domingo, 13 de junho de 2010

Quem sou eu?

Que mundo é este? Que vida é esta? Sem saber e sem querer apareci neste mundo. Aqui estou e só sei que preciso viver, não há como evitar. Que loucura, viver é não saber o que vai acontecer. Sei que vou morrer, mas, nunca vou saber quando e não depende de minha vontade. Posso morrer quando menos quero. Então, o que quero e o que não quero não são importantes? Não sou dono da minha vida? Que faço aqui então? Tenho na vida momentos felizes e momentos tristes. Tudo isso desfila pelos meus pensamentos. Serei eu um acúmulo de fatos existidos? Por que filósofos do passado disseram que a vida é uma ilusão? Nós por nós mesmos podemos não ter a importância que pensamos ter. A vida existe! Ela se introduz em corpos até quando eles têm condição de mantê-la atuante, isso, antes deles deixarem de existir. Tais corpos são aqueles que nascem, crescem e se reproduzem como os homens, os animais, aves, peixes, insetos, árvores, vegetais e etc. Claro que, a vida se manifesta conforme sejam os corpos onde ela está presente. Pra se manifestar através do homem, ela encontra um corpo melhor desenvolvido, onde pode se expressar como racionalidade e inteligência. Isso faz com que o homem se julgue uma individualidade, uma personalidade independente tendo a vida. Não seria ao contrário? Ao invés do homem ter a vida, não seria ela que o tem? A vida que existe, existe em todos os lugares, continua existindo e o homem deixa de existir, ele morre. A eletricidade e o magnetismo existem, mas ninguém os vê. Todos percebem a manifestação da energia elétrica nos aparelhos elétricos quando eles são ligados. Quando uma lâmpada se queima, isto é, quando ela deixou de iluminar, ela “morreu”. Entretanto, igual à vida, a eletricidade continua existindo, a lâmpada é que deixou de acender. Lâmpadas são substituídas, seres humanos também. Talvez tenhamos decifrado porque os filósofos disseram que a vida é uma ilusão. Ou melhor, a vida não é ilusão. A vida, ela é. O homem, como uma lâmpada tem um tempo de existência e nesse tempo a vida flui através dele até quando ele se “apagar”. No mundo tudo é assim. Tudo o que tem a energia de vida morre. A vida ainda é um mistério. Sabemos que ela anima corpos onde ela está introduzida. Além disso, nada sabemos. Especulações, adivinhações, imaginações sobre o que e para que é a vida temos de sobra. Somos constituídos material e mentalmente para sós termos percepção deste mundo onde existimos. Conceitos humanos para além deste mundo são abstrações até que, alguém prove o contrário. A ilusão dita pelos filósofos do passado está em o homem pensar que ele está na vida quando é a vida que está nele enquanto ele perdurar. Então, o homem está a realizar o que nele a vida requer. Embora pense que é ele que faz da vida como quer, ao contrário, e a vida que o faz como ela quer. Ele nunca sabe o que o espera no dia seguinte, coisas boas ou más podem lhe acontecer. Hoje ele pode estar alegre e amanhã pode acordar mau humorado sem qualquer motivo aparente para isso. A energia vida o que mais ela quer é o manter e a reprodução da espécie. Para isso se utiliza do instinto animal e a este o homem obedece mesmo sem saber. A ilusão está no homem pensar que é o dono de sua vida, quando, pode ser apenas uma marionete dela. A morte lhe vem e com ela expira tudo o que como homem ele foi. Isto está a entender que nada dele permanece e sendo assim ele é um ator temporário pelo qual a vida produz o seu teatro.

