sábado, 18 de janeiro de 2014

Constatações


Se qualquer pessoa soubesse como é bom não ser nada na vida evitaria a luta por ser alguém importante para os outros e para si mesma. A busca por notoriedade e a busca por ser importante faz com que a vida passe despercebida ofuscando assim a paz que existe na interioridade.

O mundo repleto de criaturas humanas desumanas encontra-se no fim do acreditar que essas criaturas sejam o ápice da criação.

Os seres humanos premeditam um existir espiritual para sempre depois de suas mortes. Tomara que estejam certos, porque, viver entre eles enquanto encarnados está sendo um horror. Muitos são mentirosos, muitos acreditam em delírios, outros são corruptos, outros são exploradores e muitos são ladrões e assassinos.

Entretanto, “um viva” para as pessoas que, mesmo vivendo entre tantas aberrações humanas se mantém na qualidade de seres humanos. São simples, são honestas, solidárias, amistosas e graças a elas ainda se consegue agüentar viver neste mundo.

A vida como ela é. Tem momentos de alegrias e momentos de frustrações. Quem vive de desejos mais está propenso às frustrações. Nada desejar é um ensinamento budista e evita as complicações desnecessárias provenientes de desejos que possam se tornar indesejáveis depois de tê-los realizados.

Os seres humanos são providos dos instintos, das emoções e da razão. Muitos mais são levados a atender os instintos mesmo sem saber. Muitos se deixam levar mais pelas emoções, aquelas provenientes das sensações que sempre buscam para fugirem de seus vazios existenciais. Diante da predominância dos instintos e das emoções dos menos esclarecidos, a razão perde seu poder para impedir os erros, exageros e más condutas resultantes dos instintos e das emoções sem a administração da razão. Poucos são aqueles que se utilizam da razão para dominar seus instintos e suas emoções. Mais os instintivos e os emotivos se envolvem em situações que possam lhes prejudicar e prejudicar a outros, conforme sabemos. Os racionais, os mais propensos a refletir, quase sempre rejeitam pessoas, eventos e lugares onde os instintos e as emoções predominam no mau comportamento humano.     

Como são os seres humanos? São o resultado ou conseqüências de seus condicionamentos. Quando nascem neste mundo eles são isentos de conceitos. Aos poucos vão aprendendo o idioma de onde vivem. Compreendendo o idioma eles ficam sujeitos a influências e sugestões que são os conceitos dos considerados adultos. Infelizmente, como crianças, muitos adultos acreditam em conceitos improváveis como realidades para uma existência livre de incoerências. O “sempre duvidar ou sempre raciocinar” deveria ser uma norma para os pais ensinarem aos seus filhos para que eles não sejam vítimas da influência de outros já irremediavelmente condicionados com inverdades consideradas verdades.

Onde estão focalizados nossos olhos é onde deveríamos estar. Mas, não! Outro mundo se interpõe para nos distrair dos instantes de nossos presentes, os únicos temporariamente reais. O mundo interventor é o nosso mundo do pensamento. Ele nos rouba o presente pelo nosso sem querer ao nos conduzir ao passado. É quando os descontentes com suas vidas atraem para si fatos desagradáveis do passado e mudam para pior os seus estados de espírito. Os contentes com suas vidas revêem em seus pensamentos fatos agradáveis e até sentem saudades. Entretanto, sejam fatos agradáveis ou não, todos são fugas do presente. Estar sempre no presente não é prática comum. Se assim fosse, nós, mais sentiríamos o fluir da vida e isso basta para um viver ausente de melancolias e de contrariedades tidas no passado que o pensamento mal administrado nos traz.

Quase generalizando, o ser humano gosta de notoriedade. Ele, aonde às vezes ou sempre freqüenta leva consigo em seu âmago o “eu também estou aqui”. Talvez, isso seja uma das carências com que ele tenta se complementar. Muitas pessoas necessitam mesmo serem notadas e quando não, se ressentem disso, principalmente quando moram numa cidade pequena onde quase todos se conhecem. O viver em função dos outros acarreta mesmo a necessidade da notabilidade. Até é gozado. Alguns sem nenhum esforço facilmente são notados e outros mesmo se fazendo notar, não são notados. Os notados possuem algum carisma que os não notados não possuem. Contudo, o “eu estou aqui” nos leva a lugares para sermos notados pelos outros e se não nos notam falamos depois que estivemos num lugar chato.

