segunda-feira, 3 de março de 2014

O passado é mais presente

Têm pessoas a dizer não gostarem de “viver” nas lembranças do passado, mas, duvido que consigam se livrar dele. Constantemente, o nosso pensamento retira da memória fatos de nossa existência e basta qualquer estímulo para isso. O ouvir uma música, ver alguma cena de algum filme ou mesmo do cotidiano, de imediato provoca alguma lembrança de fatos existidos e lembrança é o passado. Se não tivéssemos o passado sempre presente não teríamos experiências para entender à nossa maneira o que nos ocorre no presente. Quando se observa pessoas conversando, mais elas estão discorrendo sobre ocasiões existidas. É raro numa conversa se falar de possíveis acontecimentos do futuro. Se não tivéssemos o passado retido na nossa consciência nós seríamos incapazes de entabular qualquer conversa com alguém. Seríamos apenas um corpo a ocupar um espaço sem qualquer reação intelectual para qualquer ocorrência do presente. Para outros seríamos apenas um “desmiolado” incapaz de viver em sociedade. Li no jornal eletrônico “A Semana” de Caieiras a crônica “Reencontro com o passado” de autoria da Fátima Chiati. Gostei de como ela apreciou esse tema. Continuando, as pessoas são os seus passados, embora, não gostem de algumas lembranças que surgem dele. Isso também ocorre comigo e às vezes elas até ficam “martelando” na minha cabeça. Sim, ressurgem sem esperarmos e sem desejarmos. Daí dizerem que não gostam de viver no passado, pois, algumas lembranças são indesejáveis. Lembrando, nosso corpo sempre está no presente, mas, o nosso pensamento, não! Ele, arbitrariamente, sempre nos torna parcialmente ou mesmo totalmente, inconscientes do presente, focalizando nosso olhar interior para rever uma cena de outrora.  Para isso basta um estímulo de tato, visual ou auditivo do presente para que a mente instantaneamente o transfira para a memória e que ela reproduza cenas ou fatos parecidos com o estímulo do momento. Pessoas, aquelas do dizer não gostar de viver no passado podem ser “pegas” recordando para outros suas experiências felizes. A questão não é não gostar do passado. É apenas por preferir boas lembranças querendo refutar as más. Quanto aos momentos agradáveis existidos é bom lembrar que o mundo é de transformações, mutações. Isso não é novidade, pois, alguns filósofos pré-socráticos bem definiram isso. Nossa infalível mutação física ao nos encaminhar para a velhice nos priva dos mesmos interesses oriundos das idades pertinentes para eles. A vida pode ficar parecendo ser vazia de encantos e não poucos dizem: Eu era feliz e não sabia. Entretanto, sempre haverá alegria de viver, correspondentes com qualquer idade ou fase de nossas vidas. Administrar os pensamentos tentando impedi-los de retornar ao passado quando não se queira isso, é impedir o sentir saudades do que não mais existe e dessas saudades se concluírem a existência da ausência da alegria nos presentes subsequentes da vida.


                                                                                                         Altino Olimpio

As arrueiras de Caieiras


 Por esse título acima qualquer um pode pensar que se trata de mulheres que não saem das ruas num viver despreocupado ou viver profano. Mas, não. A aroeira ou arrueira é um nome popular de uma árvore que pode trazer alguns inconvenientes para quem se aproxima de uma delas. Em Caieiras de quando eu era garoto e muito me embrenhava pelas matas para caçar passarinhos (idiotice juvenil) ou saborear frutos silvestres, ao passar por baixo dos galhos de uma dessas árvores sem reconhecê-la, a consequência era depois, o surgir de muitas feridinhas pelo corpo. E como coçavam. Existiam a aroeira brava e a aroeira mansa. Por essa distinção já se sabe qual delas provocava feridas nos sensíveis a ela, como eu. Os garotos de outrora melhor conviviam com as suas condições de serem crianças. A maioria deles tinha liberdade total para explorar as imediações de onde moravam. Muitas das árvores eles conheciam pelo nome e qual delas dava frutos. Qual das crianças de hoje saberia que “tuncum” era uma frutinha das matas? Crianças de agora vão pelas matas para colher morangos silvestres ou amoras? Passeiam livremente pelas beiras dos rios para pescar e saborear ingá das árvores dessa fruta?  Saberiam eles que a conhecida “pinha” vendida em quitandas ou supermercados antigamente se chamava ariticú? Criança de hoje construiriam uma cabana no meio de um canavial para na sombra chupar cana caiana? Os garotos de outrora às vezes construíam a cabana sem se importar quem fosse o dono do canavial. A cana comum não tinha nome e o nome de “caiana” eram para as canas mais grossas, gomos mais compridos e de mais sumo. Eram mais preferidas pela molecada. Nesta época sumiu o costume da molecada na reta de uma rua jogar futebol com bola de meia ou “rebatida”. Rebatida era quando não havia garotos suficientes para uma “pelada” e só havendo dois para brincar. Numa distância de mais ou menos vinte metros entre os dois garotos, cada um ficava num espaço entre duas pedras ao chão que representavam o gol. De “sempulo” um garoto chutava para o gol do outro que, sendo goleiro não podia deixar a bola passar por entre as pedras. Rebatidas eram melhor com bolas de meia e não com bolas de borracha. Qual criança desta época alguma vez viu no mato um lagarto em disparada “barulhando” em folhas secas abandonadas pelo chão? Alguma delas já viu morcegos de ponta cabeça dormindo dependurados nos galhos de uma árvore? Qual criança destes nossos tempos constrói “carrinhos de quatro rodas” para brincar nas longas descidas? No “meu tempo” às vezes se perdia a direção do carrinho e com ele batendo num barranco, no tranco um grande rasgo surgia na sola do pé ocasionado por um prego do carrinho. Era só sangue que esguichava e, como diziam que era bom, se urinava no rasgo ou corte sangrando. Naqueles tempos, mesmo com tantos desses “acidentes” nenhuma criança morria. Imaginemos hoje uma criança ao passar por baixo de uma arrueira e depois ficar toda “pipocada” de feridas pelo corpo. Para as mamães seria o fim do mundo. “Vamos levar ele ao pronto socorro. O que será isso? Vamos ao hospital. Temos plano de saúde”. Nada disso é preciso, porque, do mesmo modo que as feridinhas surgem provocadas pela arrueira, elas desaparecem sem qualquer tratamento. Comparando criança de agora com crianças de outrora vem à vontade de dizer: Não se fazem mais crianças como antigamente. Caieiras também teve seus tempos áureos quando as crianças eram mais crianças por causa da maior convivência entre elas nos seus folguedos inesquecíveis, embora, sejam esquecíveis hoje. 

