domingo, 19 de janeiro de 2014

Objetividade morta


 Outro dia encontrei um amigo, desses que existe muitos por ai, e depois dos cumprimentos ele começou a falar sobre sua vida, que estava bem e etc. Ao lembrarmos-nos de conhecidos nossos ele falou “vou te falar do pé de manga”. Como estivemos falando de conhecidos, rápido, meu pensamento começou a imaginar alguém com alguma doença no pé, pé inchado ou coisa parecida. Na hora não me lembrei da fruta manga porque a manga não tem pé. E ele continuou a falar de como gosta de chupar essa fruta, manga, e disse ter no seu quintal uma árvore frutífera dessa fruta. Então, entendi do que se tratava. Continuando, ele disse ter aquela árvore bem próxima à divisa com o vizinho, o Senhor Antonio marido da Dona Maria. O casal tem cinco filhos, um é bombeiro, outro é advogado, uma filha é mãe solteira, outro está nos Estados Unidos... Ah! Ele é entregador de pizza embora seja engenheiro. O filho mais novo está desempregado e faz tempo. O Senhor Antonio é irmão do Alfredo, aquele casado com aquela gorda feia que quando solteira ia aos bailes e não dançava. A irmã dela era mais requisitada para dançar.  Acho que você se lembra do Senhor Antonio. Ele, antes de se casar com a Dona Maria, ele teve um caso com aquela moça muito falada, a tal de Zonanita, lembra disso? Ele é um bom vizinho, às vezes briga com a Dona Maria, se xingam, cada palavrão que sai rapaz, mas, eu finjo que não escuto. Viu? Olha quem está passando aqui agora. O Alencar. Está aposentado agora. Está num bagaço que dá dó. Bem feito! Foi chefe numa firma e maltratava os empregados. Foi chifrado pela mulher e depois ela foi embora com outro. Quatro horas da tarde agora e logo vou para a praia. Meu filho comprou um carro importado, pagou mais de cem mil reais e vamos estriá-lo hoje. Não vou poder ir ao enterro de um primo. Deixou a viúva bem mais nova que ele e é muito bonita.  Bom, o papo está bom, mas preciso ir pra casa agora. Foi um prazer te rever. O prazer foi todo meu, respondi e pensando “mas, e a manga? E a manga?”. Será que ele iria dizer que elas são bem doces? Será que teria caído da árvore e se machucado? Que teria de especial o “pé de manga” dele? Fiquei sem saber. O “amigo” é um daqueles que emenda um assunto no outro e estonteia qualquer um. Será que na minha vida essa é a minha sina? Aguentar de outros essa falta de objetividade? Quando me deparo com uma dessas pessoas “afiadas” na redundância meu pensamento reclama “mas que merda, fala logo, não agüento mais”.


                                                                                                         Altino Olimpio