vivia (risos). Ninguém escapa desse fim “do ter e do ser”. Como não há alternativas e como a vida é um bem perecível, só há o consolo de querer viver bem e ser feliz (quando se consegue) no período de vida “reservado” para cada um pelo “destino” ou pela durabilidade de sua constituição corpórea. A morte, mais ela existe para livrar o mundo dos que se tornaram incômodos para a sociedade (risos). Só mesmo ela pode proporcionar alívio aos incomodados quando eles, por obrigação, dever ou pena, muito precisam cuidar dos seus incômodos (risos).

                                                                                     Altino Olimpio




sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Sensações


O mundo é belo, mas, a humanidade que ele suporta sobre si parece não merecê-lo como deveria. Quanto mais ela aumenta menos ela evolui. Sempre ela é vítima de influências e sugestões negativas. Os seres humanos, eles gostam, necessitam de sensações para viver e até se perdem por elas. Para eles, quaisquer “coisas” que são atrativas para seus entretenimentos, ao aceitá-las e sempre utilizá-las, isso é viver de sensações. Constantemente o ser humano as requer para, como dizem, ser feliz na vida. Sem tê-las, muitos até podem morrer de tédio (risos).

Vamos discorrer sobre algumas “sensações” que conquistam parte do povo: Futebol, televisão, internet, redes sociais, telefone celular, viajar, política, religião, sexo e etc. Todas essas formas de se entreter causam sensações, pois, se não causassem elas não teriam seus fanáticos seguidores. Cada um, mais convive com o seu “mundinho” de sensações que mais lhes agradam até já o ser escravo delas. Sendo assim, pode se tornar indiferente com a situação do seu país, estagnando sua participação quando ela seria necessária para exigir das “autoridades” governantes, algo publicamente necessário ou reclamar sobre o que geralmente lhe seria prejudicial.

As pessoas sensatas são aquelas que podem ter suas sensações, mas, sem serem dominadas por elas. São as equilibradas. Ao contrário, as insensatas, como que, hipnotizadas, não ficam sem elas, considerando-as como partes indispensáveis de suas vidas. São as fracas dominadas pelas tentações. Às vezes tenho a sensação (risos) de lembrar que só os animais não precisam de sensações para viver. O homem, coitado, só de comer, trabalhar, dormir e se “acasalar”, é infeliz sem as sensações que o distraiam da consciência de si mesmo. Ele por ele mesmo não é sensação (risos). Então, precisa ir buscá-la fora de si em entretenimentos ou ocupações para que sua vida não seja monótona. E “assim caminha a humanidade”, sempre no ter aonde ir e no ter o que fazer para não se desfazer das sensações que lhes são o prazer de viver.


                                                                                   Altino Olimpio  

sábado, 17 de setembro de 2016

Baltazar do Corinthians, o "cabecinha de ouro"


No passado eu ouvi dizer: Todo homem tem que ter uma mulher, uma religião e torcer por um time de futebol. Conversa mole! Atualmente, sendo viúvo não tenho mulher, não tenho religião e não torço pra nenhum time de futebol. Mas, lá na infância, fui batizado, cursei o catecismo, participei da primeira comunhão e até fui crismado. Gostei de várias meninas daquela época romântica mesmo sem elas saberem. Quando já moço, tive namoradas e me apaixonei por elas e com uma me casei. Quanto ao futebol, até aos dez anos de idade eu fui corintiano naquele tempo do famoso Baltazar, o “cabecinha de ouro”. A escalação do time começava com o goleiro Cabeção (goleiro), Homero e Olavo na defesa e na “linha’ o principal atacante, o centro avante, como já escrevi, foi o Baltazar. Outros atacantes foram eles: Claudio, Luizinho, Carbone e Mario. Depois de 1952, outros vieram para formar o time do Corinthians, mas, nunca mais soube quem eram e nem mesmo soube dos nomes deles.

Lembro-me bem, quando, mais ou menos, aos dez anos de idade meu raciocínio esteve a funcionar para decidir se “torcer” para algum time de futebol profissional valia à pena. Se as emoções que o futebol despertava me interessavam. Se me lembro e se não me engano, já estava no auge a locução “contagiante” do saudoso Fiori Gigliotti, com os “aguenta coração” e “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”, frases estas sendo da sua inconfundível irradiação dos jogos de futebol de então. Mas, “aquela bola na trave, se foi pênalti ou não, se o juiz era ladrão, se algum jogador fosse o ídolo da torcida” e etc. pra que me interessariam se nada tinham a ver com a minha vida. Por isso, perdi o interesse de ouvir irradiações de jogos de futebol e mesmo os transmitidos pela televisão, cujo evento ainda era recente naqueles anos anteriores de minha juventude.

