segunda-feira, 9 de abril de 2012

Homem, o escravo de si mesmo

O ser humano não percebe que é um joguete de sua natureza. Sua vida sempre foi dividida em fases e nelas foi seu escravo. Quando criança pode ter sido feliz. Isso é obvio! Ainda em formação, a criança carece do preparo físico para dar vazão ao instinto. Sua constituição fisiológica incompleta ainda não dispõe do poder que vão lhe exercer os seus hormônios. Sendo assim, ela ainda não é submissa aos desejos corporais que viciam e aprisionam os adultos. Como consequência ela é inocência e isso é considerado como sendo a pureza infantil.

A partir da juventude com sua constituição já quase completa, os hormônios aqui entendidos como a manifestação do instinto e da emoção, eles têm no adulto o meio para se expressarem. Isso no homem é a continuidade do seu se desconhecer. Muito do que faz é proveniente de uma reação, digamos, química e independente de sua volição. Num exemplo, a presença de uma mulher próxima a ele pode ocasionar uma reação em sua região pélvica tornando-o excitado mesmo ele estando num local de oração e sem intenção erótica. Tal reação pode lhe surgir espontaneamente mesmo sendo indesejada pela sua consciência na ocasião. Sua consciência apenas estaria a acusar um desejo sexual proveniente de um estímulo interior provocado pela presença da mulher próxima a ele, independente do seu querer. Quase sempre o homem é impulsionado por reações internas despercebidas por ele. Daí o pensar que seus atos são originários de seus próprios pensamentos quando podem não ser. Eles são muito influenciados pelos instintos e por outras sensações.

Os homens, imitadores como são, não se diferem muito dos macacos. São assim porque são joguetes de influências e como atendem a elas pensam estar exercendo suas próprias vontades. Se estas fossem mais predominantes seriam determinantes para cada um se conduzir como quer e não ser conduzido por influências invasoras tão em vigor atualmente. Teríamos maior diversidade entre os seres humanos e entre suas realizações. Mas, não! Em sua maioria eles são parecidos pelo que gostam, desejam e, as generalizadas sugestões repetidamente difundidas os tornam vítimas de suas tendências imitativas. Estas os tornam enfadonhos diante das mesmices exteriorizadas por eles e realçam suas disposições para serem massas de manobra.

Alguma liberdade para o homem ser ele mesmo só lhe vem com o avançar da idade quando seus hormônios estão enfraquecidos e seu estado sugestionável é mínimo. É quando o homem (não todos) percebe melhor as ilusões da vida, os erros consequentes ao ter sido direcionado pelo instinto e de ter sido facilmente influenciado por sugestões alheias aos seus desejos necessários. Mas, já é tarde para arrependimentos. Ele pode estar envolvido com responsabilidades que o torturam por nunca as tê-las desejado ou imaginado. Consequência de um inconsciente viver sob o domínio das influências externas e do poder com que os desejos corporais o dominaram sem ele discipliná-los com a razão ou raciocínio.

Concluindo, o homem não é a independência que promulga ser. Escravo dos instintos, escravo das emoções, escravo das influências, das imitações e etc. ele também é um acúmulo hereditário. É o resultado da união dos genes paternos a influir em sua vida e nele podem reaparecer sinais de atavismo. Ele não é uma integridade original própria. Mais ele é uma reprodução de seus antecessores. Nem sua constituição fisiológica lhe é própria. Nisto tudo se conclui que o homem é um aglomerado das tendências que o acompanham e o aprisionam na ilusão dele ser o único protagonista responsável por suas ações, desejos e vontades. Exagerando nesta explanação, o homem só por si mesmo nem existe sem os reflexos de outros que foram seus antecessores. Daí a expressão “ninguém é livre e independente como imagina ser.”

