quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Vida Indefinida


Existe um filme que no Brasil tem o nome de “O Enigma de Kaspar Hause” tendo sido baseado em fatos reais. É sobre um jovem encontrado numa Praça de Nuremberg, Alemanha, em vinte e seis de maio de 1828. Supostamente com quinze anos de idade ele foi deixado naquela praça com uma carta endereçada ao capitão da cidade explicando breve parte de sua história, um pequeno livro de orações entre outros itens a indicar que ele provavelmente pertencia a uma família da nobreza. Kaspar Hause, como era chamado, aprisionado passou os primeiros anos de sua vida numa cela não tendo contato verbal ou pessoal com outro qualquer ser humano. Por isso, nenhum idioma aprendeu para poder se comunicar. Seu cérebro era vazio de conceitos. Só decorou a palavra cavalo e a frase “quero ser um cavalheiro como foi o meu pai”. Nem andar ele sabia devido à sempre ficar sentado ou deitado sobre palhas de milho. À noite ele era alimentado apenas com pão e água e nem via o rosto do tal “benfeitor”. Por não ter conceitos, raciocínio e, talvez, nem pensamentos, ele era como se fosse apenas um objeto igual ao cavalinho de brinquedo que ficava ao lado dele. Depois de encontrado naquela praça ele se tornou um enigma. Quem era ele? De onde veio? Tinha uma descendência nobre? Por que não falava? A exclusão social de que fora vítima o privou da fala. Porém, logo lhe foram ensinadas as primeiras palavras e com seu recente contato com os seres humanos ele pode paulatinamente aprender a falar da mesma maneira que uma criança o faz.  Aprendeu a falar, a ler, a escrever e a se comportar. Conseguiu até escrever sua autobiografia. Obteve um desenvolvimento do lado direito de seu cérebro notoriamente maior que do lado esquerdo. Isso, teoricamente lhe proporcionou alguns avanços no campo da música. Sua fama espalhou-se pela Europa e na época ficou sendo conhecido como o “Filho da Europa”. Ele não gostava de comer carne e nem de ingerir bebida alcoólica, pois, por anos fora condicionado a comer apenas pão e tomar água. Enquanto esteve no cativeiro, Kaspar Hause era incapaz de sonhar. Também pudera como seu cérebro era vazio de conceitos, de fatos, de imagens e de fisionomias de pessoas, nada havia mesmo com o que sonhar. Depois de encontrado, como acima relatado, Kaspar Hause viveu por apenas cinco anos, pois, fora assassinado com uma facada no peito em 1833. Na lápide de seu túmulo escreveram “Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido”. A motivação e a autoria do crime jamais foram esclarecidas.
Deixando de lado as várias explicações psicológicas do fato narrado contidas em livros e na internet vamos adentrar numa polêmica. Fala-se muito sobre o fato de que quando reencarnamos, trazemos das reencarnações anteriores as nossas experiências. Quando alguém demonstra uma habilidade ou inteligência acima das dos demais, dizem que, esse alguém é possuidor de uma alma muito antiga, já evoluída devido suas muitas reencarnações. No caso do Kaspar Hause teria tido ele sua primeira encarnação e por isso não conseguiu se adaptar à sociedade de sua época, mesmo depois de ter sido, embora tardiamente, socializado ou civilizado? Muitos tidos como inteligentes por possuírem uma alma velha de inúmeras reencarnações, se tivessem tido o mesmo encarceramento do Kaspar Hause, duvida-se que seriam diferentes dele. Nessa situação, alma velha evoluída e experiente de nada serviria. Talvez isso esteja a significar que tudo é aqui e daqui. Nada tem a ver com inteligências e experiências de entidades vindas do além ou não se sabe de onde para aqui reencarnarem. Os seres humanos nascem com o cérebro vazio, sem pensamentos, sem imagens, sem diferenciações, sem comparações e sem compreensões. Aqui, logo adquirem a autoconsciência e a partir dela iniciam suas formações de conceitos. Assim vão formando suas individualidades e personalidades no viver social. Já foi dito que o homem é um produto do seu meio e ele não consegue se evadir disso. Quanto à diferença entre os humanos, uns sendo mais inteligentes que outros, talvez, estejam na condição em como foram constituídos e tendo em consideração suas descendências, conforme as combinações genéticas paternas. Voltando a tese da reencarnação, como parece, a maioria dos seres humanos ainda desconhece que “tudo é mente”. É na mente que se realizam as nossas realidades e elas são conforme são nossas mentes. Muitas das concepções psicológicas são existentes apenas nas mentes do seres humanos se nada está a comprová-las como realidade acessível e parecida para todos. A reencarnação, como ela é acreditada por muitos e por muitos ela é desacreditada, então, ela é teoria e como ela é teoria, ainda situa-se apenas na mente humana. Pra quem gosta de ação, o filme “O Enigma de Kaspar Hause” é sem e monótono. Mais está para quem reflete sobre o que vê e o que ouve, para assim, ter suas deduções. Como tudo é mente, é nela que encontramos refúgio para nossas conclusões. Estas, sempre serão conforme a evolução de cada um.  Nisso está à discordância humana diante da compreensão dos fatos, sejam eles reais ou imaginários.
                                                                                                    Altino Olimpio 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Santo Daime