                                                                                                      Altino Olimpio


Brasileiro é tão bonzinho


 Neste país, o Brasil, tido como sendo de democracia perigando, a utopia esteve a dizer que no regime democrático o povo é quem governa. Muitos já acreditaram nessa alegoria tão infantil. Num último exemplo da “governabilidade” do povo, este, aos milhares esteve pelas ruas reivindicando, clamando pela redução da maioridade penal dos dezoito para dezesseis anos de idade. Tudo em vão. O povo foi traído por alguns de seus representantes rejeitando a tal da emenda constitucional. Democracia é assim. O povo elege não sabe quem e quando vem, a saber, o eleito já está só a pensar em si e não quer saber de mais ninguém. Ser político tem a ver com a vontade de ficar rico. Pensar que políticos sejam inteligentes e superiores ao povo, isso é engano. Eles têm as mesmas fraquezas, ilusões e defeitos compatíveis com a do povo e como se sabe, alguns são ignorantes, isso demonstram quando “abrem a boca” para exteriorizar incoerências.    Se fossem evoluídos e incumbidos para apenas ditar normas para o país, duvida-se que alguns embarcariam num avião viajando para outro Estado apenas para assistir a um jogo de futebol, essa “coisa” apaixonante até para político. Por ocasião da Copa do Mundo de Futebol, como sempre se repetirá o esvaziamento de seus locais de “trabalho”. Eles têm tantas mordomias que qualquer ser humano comum se sente como sendo um coitado qualquer e abandonado pelo destino. Além dos altos rendimentos que percebem, têm aqueles politizando em causa própria cometendo desfalque ao erário. Os políticos mais são desprovidos de seus ideais próprios e de suas opiniões porque mais estão à mercê dos ideais e opiniões de seus partidos. Pensam que eles governam quando são governados. Mas, onde está o povo que, segundo a democracia é ele quem governa, já que escolhe seus líderes para representá-lo? Ele está envolvido com situações mais sérias. Está resolvendo problemas tão sérios pelo telefone celular e de qualquer lugar, está ligado na internet e nas redes sociais principalmente no tal de Facebook e também pelos programas televisionados de tão alto nível intelectual. São “coisas” do primeiro mundo. A diversidade de religiões também faz com que seja desnecessária a preocupação com a política. Sabe-se que na diversidade de religiões o povo mais se entende, se une (e como se une) mais e sendo assim os políticos temem desagradar ao povo. O único mal que agora nos acomete e não aos políticos que viajam pelo ar, são os bandidos e os assassinos mesmo menores de idade vagando pelas ruas procurando gente honesta e simples para roubar ou matar. Nada de mal fazem aos inteligentes legisladores, porque, considera-os bons amigos sendo seus protetores, conforme as leis existentes que criaram para protegê-los. Hoje ser bandido até é um “status” e ser digno de respeito, ainda mais com uma arma na mão. Eles têm a chance de aparecer na televisão e isso não é para qualquer um. Quando um é preso, ele se alimenta melhor que muita gente e tem a regalia de praticar sexo na prisão. Alguns políticos foram condenados “injustamente” a cumprir “meio período de pena” para poderem trabalhar e dormir na prisão depois de se alimentarem e sem pagar aluguel. Ficaram mais famosos e, depois das penas cumpridas talvez sejam convidados a serem galãs das novelas de televisão. Tem muita gente descontente com a situação deste país, mas, se esquecem que “rir é o melhor negócio” e para isso, rir, acredito que o povo pode governar, sim. Democracia tem isso de bom. Poder rir ao invés de chorar.


                                                                                                      Altino Olimpio