O amor se evidencia em várias situações. Existe o amor de mãe, o amor entre irmãos, mas, o mais evidente, o mais eloquente se evidencia entre um homem e uma mulher. É quando um pensa que é do outro. Por esse amor muitos até abandonam o amor de mãe e o amor pelos irmãos. Substituem o antigo amor familiar pela profunda consideração devido aos laços maternos e fraternos. Com a vinda dos filhos, eles são mais amados do que o amor profundo que existe ou existia entre o casal. Esses amores aqui sucintamente descritos são condizentes com a realidade da existência. Muito se fala do amor ao próximo, mas, este, longe está de ser realidade. Ninguém ama ao próximo como a si mesmo. Ninguém ama ao próximo como ama a seus filhos. Esse amor impraticável faz com que pessoas o repitam por palavras para aqueles também só amantes das palavras.

Por falar em palavras, atualmente elas substituem os fatos. Houve três que foram difundidas em 1789 por ocasião da Revolução Francesa e tidas como sendo da autoria do filósofo Jean-Jacques Rousseau e tais palavras perduram até estes dias como sendo realizáveis. As palavras muito atrativas são “liberdade, igualdade e fraternidade”.  São palavras que circulam pelos meios maçônicos, mas, elas são impraticáveis. Quem ouve isto sabe que liberdade não existe, pois, atualmente nem podemos passear pelas ruas sem o medo de sermos importunados e o medo nos faz prisioneiros.
Igualdade? Também não existe. Dizem que deve existir a igualdade de direitos, mas, será que todos têm merecimento de ter os mesmos direitos? A igualdade humana é utopia. Nós mesmos nas preferências de amizade por algumas pessoas em desprezo de outras, não estamos praticando a desigualdade? Os seres humanos são compostos por diversidades e não por igualdades. Quanto à igualdade de direitos não estamos cansados de saber que muitos incompetentes ocupam posições de destaque neste país auferindo bons salários e os realmente competentes são ignorados e mesmo afastados? Sobre a “fraternidade” às vezes ela nem existe entre os irmãos de sangue. Brigam entre si, cancelam a amizade muitas vezes por motivos tão banais. As discórdias são notórias nos cotidianos e mais provocam inimizades deixando de lado a fraternidade. Para a realidade destes dias as palavras “liberdade, igualdade e fraternidade” são apenas palavras e não se transformam em fatos conforme sejam seus significados. Mas, uma parte do povo, sempre tagarela adora ter como se notar com as palavras que são apenas palavras para os outros que também são iludidos por elas. Se soltar palavras a esmo pagasse imposto, poucos teriam a condição de ficar ricos.

Quanto ao falar tenho pena de quem queira falar algo para alguém e não consiga. O alguém, como muitos na mesma situação, está atarracada em seu “EU” e só escuta a si mesma. Não tem paciência de ouvir até o final o que a pessoa quer falar e a interrompe para dizer algo parecido que aconteceu com ela. Sim, seu EU está em primeiro lugar. Sempre interrompe porque as coisas que no momento foram lembradas pelo seu EU são mais importantes das coisas que a outra pessoa quer falar. Não se sabe se isso é doença psicológica ou falta de educação. Quando nos deparamos com uma pessoa calcada no seu Eu devemos saber que o que temos pra falar não é tão importante como o que ela quer falar. Como ela é daquelas que só ouvem a si mesmas, bom mesmo é deixá-la falar. Sendo assim nós a agradamos mesmo no nosso desagradar de não conseguirmos com ela falar.

A maioria das pessoas deste mundo gostaria de ser rica. Mas, como tenho observado o mundo mais é dos pobres. Quando passeio pelas ruas da cidade quase não vejo pessoas que aparentam ser ricas. Vejo sim pessoas e mais pessoas com aparências de pobres. Essas parecem ser mais descontraídas e até mais felizes. As acompanhadas por outras no vai-e-vem pelas ruas demonstram alegria em seus rostos quando de suas conversas descontraídas. As lojas, como se observa, ficam repletas de pessoas comprando artigos para seus usos e nessas lojas não se vê pessoas ricas. As ricas frequentam lojas que são mais vazias de gente. Os pobres são mais felizes porque graças a eles os ricos ficam mais ricos. Por sua vez, os ricos tudo fazem para agradar aos pobres com o que fabricam e vendem. Os ricos reconhecem que sem os pobres eles não seriam ricos. Por isso, eles adoram os pobres e lhes oferecem muitos empregos com salários compatíveis com suas capacidades. Oitocentos, novecentos e até mil reais por mês, o que é uma fortuna até para se comprar algo pelo crediário... Cedido pelos ricos. Concluindo, o mundo é mesmo dos pobres. Os ricos, coitados, não embarcam nos trens, nos ônibus e nos metrôs. Eles não sentem o calor humano que os pobres sentem. Os pobres conversam entre si e gargalham por qualquer coisa. Os pobres estão espalhados por todos os cantos do mundo enquanto os ricos vivem isolados. Lembrando, Jesus preferia conviver com os pobres. Sabendo disso pra que querer ficar rico?


                                                                                                       Altino Olimpio