terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Estado de espírito



Às vezes acordamos aborrecidos sem sabermos o motivo. A insatisfação perdura em grande parte do dia até quando se desfaça quando quer e sem o nosso perceber. A causa teria sido algum sonho conturbador não lembrado por nós? Não sabemos. Se passarmos por um dia alegre sem nada a nos perturbar, por que no dia seguinte despertamos irritados sem saber por quê? Parece que o espécime homem não tem total controle de seu estado de ânimo. Também, mais ele está sujeito aos efeitos que lhes provocam as glândulas endócrinas nas suas secreções de hormônios na corrente sanguínea. Uma desarmonia entre as glândulas nos provoca distúrbios insuspeitos, daí nosso estado de mau humor, às vezes.  No estado de espírito de mau humor podemos nos irritar com qualquer coisa, seja significante ou insignificante. E nesse estado indesejável de humor muitos recorrem a exteriorizar lamentações sobre si e sobre a existência. O estar “de mal com a vida” pode ser consequência da má atividade glandular e não, como mais se pensa, seja o efeito das contrariedades que os cotidianos nos trazem. O homem, o eterno desconhecido de si mesmo, mais ele é escravo dos sentimentos que lhes surgem “sem querer”, derivados de reações internas imperceptíveis, as quais ele nem desconfia como sejam elas. Então... O homem é uma marionete de si mesmo. Seu estado de espírito nem sempre é próprio do seu querer.

                                                                                                       Altino Olimpio


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A ponte do encantamento


 Existiu-me um lugar encantado e às vezes ele me volta ao pensamento. Caieiras, Bairro da Fábrica e um trecho de terreno neutro entre os fundos de quintais das casas da Vila Nova e das casas da Vila Pereira. Por cima de tal terreno passavam cabos de alta tensão vindos de lá do Bairro de Perus, São Paulo. Num espaço mais largo, algumas vezes famílias da Vila Nova e da Vila Pereira e participantes de outras vilas se reuniam para um festejo junino. Fogueira, rojões, comestíveis da época junina, bailinho e até a dança da quadrilha dançavam sob a luz do luar. Passando por esse lugar agora lembrado, mais a frente o terreno declinava um pouco até uma ponte. Bonita como era, pintada de preto fora construída com caibros bem aplainados. Os parapeitos ou corrimãos de ambos os lados eram de grossos cabos de aço. Não havia rio ou córrego por baixo dela. Debaixo dela era um galinheiro não sei pertencente a quem da Vila Pereira. A ponte fora construída para vencer aquele brusco desnível de um lado a outro daquele rebaixo usado como galinheiro. O local e a ponte sempre estavam desertos. Eu já tinha a tendência de às vezes me isolar e, muitas vezes estive naquela ponte sozinho com meus pensamentos. Mas, meus pensamentos mais eram dedicados a uma mocinha de quem muito eu gostava. Garoto ainda, no meio da ponte eu ficava sentado sobre o cabo de aço superior da ponte com os pés apoiados no inferior. De onde eu ficava sentado, dava pra ver ao alto e distante, algumas casas da rua de nome Bairro Chique. Era visível, apesar da distância, o lado dos fundos da casa da mocinha que eu gostava. Muitos momentos eu ficava na ponte a espreita para poder vê-la. Isso era difícil de acontecer embora eu tivesse insistido por vários dias nesse intento. Uma vez, eu a vi saindo de casa e ficou por uns instantes, parada lá no seu quintal. Naquele dia fui recompensado e ela nunca soube que uma bonita ponte me amparava enquanto em segredo eu nutria carinho por ela. Aos sábados sempre tive esperança de vê-la fazendo compras no armazém. Algumas vezes tive esse prazer. Aos domingos sempre eu a via no Clube Recreativo Melhoramentos durante as partidas de futebol quando as famílias compareciam. O tempo foi passando, nós ficando adultos, embora, jovens ainda, mais eu a via e dançávamos nos bailes do clube. Ela era minha preferida para dançar. A timidez de ambos impedia uma aproximação mais íntima. Tantas vezes na ponte encantada desejando vê-la mesmo ao longe, felizmente, o tempo ao passar favoreceu tê-la por perto muitas vezes. Hoje quando o olhar do meu pensamento se direciona ao passado, ele me vê naquela ponte querendo ver a mocinha que sempre invadia meus pensamentos. Embora nunca tivéssemos sido namorados, ela foi o meu primeiro amor.   


