segunda-feira, 25 de junho de 2012

A vida existe para a morte

Nós nascemos e vivemos para desaparecer com a morte. Ela sempre está a nos espreitar e nunca sabemos quando ela vai nos levar. Quando ela nos leva, o mundo prossegue indiferente para os que se tornam ausentes e o tempo tudo apaga. Ah o tempo. Também sinônimo de época, numa existimos e nos expressamos conforme nós somos para nós mesmos e para outros. Azar ou sorte, o tempo de qualquer um, prematuramente, pode ser interrompido pela morte. Ela pode nos acontecer durante aquela nossa iludida e pretensiosa autoimportância, quando, ainda pensamos ter muito a fazer e a querer. Para interromper, quase sempre a morte vem para tudo desfazer da arrogância da nossa autoimportância. Até parece uma traição e ninguém garante que exista uma compensação. A vida nos transcorre como ela sendo uma forasteira. Ela é incógnita ao nos desabilitar de saber o que de bom ou mal possa vir a nos ocorrer. Muitos fatos, se bons ou ruins, nos são inesperados sem ao menos serem premeditados. Mas, em qualquer agora gostamos de pensar que a nossa partida ainda demora. Nós somos filhos do tempo. Ininterrupto como ele é, num devido tempo nós nascemos, crescemos e nele envelhecemos. No envelhecer o tempo já está a nos preparar para o nosso perecer. Ele nos dispensa a qualquer dia, a qualquer hora e não se importa se ainda não queremos ir embora. Então, não somos donos do nosso nascer, não somos donos da vida e nem da morte para poder evitá-la. Somos efêmeros sem ao menos querermos. Nosso viver ou morrer não está ao nosso poder. Somos o que a natureza requer é só existimos enquanto ela quer. Parecemos ser brinquedos para o mundo se divertir em seus folguedos. Somos pueris ao dizer “sou assim, sou isso, sou aquilo” se esquecendo do fim da nossa estrada que nos conduz ao voltar a ser nada. O descontentamento de deixar de existir no tempo provoca o acreditar num outro estado de existir e nisso muitos estão a persistir. Talvez seja apenas cisma, pois, se sabe, o ser humano se perde em sofisma. Contudo, esse nosso imaginar um futuro depois da morte mais nos faz tatear no escuro.

Altino Olimpio