segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Estar na moda incomoda

--Escuta, estou aqui com você neste restaurante, mas, estou ficando invocado.
--Ué por quê? Minha companhia não te agrada?
--Agrada sim, mas, todos ao passar por aqui te olham. Você está com um decote exagerado. Pela tua idade acho inconveniente essa tua exibição.
--Ah bem, você está com ciúmes, como isso é bom e é porque gostas de mim.
--Pronto, eu sabia. Lá vem o ciúme de merda interceder para me tirar à razão.
--Querido! Acalme-se, pois, gastei uma grana pra colocar silicone nos seios e você acha que não devo mostrá-los? No bumbum também coloquei e bem que você gostou. Deixe os outros olharem, afinal, não me tiram nenhum pedaço.
--Tá, tá, tá bom. Mostre o que quiser pra quem quiser. A vaidade feminina não tem limites. Pensei que você fosse mais recatada... Ah, você é igual às outras.
--O que? Não me compare com as piranhas com que você está habituado.
--Sim podem ser piranhas, mas, quando saem comigo não ficam mostrando as tetas. Comportam-se melhor do que você que é uma mulher de família.
--Seu malcriado, eu não sou nenhuma vaca para ter tetas, viu? Além do mais a bunda é minha, os seios são meus e eu mostro pra quem eu quero.
--Isso eu sei. É só assim que você se realiza. Mas deixa estar... Os anos vão...
--Que vai dizer? Que já estou velha? Olhe-se você no espelho para se ver.
--É, pagaria pra ver como vai ficar depois da carne ficar enrugada você por dentro siliconada. Ainda mais com aquela tatuagem no bumbum.
--Isso não é da sua conta. Você é um homem grosso, cruel, antiquado.
--E você que não tem educação fica ai gritando, gesticulando chamando à atenção de todo o mundo. Mulher de família hein?
--Olha aqui, estou arrependida do tempo que passamos juntos e não quero mais te ver. Vou embora e não precisa me levar. Eu me viro e pego um taxi.
--Justamente eu ia dizer a mesma coisa. Pode ir embora coroa deslumbrada.
Hei garçom, por favor, daria pra esquentar o jantar, ele esfriou. “Caramba, só agora eu vi onde ia amarrar o meu burro. Ah, logo arranjo outra mais simples e sem frescura. Silicone, tatuagem... Ai, ai, ai chega de mulheres postiças”.

Altino Olimpio



Proteção Incontestável

Falam muito sobre o viajar porque ele trás experiências para as pessoas viajadas. Será mesmo? Por que então noto que algumas pessoas voltam as mesmas ignorantes do que eram antes de viajar? Mas, decidi aceitar essa sugestão e por meses me preparei. Comprei uma mala, roupas novas, atualizei o passaporte e chegou o grande dia. Estive sim com medo de turbulência, medo de seqüestro, transvio de malas, tudo em vão. A longa viagem até a Cidade de Pirapora do longínquo Estado de São Paulo transcorreu sem incidentes. Como bons turistas eu e um amigo estivemos num comércio para comprar lembranças do lugar para os familiares. Enquanto estava nas gracinhas com a vendedora o amigo chamou-me de lado para me mostrar algo muito fascinante. Era uma fotografia de uma santa com o seguinte dizer escrito: “Nossa Senhora Aparecida protege esta casa”. Depois ele me mostrou as portas daquele recinto onde não havia mais lugar para colocar outros cadeados. Eram tantos e nós dois caímos na risada. Se alguém soubesse do motivo da risada poderia pensar que éramos loucos, mas, na verdade, quem estaria sendo louco? Será que os cadeados estavam a dar a entender que os donos daquele estabelecimento não confiavam na santa? Nossa! Isso é pecado da contradição. Por falar em contradição a mídia, tempos atrás noticiou uma acontecida, se me lembro, lá em Santa Catarina. Fiéis estavam numa procissão carregando andor e eis que de repente um carro desgovernado a invadiu provocando tumultos. Colocaram o andor no chão para ele descansar um pouco e a seguir tentaram linchar o motorista para ele ser taxista lá no céu. A reza a se ouvir eram os gritos, pontapés e pauladas contra o automóvel do rapaz que ficou todo amassado. A polícia interveio e para protegê-lo “enfiaram” o rapaz do “espalha gente religiosa inofensiva” no veículo policial. O santo do andor, paciente como sempre é, esperou o acalmar dos ânimos para seus fiéis se lembrarem dele e do porque lá estavam. Só esteve um pouco receoso, pois, numa outra cidade, na volta de uma procissão, mesmo sem qualquer atropelamento a distrair os participantes, a santa do andor ao bater com a cabeça no batente da porta da igreja se viu despojada dela. Uma vez também um homem pela televisão publicamente chutou a santa e por causa disso o mandaram “pregar” noutros rincões de outro país. Como podemos notar, aqui neste país nem os santos se livram dos acidentes. Imaginem então os seres humanos, frágeis como são, coitados, eles dependem da sorte para sobreviverem sem esses percalços da vida.

Altino Olimpio

Jardim de Infância para adultos

Está havendo necessidade para algumas pessoas voltarem a freqüentar o aprendizado no Jardim de Infância ou, para elas criar um Jardim de Adultos. Seria para saberem se comportar numa conversa. Pois, elas se utilizam de palavras inapropriadas e com exaltação indevida. Viciadas em interromper conversa elas são bem equipadas com a lei dos opostos no dizer “eu adoro isso ou eu odeio isso”. Se o assunto é sobre alimentos o “eu adoro ou odeio isso” é um exagero. Como se pode adorar ou odiar um alimento? Podemos gostar ou não dele. Pra que esses extremos ao opinar sobre ele? Eu adoro, eu amo, eu odeio. Pra outras coisas também, essas mesmas explanações são utilizadas mesmo quando para elas não há como sentir esses “eu amo, eu adoro, eu odeio”. Percebemos em pessoas vazias suas empolgações por trivialidades por lhes faltar as importâncias com que deveriam conviver. Entretanto, se julgam importantes em seus “eu amo, eu adoro, eu odeio” como se fossem donas das verdades e como se o mundo estivesse concordando com elas. Isso é bem notório em suas ênfases pelo pronome “eu” nas suas exteriorizações “eu sou, eu faço, eu não gosto, eu gosto, eu discordo, eu tenho, eu falei, eu mandei” e etc. Essa comprovação de egocentrismo demonstra a incapacidade humana de não se notar quando se expõe a ridículos, embora, entre os iguais isso não transpareça. Mas, como é fantástico quando conversamos com alguém e o mundo fica esperando para transmitir ao universo o interromper dele com o “isso eu amo, eu adoro, ou, isso eu odeio”. Essas frases curtas estão mesmo a comprovar como os seres humanos são importantes. Coitadinho do mundo se eles se calassem. Ele ficaria sem conhecer esses sentimentos que, como tal, o faz permanecer.


Altino Olimpio