Apenas como “passa tempo” de quando não tinha outra coisa melhor para fazer, durante vários anos ainda assisti (não todos) aos jogos da Seleção Brasileira de Futebol, mas, sem me envolver emocionalmente. Trabalhando na Cidade de São Paulo, eu considerava como absurdos os “milhões” de pessoas abandonarem seus empregos para assistirem jogos da Copa do Mundo em seus lares. O transito ficava congestionado, trens e ônibus ficavam superlotados, tudo por causa da fácil aceitação geral que o povo tinha para esse esporte preferido dos brasileiros. Entretanto, já faz muitos anos que a Seleção Brasileira de Futebol também se tornou uma perda de tempo para mim. Não mais assisto aos seus jogos, mesmo não tendo algo melhor para fazer. Se não me engano, não deixei de ser brasileiro ou patriota por causa disso. Ainda tenho acompanhado a podridão dos políticos brasileiros. Gostaria que eles fossem pro escanteio comer grama.

                                                                               Altino Olimpio








sábado, 10 de setembro de 2016

Confronto com a realidade


Gozado, às vezes me pergunto quem eu sou como se já tivesse deixado de saber. São “coisas” da idade avançada. Às vezes também me conformo como sendo alguém que não é ninguém dentre os tantos mais de duzentos milhões de brasileiros. Meus anteriores anos vividos foram envolvidos com trabalho, família, entretenimentos, relacionamentos amistosos e amorosos, fraternidades filosóficas, filantrópicas, leitura e etc. cujas experiências seriam para minha evolução e para ser como eu deveria ser na velhice. Mas, agora já nela ou perto dela, me encontro desfeito de tudo o que eu pensava que deveria ser (risos). Nada sou daquele “deveria ser” resultante das experiências vividas e nem me lembro “de como deveria ou queria ser” (risos). Penso muito no “nada se sustenta” do sempre estar por detrás das mentiras e das ilusões da vida. Na idade avançada à vida me pegou na armadilha da realidade de que “o que sou hoje” seja igual ao mesmo nada que eu era de quando ainda estive iludido na preparação “para como eu deveria ser no futuro”. Cheguei rápido ao tal futuro como qualquer ser, para apenas “só estar a viver por viver” e mais nada (risos) como se só isso fosse importante. Muitos podem estar na mesma situação, mas, mantendo ainda os mesmos “ares” de importância que pensavam ter no passado, nem desconfiam que até o “ser interessante” para outros desaparece mesmo antes da velhice se estabelecer completamente (risos).

Se o conteúdo deste texto fosse dito aos amigos e conhecidos, me interrompendo antes de saberem do que se trata, sei “de cor” o que iriam dizer: “Você não deve pensar assim. Todos têm importância na vida e todos são interessantes perante Deus. Ele sempre sabe o que faz. Não seja pessimista. Pense só em coisas boas. Passeie, viaje, leia, reze, aprecie a natureza, o luar e o brilho das estrelas” e etc. Isso mesmo, amigos e conhecidos... Como eles são úteis, falantes e inoportunos (risos). Sempre pensam que tem solução para tudo, menos para os próprios problemas e mesmo assim são especialistas para sanarem os problemas dos outros (risos). Entretanto, como sempre acontece, o objetivo principal do texto iria ficar desprezado para ser vencido pelo “deixa disso, não é bem assim, você está exagerando” e etc. O texto acima, um tanto pessoal, mais está a ser o resultado de observações sobre como a velhice, pelo enfraquecimento da capacidade motora, mental e da memória, ela pode “por a perder” tudo o que se relaciona com a evolução mental de até então. Mas, isso já nada afeta, porque, na velhice, sendo quase a regra geral do “só resta mesmo apenas viver por viver” nada mais importa (risos). Diante deste mundo tão tumultuado, o esquecer de quem se é ou de quem se era, até pode ser bem-vindo (risos).


                                                                                         Altino Olimpio