                                                                                                              Altino Olimpio

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Até a eternidade


Eternidade... Que pensamentos nos provocam? Em romances é comum a frase “nos amaremos até a eternidade”. Mas, ela não significa não mais estarmos no mundo pela ocasião dela? Também, a ocasião dela não é uma abstração devido a não sabermos quando será a sua época num futuro inimaginável como sempre ele é? Os cientistas dizem ser a terra um planeta, como outros, também destinado a destruição, embora, daqui a bilhões de anos. Como é um conceito humano e terreno, a eternidade seria no fim da existência da terra? Quando a terra com seus habitantes deixarem de existir a eternidade deixaria de existir também? Com certeza! Não existiriam seres humanos para conceituarem o tempo infinito entendido como eternidade, depois deles. Nem a terra existiria para se poder contabilizar seu tempo pelo translado ao redor do sol. O já tão falado Dia do Juízo Final quando seria? A palavra “final” seria correspondente ao fim do mundo quando todos os seres humanos que existiram seriam julgados pelos seus atos de quando encarnados? Só sei que ninguém sabe e como dizem, o tal julgamento “antecipadamente” está marcado para algum dia da eternidade em alguma época dela, mas, em qual ainda não foi decidido. Entretanto, até a “eternidade” ainda temos muito a aprender e deixo aqui meu adeus porque preciso me internar em algum hospício.


                                                                                                                Altino Olimpio

Pouco caso e muitos acasos


 A vida mais nos defronta com fatos imprevistos, com coincidências ou acasos. Apenas uma parte de nossa existência é exercida com acontecimentos que programamos. Mais o acaso está na direção de nossas vidas. Alguém pode estar concatenando pensamentos sobre um tema qualquer, alguém surge falando algo interrompendo assim as reflexões do outro. Isso é um acaso e acasos outros são incontáveis no nosso viver. Os acasos são interferências que se sucedem para desviarem nossa atenção do que estamos pensando ou fazendo. Quando estamos meditando sobre algo e outros pensamentos intrusos aparecem, estes também podem ser considerados como acasos. Constantemente somos vítimas deles. Mesmo sendo assim o ser humano se julga ser livre. Se duas pessoas estão envolvidas numa conversa séria e outra aparece subitamente, para as duas a outra é um acaso, inesperado como todos os acasos são. Eles são tão comuns na nossa existência e as pessoas pouco se dão conta disso. Os acasos podem ser de qualquer estímulo, seja visual ou sonoro para momentaneamente desviar nossa atenção, ou mesmo, interromper nossos pensamentos do momento em questão. Os acasos sempre interferem com a nossa objetividade, com o que estamos a pensar, com o que estamos a fazer e até com o que estamos a falar nos momentos em que eles surgem. A vida se resume nisso, somos de pouco casos entre muitos acasos. Um dos piores acasos é de quando nos defrontamos com pessoas de nosso conhecimento e elas nos falam de coisas que não são necessárias de falar. Como o ser humano fala e isso não há como evitar, em muitos casos muitos deles nos são apenas acasos. Se as pessoas se conscientizassem como fatos imprevisíveis, no mais das vezes triviais, nos surgem e ressurgem diariamente, elas perceberiam o quanto de desperdício nós temos em muitos dos momentos de nossas vidas. Em tais momentos constantemente desperdiçados, momentaneamente ficamos distraídos de nós mesmos para desviarmos nossa atenção a eles, mesmo que, brevemente. Resumindo, os acasos são descasos em nossas vidas e é impossível evitá-los. Fazem parte da vida. Eles estão sempre a intercalar com nossos casos em qualquer caso.


                                                                                                                   Altino Olimpio