domingo, 15 de novembro de 2009

Tudo terminou

Outrora não era como é agora. Hoje estamos a lembrar e a contar a história de uma existência parecida com uma lenda, presente ainda na consciência, igual a uma música que tanto emocionou e no passado ficou. O lugar parecia abrigar a paz contida numa feliz profecia e hoje que a vida parece tão vazia lembrar dá tristeza e alegria. O apito da fábrica anunciava as horas e elas com minutos mais lentos, naqueles tempos não havia tanto agito no nosso viver sem tormentos. Os dias eram calmos numa guarida para mais se sentir a vida. Nas ruas, crianças nas suas inocentes algazarras tinham o coral do canto das cigarras. As borboletas com seus bate-cores eram o símbolo da vida sem temores. As calmas e longas noites tinham os encantos dos piscas-piscas dos pirilampos. O rádio era o entretenimento onde havia poucas opções de divertimento, mas, naquele costume de receber visitas em casa, elas é que eram as artistas. Aquela gente daquele lugar era mais móvel, mais se via, mais se encontrava, mais se unia mesmo quando não possuía automóvel. Aqui estamos “falando” da antiga Caieiras, lugar este de um povo feliz onde a honestidade e a sinceridade das amizades eram corriqueiras. Aquela Caieiras agora é deserta de moradores mantendo em si apenas as indústrias de papel e suas extensas matas pelos arredores. A maioria daqueles seus habitantes dada ao cultivo da honestidade e amizade já é falecida deixando a doer como uma ferida, a lembrança de que nunca mais seremos como antes. Sendo município desde mil, novecentos e cinqüenta e oito e mantendo seu nome teve como princípio a antiga Vila Cresciuma vir a ser o Centro de Caieiras, onde, devido a sua acidentada topografia não bem a agora cidade se acostuma. Dispersos por este e outros lugares da região, muitos de outrora parecem ser solidão, pois, como antes não se encontram como se encontravam a toda hora, conformados ou inconformados mais vivem isolados. Seus descendentes e mesmo aqueles de parentes existem como se fossem ausentes porque tudo mudou neste agora de amizades apenas aparentes ou convenientes. É, nesta vida tudo passa e é comum entre aqueles dos bons tempos passados o reagirem sobre estes os considerando sem graça.

Altino Olimpio

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Iguais até o fim

Longa fase da vida é o ficar exposto às necessidades que ela impõe como suprir o sustento da família, moradia, educação para os filhos e etc. Nesse longo período de vida o homem entretém na mente tudo o que é pertinente à suas realizações. Contudo, se condiciona a isso e na velhice poucos conseguem se descondicionar, desconciliar suas mentes das realizações obtidas no passado, período em que elas lhes eram mais prementes. Na idade bem avançada o homem “no quem e no como é” ele se vê sendo o que possui ou não, e, na extensão dos seus familiares a partir dele. Mesmo com a morte por perto, ele ainda se pensa dono de tudo o que lhe pertence. O mais comum é ouvi-lo expondo suas ainda importâncias existenciais incompatíveis com a sua situação atual. Demonstrando já muita exaurida suas energias vitais, mesmo assim, permanece ele conectado com fatos e feitos, alheios à necessidade e importância de sua condição atual a caminho do final. Todos chegarão a essa circunstância, contudo, só os mais esclarecidos poderão aliviar suas mentes dessa carga inútil de fatos, de posses e mesmo de desejos, cujas preocupações não condizem com suas maturidades ultrapassadas. Estes, optando na alternativa para suas reflexões, mais do que outros sentirão o fluir da vida dando assim, menos chance ao surgimento dos desagrados.

