quarta-feira, 4 de abril de 2012

Perguntar já era

Antigamente naquele modo simples de viver tudo era mais esclarecido. As pessoas conversavam mais e o importante, perguntas eram feitas e respondidas. Hoje não, perdemos a capacidade humana de perguntar. Agora fomos habituados a ver e ouvir. Se estivermos a ler um jornal não há como perguntar pro causador de um crime porque ele cometeu tal absurdo. Se na televisão aparece à imagem de um ministro que desviou verba pública não temos como perguntar pra ele como ele conseguiu tal proeza. Quanto dinheiro ficou com ele, onde ele depositou o dinheiro, se ele vai devolver... Quando assistimos a uma novela vemos e ouvimos a conversa de uma mulher que traiu o marido e não podemos perguntar onde se deu o fato, se foi num carro, se foi num motel, quantas vezes ela se realizou. Na novela, outra só gosta de mulher e não há como perguntar pra ela se isso é gostoso, o que elas usam e como é que elas gostam de gozar. Ao ler um livro sobre uma guerra não há como perguntar pro autor do livro se alguns fatos são realidade ou se ele inventou. Então, com a incidência da comunicação das massas (mídia) nós fomos condicionados apenas para assistir e ouvir. Temos que acompanhar a sequência dos fatos sem a possibilidade de interromper e perguntar algo sobre os mesmos. Numa palestra, no final dela o palestrante costuma perguntar se alguém quer fazer alguma pergunta. Já é quase raro alguém se manifestar com uma pergunta. Claro, pra que? Ver e ouvir são mais cômodos. Certa vez estive numa palestra sobre esoterismo e ouvi esta conhecida frase: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida e ninguém vai ao pai ‘senão’ por mim”. O orador disse que essa frase foi Jesus quem disse. Ele foi afirmativo, mas, pensei: Há controvérsia. O citado não deixou nada por escrito e não há como comprovar, mas, é para acreditar. E eu continuei pensando “e todos aqueles que viveram antes da época de Jesus se não tinham Ele para ser-lhes o caminho, conseguiram eles chegar até o Pai?” Pensei em interromper a palestra e perguntar isso para o palestrante, mas, pensando melhor, todos iriam me chamar de polêmico. Então me lembrei que está na moda o só ouvir, acreditar e, nada perguntar. Por isso, me mantive calado. Conclusão: Fiquei sem saber o que aconteceu com eles e se por si mesmos encontraram o caminho. Depois o assunto mudou para o “ler pensamento” e o macaquinho da minha mente que pula pra cá e pra lá me falou “coitados dos analfabetos, esta palestra não serve pra eles” (risos). De todas as palestras onde estive ficou-me um grande aprendizado: O de se calar, nada perguntar e não revelar o que se venha a pensar. Isso sim é saber viver. E sempre ser querido entre os outros e a melhor forma de conquistar amigos inteligentes de verdade.

Altino Olimpio

Verborragia

Puxa vida, nunca ouvi essa palavra, verborragia. Seria um palavrão, uma palavra de baixo calão que não se deve pronunciar? Isso me ficou no pensamento por uns dias até o dia quando num ritual fiquei sabendo do seu significado. Foi naquele dia à meia noite quando me isolei da família, tranquei portas e janelas e no escuro acendi uma vela preta (eu gosto de vela preta) e recitei uma oração mágica. Foram entre estrondos e mais estrondos e clarões que penetravam pelas frestas da janela que iniciei o ritual. Eram raios e trovões e eu ao ouvir a vizinhança assustada gritando que parecia o fim do mundo. Eu permanecia tranquilo, pois, nada pode contra um homem de fé. Na penumbra vi minha cama levitar, ela subia e descia. Era um aviso que eu não estava só. Logo a natureza se acalmou e o silêncio se fez presente. Foi quando me arrepiei todo. Apareceu-me um espírito e não me assustei porque ele era bonito. Se não fosse desencarnado eu até daria um beijo nele se ele fosse feminino, coisa incomum nas aparições de espíritos quando são requisitados para se manifestarem. Ai ele se pôs a falar por telepatia: “Você não sabe o que é verborragia? É abundância de palavras inúteis que exprimem poucas idéias. Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) insistia com seus alunos para que eles não pronunciassem palavras em vão, palavras inúteis. Resumindo, conversas que não servem para nada. Pestalozzi foi também professor do francês Hippolyte Léon Denzard Rivail que iria ser famoso com o nome de Allan Kardec (1804-1869). Bem assessorado nos estudos pelo ótimo professor Pestalozzi, Allan Kardec assimilou bem os ensinamentos sobre o não se utilizar de verborragia, pois, em dezoito de abril de mil oitocentos e cinquenta e sete ele publicou um livro chamado de ‘O Livro dos Espíritos’. A partir disso e dele, se alastrou pelo mundo o “espiritismo”. O homem sabia tudo sobre os espíritos, como eles agem, o que eles fazem e etc. Nada no livro pode ser considerado verborrágico devido à seriedade e credulidade com que o autor expôs suas considerações e conhecimento autêntico sobre os seres invisíveis. Hoje isto é tudo o que eu tinha para lhe informar. Agora vou me retirar para o meu mundo. Pode agora apagar a tua vela preta. Namastê”.
Nossa, era o espírito de um yogui da Índia, então tudo o que ele disse é verdade. E que noite feliz me foi aquela dessa aparição. Mas, no dia seguinte... Por um motivo banal briguei com as minhas filhas. Foi palavrão pra cá, palavrão pra lá, pontapé em cadeira, chute no cachorro... O ambiente esteve carregado mesmo. Quando isso acontece à gente cai de nível. A gente se desarmoniza e é quando o diabo se aproveita para nos atormentar. Ele fica enfiando pensamentos ruins na cabeça da gente. Lembro-me de um que é assim: “A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos” (Erasmo de Rotterdam 1465-1536). O sempre estar em harmonia com o que a maioria acredita ou pratica evita que o diabo venha a colocar nas nossas cabeças pensamentos tão bobos e ofensivos, como, o supracitado do Erasmo de Rotterdam que devia ser meio louco, pois, escreveu o livro “Elogio da Loucura” onde se lê zombarias das pessoas pelo que elas acreditavam. Mas, por falar em doidos, nos que de fato são mesmo, parece que sempre existiram e isso não é só de agora.

Altino Olimpio