Altino Olimpio

Acontecia em bailes

Hei amigo, está gostando do baile abrilhantado por essa orquestra? É um espetáculo, não é? O que? Ah, você quer tirar a fulana pra dançar? Ah, não dá tempo? É rapaz quando a musica começa “esses caras” ai parecem uns desesperados correndo pelo salão para tirar as donzelas para dançar. Faça como eu. Tire-as de longe com um aceno de cabeça. Ela não te olha? Então desista, ela não se simpatiza com você ou pensa que você não é bom de baile. Sei não! Se você for lá tirá-la pra dançar talvez ela te dê taba. Por falar em dar taba, em bailes daqui sempre um rapaz levava uma de uma moça. Mas num dia... Ele foi tirá-la pra dançar e novamente ela recusou. Isso era horrível. A gente ficava com cara de tacho diante das pessoas que estavam próximas e a isso assistiam. O sangue subia, a gente ficava vermelho e perdia o rebolado. Voltando ao rapaz que levou taba, já prevendo isso, naquele dia assim que ela o recusou, ele jogou um punhado de mato no colo dela e falou: já que não quer dançar coma capim então (risos). Rapaz criativo não é mesmo? Também, quando uma moça dava taba em alguém e saia dançando com outro, isso às vezes acabava em briga, eram tapas e socos por todos os lados, principalmente se o “outro” era um sujeito de fora. Orra meu! Olha que cantora gostosa hummmm. Vai rapaz, desembucha, vai tirar a fulana pra dançar. Mas você já viu? Ela com quem dança sempre lhe coloca a mão no ombro para empurrá-lo se ele quiser se encostar muito. O que? Não ouvi, fala mais alto. Ah, entendi. Você disse que ela parece que tem o rei na barriga? (risos) Não penso assim antes de conhecer uma pessoa. Muitas vezes a gente se engana do que possa pensar sobre ela. Bem, eu não vim aqui para conversar com homem. Temos fartura de mulher por aqui, então, vou dançar. Ah, que saco! Quem eu ia tirar já saiu pra dançar. Vem, vamos até o bar, te pago um Martine. Depois voltamos aqui.

A vida é uma dança, sentimos no viver a sua semelhança
Já tivemos ritmos alegres quando muito rimos
Nas perdas vivemos como se tivéssemos perdido seus compassos
Uma melodia a despertar uma saudade ela doía
A vida nos dá um baile quando tira os nossos pares
Como o destino está a nos orquestrar temos que dançar
Que rufem os tambores e afastem os dissabores
Que o repicar da bateria devolva a minha alegria
Ah trompete, nos carnavais fui feliz entre confete
Violinos pareciam sempre estar em meu caminho
Agora, com acordes dissonantes nada mais é como era antes
Com acordes diferentes me vejo descontente.

Altino Olimpio

Onde estão as crianças?

Por que não mais se vê crianças pelas ruas? Antigamente elas estavam em todos os lugares. Brincavam na rua, jogavam bola, rodavam pião, jogavam bolinhas de gude, empinavam papagaio no morro, nadavam em lagoa, colhiam amoras silvestres na mata, pinhão. Crianças iam para as suas mães no armazém. Levar marmita para seus pais no trabalho deles. Sozinhas iam pra escola e na saída, aqueles alaridos ressoavam por todos os lugares por onde passavam de volta para suas casas. Depois, o restante do dia estava à disposição delas para poderem brincar. Já há quem escreveu que hoje as crianças com dez anos já são velhas. Sim, são receptivas, estão sujeitas a muitas informações que não condizem com suas idades. Hoje existem mães exageradas no cuidado com seus filhos: “não fique descalço, não fique no vento, não fique na chuva” e outras coisas que elas proíbem para seus filhos. Nos bons tempos mais as crianças ficavam descalças. Às vezes chutavam pedra e voltavam pra casa com o dedo do pé sangrando, ou, caiam e ai eram os joelhos que se machucavam. E daí? No dia seguinte já estavam prontas pra outras proezas iguais. Que pena, as crianças desta época não têm infância. Hoje, crianças têm essa coisa chamada de vídeo game. Que bom, ficam horas e horas entretidas nisso e muitas mamães ficam felizes aos vê-las sendo condicionadas assim, aprisionadas em casa e livres dos perigos existentes nas ruas. Crianças perderam seus espaços pelo contato com a natureza e tem aquelas que nunca viram uma bananeira. Nunca viram filhotes de pássaros em seus ninhos e outras coisas que mais corroboram para o despertar de suas sensibilidades.
Altino Olimpio

