terça-feira, 30 de agosto de 2011

Importância nula

Hei leitor (a), você é importante, não é? Não importa sua vida ser repleta de banalidades e perdida em tudo o que é óbvio e repetitivo. Saia de sua casa e vá até a avenida de seu bairro para observar o povo na ilusão de suas responsabilidades. Automóveis passam conduzindo pessoas nas orgias do “necessário fazer” diário. No comércio e escritórios você vê pessoas livres a serem prisioneiras diárias de suas nobres incumbências profissionais. Você numa esquina apreciando tudo, não importa se tu és bobo ou esperto, pois sentes a tua importância. Iguais a como você se sente existem no mundo cerca de sete bilhões de pessoas. Não lhe parece que seus olhos e seus ouvidos são como uma câmera de televisão a registrar tudo o que lhe ocorre e a ser transmitido a algum arquivo, talvez, imaginado ou não por ti? Lhe passa pela cabeça que um dia esse arquivo será aberto e seu conteúdo será revelado? Ah, você se lembrou agora do dia do Juízo Final tão comentado nas religiões. Essa lembrança faz mesmo pensar no sermos os protagonistas e testemunhas das mazelas ou beneficências humanas. Você leitor, na esquina observando os outros tão distraídos em seus mundinhos restritos quando só você parece estar atento com as circunstâncias, seja sincero, não te julgas ser mais importante que eles? A analogia sobre sermos como uma câmera de televisão pode te ajudar a se reconhecer. Supondo ela tendo também a capacidade de analisar fatos e de editar textos sobre eles, isso teria a ser conforme o condicionamento de cada um. Leitor, se o teu condicionamento é pobre de experiências úteis e sua mente é abarrotada de supérfluos, se tua mente abriga “existências” nunca vistas e ouvidas por você e nem por outros, então, a câmera de televisão que você é, será incapaz de editar um texto com a realidade dele. Incluirá nele suas fantasias mentais como “foi o destino, foi uma provação, foi parte da missão, foi um teste, foi castigo, foi uma dívida da encarnação passada, foi um milagre, foi por merecimento, Deus quis assim, e etc.” Então leitor (a), com essa “autenticidade” a enfeitar ou a emporcalhar os fatos que lhe ocorrem, você estaria em condições de ser um registro para a posteridade? Seu arquivo a ser aberto não seria só de distorções e irrealidades? Agora, se concentre e imagine-se mesmo sendo uma câmera de televisão a gravar tudo e todos à sua volta. Isso mesmo, ótimo. Que experiência magnífica, não? Os outros parecem dispersos em si mesmos, só você parece estar consciente e até se sentindo mais importante. Você parece estar conectado com um poder do além e esse poder te considera um ser especial. Ah coitadinho (a) você é tão bonzinho (boazinha) Muito cuidado. Se só você se julga importante e ninguém mais te julga assim, talvez você seja louco (a) e ainda não sabe. Pare de se imaginar sendo uma câmera de televisão. Você acatou essa sugestão porque já está habituado a ser influenciado por outros no que eles fazem, acreditam e querem que você faça e acredite também. Continue assim e será uma marionete de sucesso. Parabéns.

Altino Olimpio

Por fogo na brasa

Como início, como começo, como princípio, como partida vamos a uma frase do escritor da boca ferina Truman Capote: “Só direi que não sou feliz. Só os imbecis ou idiotas são felizes”. Caramba, o homem “pegava” pesado. Pensando bem, a frase não teria algum fundamento? Nós no passado não notamos que algumas pessoas se consideravam as tais? Isto é, melhores, superiores a outras e num indisfarçável desprezo por elas? Sim, foram mais favorecidas pela sorte, elas usufruíam mais conforto, mais facilidade para instrução e outras vantagens. Tudo parecia um mar de rosas e o destino parecia ser amigo delas. Mas, mas, mas... O tempo, só porque a mãe dele era funcionária na zona, ele resolveu descarregar sua decepção nas criaturas inocentes. Aqueles tais que ainda se julgavam os tais parecem ter sido os mais afetados. Doenças várias que deveriam ser só para os “simples” também vieram visitá-los, filhos os decepcionaram, eles e seus cônjuges envelheceram, ficaram feios, perderam o encanto, mas, isso não se fala. Os iguais próximos também foram adoecendo e depois morrendo. É quando um tal se sente sozinho, carente de carinho, carente de amizade, mas coitado, tendo sido o tal, os outros que não eram e não são, são impiedosos e não lhes dão atenção. Por sua vez, o tal ainda com resquícios de ser o tal, não consegue se relacionar com quem não lhe seja igual. Apesar de tudo, mesmo ao perceber que na sua idade a vida (no dizer do filósofo Gurdjieff) nivela todos como sendo “farinha do mesmo saco”, ainda tem tal se pensando ser o tal e estar numa redoma. Se combalido por doença ou pelo envelhecer e não ter a sorte de morrer antes, terá a “nobreza” de sair da redoma para que alguém simples lhe limpe a bunda. Claro, para essa tarefa outros a se julgarem serem os tais sempre estarão ausentes. Felizmente um milagre pode acontecer. Seria a compreensão de uns precisarem de outros não importando um se pensar ser superior ao outro ou este ser inferior àquele. Temos outra frase: Às vezes podemos pagar caro por aquilo que pensamos ser se isto está a outro desmerecer.

Altino Olimpio