quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Morri sem saber


O dia estava calor e fui buscar sorvete onde costumo comprar aqui no bairro onde moro. Com a balde de plástico com capacidade para doze litros de sorvete de massa vinha eu caminhando a pé quando vi um amigo. Pensei que não deveria me entreter com ele porque o sorvete iria derreter. Mas, ele me chamou para conversar. Enquanto conversávamos apareceu a minha prima Odila de Jundiaí toda sorridente e dizendo “o Coquinho me deu um coco de presente” (Coquinho era o apelido de um senhor já falecido do daqui Bairro de Perus da Cidade de São Paulo). Perguntei pra ela: Ele te deu coquinhos ou coco grande? Ela respondeu que ele lhe dera coco grande. Vendo-a tão alegre e mais jovem gritei: QUE FAZ AQUI? COMO ESTÁ AQUI? Olhei para o amigo e disse-lhe: É minha prima, mas, ela já morreu. Eles olharam para mim sem nada dizer, mas, seria como dissessem “você também já morreu”. Senti-me estarrecido, calado, triste e pensativo, acreditando mesmo que havia morrido, pois, aquele amigo também já era falecido, entretanto, continuamos a caminhar e logo chegamos a um lugar parecido com um sítio do interior. O local era plano como um campo de futebol. Havia um gramado descuidado e invadido por vegetação outras e rasteiras. Várias pessoas no local, inclusive crianças, e, me eram desconhecidas. Ainda tendo nos braços o recipiente com sorvete, numa surpresa vi entre elas, a minha esposa e fiquei aturdido. Como as outras pessoas, ela estava circulando pelo local e parecendo estar pensativa. Estava vestida com uma calça da cor marrom claro, aregaçada até as canelas, a mesma que por muitas vezes eu já a tinha visto no nosso lar.  Pensei em gritar-lhe “hei, como é viver depois da morte do Altino”. Não consegui, porque, alguém ao meu lado me antecipou e gritou-lhe a mesma pergunta. Ela desatou a chorar e vendo-a chorar chorei também. Fiz menção de consolá-la, mas, veio-me a lembrança que eu havia morrido e ela não poderia me ver ou ouvir.  E foi nesses momentos que acordei. No sonho houve uma inversão de situações. Minha esposa faleceu há vinte e nove anos no ano de 1984. Eu ainda estou por aqui. No mais das vezes nossos sonhos são esquecidos e muitos deles são confusos e desconexos. Sobre o sonho aqui relatado, pessoas podem emitir suas considerações, como, “ela está precisando de uma missa, o sonho foi um contato espiritual, foi um aviso” e etc. Contudo, dispenso quaisquer considerações, pois, o sonho faz parte de uma atividade cerebral, da qual, ainda estamos impossibilitados de compreender.

                                                                                                               Altino Olimpio