Mulheres difíceis

Hoje se contarmos como eram as mulheres de um passado não tão remoto parece que estamos contando mentiras. O foco de nossas lembranças não poderia ser outro senão Caieiras, local este, onde todos entre si eram conhecidos até parecendo ser uma grande família. A educação, a honestidade, a consideração e o respeito ao próximo eram fatos constantes. Mas, vamos ao que interessa. As moças e os rapazes antes de iniciarem seus namoros, primeiro eles “tiravam linha”. Isto é, ficavam algum tempo trocando olhares onde se encontravam e nisso já se sabia “quem era de quem”. Sim, se apaixonavam antes mesmo de se aproximarem. Depois que isso acontecia um namoro tinha início. No mais das vezes a moça nunca ficava a sós com o rapaz, sempre tinha alguma irmã menor ou uma colega por perto. Acompanhar, levar a moça até o portão da casa dela já era um sinal de boas intenções. Nisso, andar de mãos dadas era a tão deliciosa primeira intimidade. O beijo nos lábios demorava em acontecer, às vezes até mesmo por vários meses. Logo os pais da moça exigiam que ela convidasse o rapaz para o “namoro em casa”, mas, para isso ele teria que pedir o consentimento deles e no ato declarar suas “boas intenções”, no caso, a de se casar com ela. Mais ou menos igual para todos os namoros, o costume era o consentimento de terem um tempo para ficarem a sós na área externa da casa para se despedirem. Só então intimidades mais ousadas eram possíveis. A seguir o rapaz e a moça ficavam noivos de aliança e até com data marcada para o casamento. Em sua maioria as moças em seus namoros daqueles tempos eram bem resguardadas, cautelosas e, se permitiam liberdade sensual, esta, só ia até onde se podia, mas, quase nunca até o desfazer da virgindade delas. Algumas ficavam na “boca do povo” quando os rapazes davam com a “língua nos dentes” sobre suas sensualidades com elas. Nem sempre eram verdades e se eram podiam conter exageros. Como conseqüência tais moças ganhavam o adjetivo de leviana, “deixa marretá” e etc. Aqui está o porquê as moças eram tão precavidas. Aquela até então tradição mantida de “tirar linha”, namorar, noivar e casar proporcionou casamentos duradouros. Muitos casais daquela época ainda estão unidos nestes tempos quando os tempos de outrora ficaram na memória como tivessem sido apenas o enredo de uma história ou um filme de romance que teve fim. Outro filme para continuá-lo nunca mais teve e nem teremos.

Altino Olimpio

Lembrando das procissões

Caieiras no passado foi muito famosa pelas suas procissões, quase todo o povo comparecia. A procissão percorria por várias ruas locais. Um homem ia à frente dela soltando rojões sendo um aviso que a procissão estava chegando. Assim, pessoas que permaneciam em suas casas, de suas janelas podiam assistir a passagem dela. Os rojões subiam lá para o céu e estouravam: Pum... Pum... Pum. Emocionante, em todas as procissões indo logo à frente dela havia um homem soltando pum. O cheiro do pum que o homem soltava era de pólvora. Os rojões eram compridos feitos com vara de picão porque eram leves, retas e sendo assim os rojões subiam a pique, isto é, subiam em linha reta. Eram muitas varas de rojão, mas, o homem que soltava pum na procissão sempre tinha como auxiliar uns garotos que levavam varas do homem. Aquelas varas de picão muito existiam nas matas. Alguém entrava na mata, se esbarrava num pé de picão e pronto, voltava pra casa com picão grudado nas pernas, nas coxas e até com picão na bunda. E, o picão quando encosta-se à carne ele faz cócegas. Era preciso tirar a roupa para ver onde o picão estava grudado. E as donas de casa reclamavam: Eu não quero ver picão aqui na cozinha, não quero picão no quarto e nem na sala. Chacoalhar o picão só lá no banheiro. Se livrar do picão não era fácil. Voltando à procissão, depois de percorrer pelas ruas locais ela retornava à igreja e era quando recomeçava a festa que perdurava até altas horas da noite. A banda no coreto muito animava os participantes. Havia várias barracas como a de quermesse, a de tiro ao alvo, a de pesca, local pra venda de doces e salgados, a barraca do coelhinho que entrava numa das muitas casinhas ao redor dele e a barraca das argolas. As moças eram melhores para encaixar argola. Por isso saiam da festa com mais prêmios que os rapazes. Entretanto, muitos, mais iam às festas para “paquerar” naquele vai-e-vem de pessoas circulando pelos pátios da igreja. Procissões e festas iguais hoje não têm mais.

Altino Olimpio