Altino Olimpio

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Resposta a um amigo

Bem, amigo, com certeza enviando o parecer sobre a vida escrito por Schopenhauer para a moça, coitadinha, isto a despertará de seu sonho ou (mais viável) continuar sonhando lhe será mais conveniente. Sinto-a necessitada de expor suas idéias ou conclusões sobre a vida, ainda mais que reencontrou um amigo da adolescência. A leitura do filósofo já me era conhecida. Esse nosso filósofo parece mesmo que não deixou nada de lado. No dele decorrer das situações da vida me vi espelhado nelas e com as mesmas, não tendo como evitar tive as mesmas conclusões. Como seria bom podermos aconselhar nossos filhos a permanecerem quietos como "fiquem sentados, comam e durmam, pois, nada, além disso, interessa (risos)", mas, sendo como nós, prisioneiros das contingências da vida e o pior, do sistema imposto pela sociedade, o conselho mais usual é "estudem para melhor poderem se proteger dentre as competições para sobreviver. "Entretanto, nestes tempos de tantos adoecidos mentais, ao pensar que alguém ouve alguém é utopia. Cada um está inserido na facilidade e mesmo na "inevitabilidade" com que o condicionamento das massas o educa, ou melhor, caduca. Adoecidos mentais aqui estão a significar a maioria dos seres humanos irrefletidos, entretidos que estão no que da vida não é. Entabular conversa com um ser humano tornou-se um tormento. Parece que nenhum se salva das idiotices a que estão expostos e os "bem intencionados" (coitados) nos querem tornar coniventes com elas. Enfim, todos os enganos e engodos lhes servem para se distraírem na vida traídos pelo improvável da pós-vida. Tais assuntos sempre são oriundos de pessoas desprotegidas da capacidade de perceber as irrealidades de suas crenças ou imaginações. Não há mais o receio de se colocar em ridículo. Como sempre, mas, hoje mais, o mundo conta com inumeráveis organizações em prol dos desvios da realidade. Nisso a maioria dos seres humanos se locupletam. Então, o esvair-se em imponderáveis não é ridículo entre eles e nem entre outros de pensar diferente deles. Sendo assim, coitado daquele que por "azar" é consciente dos tantos disparates acreditados e propalados, ele tem mesmo que se isolar, ou então, fingir ser como os outros se é necessitado de dar e receber aquele "amor ao próximo". Isto existe sim, diariamente se observa na cada vez maior incidência de honestidade e despretensões entre as pessoas, pelo menos, em nosso país tido até como exemplo.

Altino Olimpio

domingo, 1 de novembro de 2009

Mais um do Zé

Que tempos bons aqueles de criança de antigamente. Diferentes dos de hoje, as crianças se divertiam muito mais. Indo direto a uma das brincadeiras daqueles tempos, eu e o conhecido Zé Polatto tivemos a mania de separar as palavras em sílabas, cada um pronunciava uma delas nas suas sequencias. Ao vermos um cavalo eu começava a soletrar “Ca”, ele “va” e eu terminava “lo”. Vendo a ponte de madeira o Zé começava “pon”, eu continuava “te”, a seguir ele “de” depois eu “ma” ele outra vez “dei” e eu terminava “ra”. Assim nos divertíamos até com os nomes das pessoas que encontrávamos pronunciando as sílabas de seus nomes em alta voz. Uma vez, estávamos nós na estaçãozinha da maquininha e a mesma estava repleta de pessoas aguardando-a chegar para embarcarem do Bairro da Fábrica de Papel para Caieiras. Haviam muitas pessoas sentadas nos bancos e outras de pé na plataforma. Eu e o Zé estávamos sentados num dos últimos bancos quando chegou o Seu Curitiba, apelido este de um homem muito conhecido naquele lugar. Com uma cotovelada apontei-o para o Zé intimando-o: Vai Zé é a tua vez comece bem alto. O Zé não deixou por menos e gritou: Cuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu. Eu fiquei calado e o Zé me dando cotoveladas disse: Vai logo é a tua vez, fala “ri” logo. Mas, permaneci calado. Nisso, algumas pessoas dos bancos à nossa frente olharam para trás e eu vi o Zé ficar todo vermelho de vergonha e foi quando eu cai na risada. Que teriam pensado daquele menino gritando um palavrão em público? Menino malcriado sem educação. Quando o Zé se deu conta daquela “pegadinha” reagiu me ameaçando “você me paga, eu vou me vingar, você vai ver”. Vendo-o com aquela cara de zangado meu ataque de riso não terminava. O Seu Curitiba, coitado, só ficou com a primeira sílaba do seu apelido. Contudo, a chegada da maquininha e o retorno dela pra Caieiras deixaram o silêncio, eu e o Zé na estaçãozinha, local este das boas lembranças tidas hoje.