Altino Olimpio

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Perguntar já era

Antigamente naquele modo simples de viver tudo era mais esclarecido. As pessoas conversavam mais e o importante, perguntas eram feitas e respondidas. Hoje não, perdemos a capacidade humana de perguntar. Agora fomos habituados a ver e ouvir. Se estivermos a ler um jornal não há como perguntar pro causador de um crime porque ele cometeu tal absurdo. Se na televisão aparece à imagem de um ministro que desviou verba pública não temos como perguntar pra ele como ele conseguiu tal proeza. Quanto dinheiro ficou com ele, onde ele depositou o dinheiro, se ele vai devolver... Quando assistimos a uma novela vemos e ouvimos a conversa de uma mulher que traiu o marido e não podemos perguntar onde se deu o fato, se foi num carro, se foi num motel, quantas vezes ela se realizou. Na novela, outra só gosta de mulher e não há como perguntar pra ela se isso é gostoso, o que elas usam e como é que elas gostam de gozar. Ao ler um livro sobre uma guerra não há como perguntar pro autor do livro se alguns fatos são realidade ou se ele inventou. Então, com a incidência da comunicação das massas (mídia) nós fomos condicionados apenas para assistir e ouvir. Temos que acompanhar a sequência dos fatos sem a possibilidade de interromper e perguntar algo sobre os mesmos. Numa palestra, no final dela o palestrante costuma perguntar se alguém quer fazer alguma pergunta. Já é quase raro alguém se manifestar com uma pergunta. Claro, pra que? Ver e ouvir são mais cômodos. Certa vez estive numa palestra sobre esoterismo e ouvi esta conhecida frase: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida e ninguém vai ao pai ‘senão’ por mim”. O orador disse que essa frase foi Jesus quem disse. Ele foi afirmativo, mas, pensei: Há controvérsia. O citado não deixou nada por escrito e não há como comprovar, mas, é para acreditar. E eu continuei pensando “e todos aqueles que viveram antes da época de Jesus se não tinham Ele para ser-lhes o caminho, conseguiram eles chegar até o Pai?” Pensei em interromper a palestra e perguntar isso para o palestrante, mas, pensando melhor, todos iriam me chamar de polêmico. Então me lembrei que está na moda o só ouvir, acreditar e, nada perguntar. Por isso, me mantive calado. Conclusão: Fiquei sem saber o que aconteceu com eles e se por si mesmos encontraram o caminho. Depois o assunto mudou para o “ler pensamento” e o macaquinho da minha mente que pula pra cá e pra lá me falou “coitados dos analfabetos, esta palestra não serve pra eles” (risos). De todas as palestras onde estive ficou-me um grande aprendizado: O de se calar, nada perguntar e não revelar o que se venha a pensar. Isso sim é saber viver. E sempre ser querido entre os outros e a melhor forma de conquistar amigos inteligentes de verdade.

Altino Olimpio

Verborragia

Puxa vida, nunca ouvi essa palavra, verborragia. Seria um palavrão, uma palavra de baixo calão que não se deve pronunciar? Isso me ficou no pensamento por uns dias até o dia quando num ritual fiquei sabendo do seu significado. Foi naquele dia à meia noite quando me isolei da família, tranquei portas e janelas e no escuro acendi uma vela preta (eu gosto de vela preta) e recitei uma oração mágica. Foram entre estrondos e mais estrondos e clarões que penetravam pelas frestas da janela que iniciei o ritual. Eram raios e trovões e eu ao ouvir a vizinhança assustada gritando que parecia o fim do mundo. Eu permanecia tranquilo, pois, nada pode contra um homem de fé. Na penumbra vi minha cama levitar, ela subia e descia. Era um aviso que eu não estava só. Logo a natureza se acalmou e o silêncio se fez presente. Foi quando me arrepiei todo. Apareceu-me um espírito e não me assustei porque ele era bonito. Se não fosse desencarnado eu até daria um beijo nele se ele fosse feminino, coisa incomum nas aparições de espíritos quando são requisitados para se manifestarem. Ai ele se pôs a falar por telepatia: “Você não sabe o que é verborragia? É abundância de palavras inúteis que exprimem poucas idéias. Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) insistia com seus alunos para que eles não pronunciassem palavras em vão, palavras inúteis. Resumindo, conversas que não servem para nada. Pestalozzi foi também professor do francês Hippolyte Léon Denzard Rivail que iria ser famoso com o nome de Allan Kardec (1804-1869). Bem assessorado nos estudos pelo ótimo professor Pestalozzi, Allan Kardec assimilou bem os ensinamentos sobre o não se utilizar de verborragia, pois, em dezoito de abril de mil oitocentos e cinquenta e sete ele publicou um livro chamado de ‘O Livro dos Espíritos’. A partir disso e dele, se alastrou pelo mundo o “espiritismo”. O homem sabia tudo sobre os espíritos, como eles agem, o que eles fazem e etc. Nada no livro pode ser considerado verborrágico devido à seriedade e credulidade com que o autor expôs suas considerações e conhecimento autêntico sobre os seres invisíveis. Hoje isto é tudo o que eu tinha para lhe informar. Agora vou me retirar para o meu mundo. Pode agora apagar a tua vela preta. Namastê”.
Nossa, era o espírito de um yogui da Índia, então tudo o que ele disse é verdade. E que noite feliz me foi aquela dessa aparição. Mas, no dia seguinte... Por um motivo banal briguei com as minhas filhas. Foi palavrão pra cá, palavrão pra lá, pontapé em cadeira, chute no cachorro... O ambiente esteve carregado mesmo. Quando isso acontece à gente cai de nível. A gente se desarmoniza e é quando o diabo se aproveita para nos atormentar. Ele fica enfiando pensamentos ruins na cabeça da gente. Lembro-me de um que é assim: “A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos” (Erasmo de Rotterdam 1465-1536). O sempre estar em harmonia com o que a maioria acredita ou pratica evita que o diabo venha a colocar nas nossas cabeças pensamentos tão bobos e ofensivos, como, o supracitado do Erasmo de Rotterdam que devia ser meio louco, pois, escreveu o livro “Elogio da Loucura” onde se lê zombarias das pessoas pelo que elas acreditavam. Mas, por falar em doidos, nos que de fato são mesmo, parece que sempre existiram e isso não é só de agora.

Altino Olimpio