Foi no ano passado e num consultório dentário no Bairro de Perus, quando me encontrei com uma conhecida. Naquela sala de espera com mais pessoas aguardando a serem atendidas pelo dentista, sem qualquer constrangimento a conhecida disse-me estar feliz por freqüentar reuniões do “Santo Daime” num bairro da Cidade de São Paulo.  Graças a essas reuniões ela se curou de uma doença, mas, importante também, disse-me ela, que, via e conversava com “Extras Terrestres”. Pensei que estivesse brincando, mas, não! Estava convicta de ter esses contatos com eles. A seguir procurei obter informações sobre o tal de Santo Daime e sobre seus efeitos na mente humana. Tudo começou na década de trinta do século passado quando um senhor de nome Raimundo Irineu Serra, nascido no Estado do Maranhão em 1892, ao se mudar para o Estado do Acre experimentou o chá de uma planta conhecida como Ayahuasca e com ela teve uma visão de características marianas. Aparições marianas são fenômenos de origem sobrenatural nos quais se acredita que a Virgem Maria aparece a uma ou várias pessoas, na sua maioria, católicas. Com isso ele criou uma seita e nela mesclou elementos culturais diversos como às tradições xamânicas, o catolicismo popular, o esoterismo e tradições afro-brasileiras. Resumindo, essa prática como um culto ou como um ritual se espalhou por quase todos os estados brasileiros, pelos Estados Unidos, pelo Canadá, Japão, Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela e Portugal. A planta ingrediente do chá é tida como alucinógena. Sim, causa visões. Aliás, algumas religiões hoje existentes, como a dos Mórmons, por exemplo, teve início com um visionário de nome Joseph Smith. Quem ler o Livro dos Mórmons ficará a par que ele teve a visão de um anjo de nome Moroni, que, informou-lhe sobre umas placas de ouro existentes numa colina chamada de Cumorah no Condado de Ontário do Estado de Nova Iorque. Joseph Smith traduziu o conteúdo inscrito nas placas e a tradução resultou na edição do já citado Livro dos Mórmons. É uma parecida Bíblia da agora “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”. Voltando ao Santo Daime, como o citado Raimundo Irineu Serra teve uma visão mariana, isso o induziu a transformar a prática da ingestão do chá Ayahuasca numa religião tendo, como se sabe, essa característica religiosa no ritual durante o ingerir do chá poderoso. Isso se propagou como tendo Deus e Jesus Cristo presentes nos rituais e nas manifestações psíquicas ou psicodélicas causadas pelo chá nos participantes dessa prática.  Entretanto, acredita-se, apenas a ingestão do Santo Daime, como é chamado o chá, ele produz o mesmo efeito sem a necessidade de religião envolvida. O ser humano tem mesmo a tendência de transformar em religião suas visões por não compreender de como e de onde elas são procedentes. Ele ainda desconhece a capacidade de seu cérebro para produzir na mente efeitos visuais insólitos ou incomuns, ou mesmo raros, quando sofre algum estímulo ou distúrbio proveniente de algo ingerido que é incompatível ou contrário para a função habitual e normal do cérebro. Quando o ser humano está desperto diz-se que ele está consciente e em seu estado objetivo. Mas, ele altera seu estado de consciência objetiva para o estado de consciência subjetiva quando por momentos se distrai com lembranças e com imagens mentais delas alheias ao momento e ao lugar de onde ele se encontra. Contudo, ele tem controle sobre esse alterar de estados de consciência e, do estado subjetivo retorna ao estado objetivo quando quer. Mas, perde-se esse controle quando se está sob o efeito de alucinógenos quando o estado subjetivo, por momentos, prepondera sobre o estado objetivo e fica sendo “o senhor da situação”. Circunstância esta, propensa para a manifestação de visões particulares. Como se sabe, as visões não são iguais para todos. Cada um pode ter visões conforme seja sua crença instalada em seu subconsciente. Nesse estado alterado de consciência não é incomum uma pessoa ter a visão da Virgem Maria, de ETs e etc. Dizem que nesse estado alterado de consciência sente-se também a presença de Deus, portanto, sem a imagem Dele, pois, Ele ainda é inimaginável. Nenhuma imagem correspondente a Ele está no subconsciente de alguém para poder surgir numa visão provocada por estimulantes psicodélicos.  Aquela minha conhecida do início deste breve comentário sobre o Santo Daime conforme ele me é entendido, com certeza, ela não mentiu sobre o fato de ter conversado com os extras terrestres. Essa verdade é só dela e só pra ela, obtida enquanto ela esteve sob o efeito daquele chá que provoca visões ou alucinações. Quem sou eu para desmenti-la? “O ver para crer” de São Tomé nem sempre comprova a realidade do que se vê, e isso, pra se viver bem em sociedade, não se deve falar para quem vê coisas que outros não conseguem ver.

                                                                                                       Altino Olimpio