quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Liberdade prisioneira

E você é livre? É nada! Vive amedrontado até em sua própria casa. Desconfia de qualquer um que encontra na rua. Neste mundo em que “todos são filhos de Deus” e entre eles uma quantidade enorme é bandida, quem é livre? Todas as instituições, inclusive as religiosas falharam ao conter os impulsos satânicos de muitos seres humanos desta época tida como diabólica. Só não enxerga quem não quer. Dentre o povo, sua maioria se encontra perdida e incomunicável entre si diante de tantas distrações “fabricadas” pela mídia. Tais distrações ou distorções ai estão apenas para embrutecer o povo. Este, coitadinho, se adéqua a qualquer costume que é sugerido. Num país muito movido a cerveja e futebol o resultado é visível e nada surpreendente. Conseguiram destruir a capacidade de se indignar com as aberrações humanas. Estas estão por todos os lados, agora toleradas e às vezes até aceitas como normais. O animalzinho chamado homem, ele desde que nasce é programado sem saber. Sua programação já começa na família onde é programado por quem já é. Depois, a sociedade completa sua programação. É quando o vemos sendo mais ou menos igual a todos e sendo parte da massa de manobras. Coitado daquele que conseguir se desprogramar. Esse seria um infeliz. Ver-se-ia entre tantos ignorantes, inclusive seus próprios familiares. Seria mais um dos considerados esquisitos sem ser. Esse acordar do pesadelo da programação, essa libertação talvez seja a tal de iluminação que, sem dúvida é para poucos. Resumindo, quase mais ninguém se é. Todos mais são pelo “o que se é dos outros e estes de outros”. Com a liberdade de ser prisioneiro das comunicações, principalmente das inúteis, com elas mais o povo convive com o que não se relaciona com as necessidades de sua vida. Filtrar o que interessa já se tornou ficção. Entretanto, para aqueles com cérebros desusados devemos sentir orgulho, pois, para eleições são bem preparados.

Altino Olimpio

Saudades das visitas

Antigamente, as famílias se visitavam. Era muito divertido, ainda não existia televisão. Os adultos ficavam na cozinha conversando e as crianças ficavam brincando em outro cômodo. Era uma farra, um atirava coisas no outro e de vez em quando vinha à bronca: Parem com isso, não façam bagunça! E a bagunça continuava. Mas também, os adultos só ficavam falando dos outros. A gente escutava: “Você viu aquela sem vergonha? Bem feito! Ela agora está barriguda. Também pudera a mãe lhe dá muita liberdade. Às vezes ela saia e deixava a moça sozinha com o namorado. Tinha mesmo que dar no que deu. O namoro dos dois era um escândalo, se beijavam em qualquer lugar, parecia que tinham fogo no rabo. Mas viu, e o marido ele não proíbe nada? Que? O marido? Então você não sabe? Ele anda com aquela biscate lá do escritório. Cala-te boca, não é que gosto de fazer fofoca, mas, sei de cada coisa. Sabe a fulana? Sempre num dia da semana ela se arruma e vai pra São Paulo. Pra mim ela tem um macho por lá. Ah é? Faz ela muito bem. Tendo marido chato como ela tem até eu faria isso. Não faço porque meu marido é um santo. Olha, por falar em santo, a outra lá meio parenta nossa aquela sim é que é santa, só trabalha e o marido dela é um bodão. Todo mundo sabe menos ela. Ela sim é que devia botar um chifre nele”. Eram mais ou menos assim as visitas e como crianças não podiam participar das conversas, elas ficavam brincando. Brincar de médico era uma delícia. Fingia-se estar com um estetoscópio e colocavam-se os dedos de uma das mãos nas tetinhas das meninas para ouvir seus corações. Bom era quando a prima falava: Doutor, minha dor é aqui na coxa. Ai que bom! Levantava-se o vestidinho dela, e se dizia: Aqui não precisa de remédio. Deite-se na cama para uma massagem. Que massagem saudosa! Às vezes coincidia o apito da fábrica de papel anunciar vinte e duas horas e as “consultas” ainda não tinham terminado. É bom parar por aqui, mas, esse “voltar ao passado”, foi tão bom. Atualmente parece que mais ninguém se visita. Brincar de médico então, nem pensar. Talvez só em outra reencarnação.

Altino Olimpio

domingo, 12 de setembro de 2010

Amizade ou tolerância?

Amizade! Muito desejável não é mesmo? Mas, não dizem que as boas amizades são quando as pessoas têm o mesmo jeito de ser? Isso hoje é difícil. Cada um tem sua loucura. Uma pessoa que em nada acredita pode se entender com outra que acredita em quase tudo? Se for uma amizade para ambos ficarem calados até que pode dar certo. Quando uma delas começa a falar no que acredita, haja saco para agüentar. Pior é quando uma quer levar a outra onde acredita que é bom. Se a outra recusa a amizade já começa a declinar. Deve ser desgastante ter amizade com quem convive com mentiras e não se consegue lhe abrir os olhos. Alguém já disse: “As pessoas acreditam no que elas querem acreditar”. Nada melhor do que ter amizade com uma pessoa totalmente vazia de conceitos duvidosos, esses que proliferam pelas cabeças ocas da maioria. Quem acredita neles e insiste em exteriorizá-los não é agradável numa conversa com quem é mais realista. Quando é assim, a “amizade” é apenas o “um tolerar o outro”.

Altino Olimpio

Adeus as ilusões

Hei senhor! Como tem passado? Como te estão sendo os dias nessa tua idade já bem avançada? O tempo passou depressa demais. Hoje o senhor já deve ter se livrado de muitas ilusões. Deve ter percebido que tanto falatório, discussões e tantas opiniões lá no passado não serviram pra nada, não é? Já percebeu ou desconfiou que muitas das tuas verdades e as dos outros não eram consistentes. Verdades, pra que servem quando se envelhece e se depara com a realidade que é a proximidade da morte? Já se conscientizou que o senhor não mais faz falta em lugar nenhum? Conseqüência da tua idade e parece que já se habituou a isso. Na tua família, não parece que os filhos vivem em outro mundo? O mundo em que eles vivem é o mesmo em que o senhor já viveu. O mundo das ilusões, das trivialidades, banalidades. Já observou como os animais reagem diante da velhice? Eles não procuram “sarna pra se coçar” como faz os seres humanos. Eles se alimentam, dormem e quase mais nada. Nós é que criamos tanta coisa para pensar, para fazer. Tudo é um passa tempo para esquecer que a morte está se aproximando. Alguns se envolvem e entram nas “ondas dos outros” em práticas que não condizem com suas idades e podem ser um “cair em ridículo” sem saber. Contudo, a velhice traz uma vantagem. É não ter mais saco para ouvir conversa mole dos mais jovens, como se, nada de interesse pudesse vir deles. O sossego deveria estar aliado à idade avançada, mas, vemos que não está nesta época farta de tantas complicações. Dívidas, preocupações, dores, doenças, violência, problemas com familiares e etc. Descubra por si mesmo que na tua idade o melhor é em mais nada se envolver e desfrutar de uma paz que só pode existir dentro de ti mesmo. Como se faz isso? Boa pergunta. Talvez não tenha respostas. Tem coisas que não se consegue responder se quem pergunta preparado não está para entender.

Altino Olimpio