Altino Olimpio

Ficou na saudade

Desprendido corporalmente e inconsciente quanto a tempo e espaço depois de uma viagem espiralada e infindável e agora com o corpo psíquico num púlpito perante divindades conscientizo estar no meu julgamento final. Atendendo a uma ordem telepática enviada por uma das autoridades celestiais inicio meu relato:

“Até onde me lembro, num dia do mês de agosto, meu espírito, talvez predestinado, pairou sobre uma modesta casa e no momento propicio, encarnou no seio de uma família simples.

Na casa, incrustada na parede externa, havia até uma placa alusiva ao ano de sua construção, o mesmo que nasci 1942.

A Natureza recebeu-me em seus braços, propiciando-me um enorme panorama e integrou-me nele tendo a mata, o rio, os pássaros com seus cantos, o zumbido das abelhas e os beija-flores coloridos confundidos com as flores silvestres.

Foram dias quentes ensolarados com a sinfonia das cigarras e a coreografia hipnótica das borboletas se intercalando com o frescor proveniente das fortes chuvas de verão com se posterior aroma peculiar.
Da infância à puberdade, habitualmente descalço como era costume nadei em lagoas. Percorri por entre as paisagens verdes arborizadas degustando seus frutos e no resvalar suas vegetações, tantas vazes roubei-lhes o orvalho.

O paraíso particular que descrevo pertenceu a um imenso coração alemão pulsando a mais de cem anos sendo seu nome, Indústria Melhoramentos de Papel.

Aquele meu pequeno mundo chamava-se Bairro da Fábrica e ladeado por outros bairros e vilas, incorporava o antigo distrito de Caieiras, cujo nome deu origem ao então de hoje Município de Caieiras do Estado de São Paulo. Seus moradores formaram uma única e grande família e tinham seus clubes para entretenimento.
Seus bailes, seus carnavais familiares e suas festas de 1º de maio --feriado do dia do trabalho-- permanecem nas lembranças dos seus remanescentes.

A descontração daquele povo era revelada nos incontáveis apelidos que identificavam sua gente. Havia até um local de encontro chamado “Pau de Amarrá Égua”.

Em muitos, meu olhar percorreu os zigue-zagues de suas rugas, pousou nos seus cabelos brancos e os acompanhou quando seus passos foram se tornando lentos até que a vida os abandonou. A morte muitas vezes enlutou todos! Por isso, vi lágrimas nos pais, nos filhos, nos parentes e muito me condoí dos seus desesperos.
Minhas lágrimas também umedeceram aquele solo querido quando acidentalmente e precocemente alguns desencarnaram.

Desculpem... ... Viajei pelas lembranças e me esqueci do porque estou aqui.
Sei que devo discorrer sobre minha vida!
As ambições de jovem inexperiente em busca de novas experiências, como também, aprimoramento profissional e intelectual causaram minha queda daquele paraíso. Depois, muitos dos caminhos que percorri, estavam repletos de espinhos... ... Mesmo caminhando por eles... ... ...

Por favor! Se for permitido prefiro protelar os detalhes sobre a minha vida. Inexpressivo como fui, seria monotonia.

Fui feliz onde nasci e com aquele pessoal. Se havia alguma missão a cumprir... Esqueci, pois, apaixonei-me por eles.

Portador de emoções humanas como o orgulho e a vaidade e por relutar em desvencilhar-me delas devo ter fracassado na existência incorporada.

Ultimamente sentia-me cansado por ouvir tantas conversas inúteis e conviver nas atuais circunstâncias ouvindo os insensíveis e observando os valores da vida sendo distorcidos.

Meus passos também estavam se tornando lentos e no espelho, meus olhos já brincavam de labirinto, através dos sulcos do meu rosto.

Merecedor ou não, recuso recompensas e dispenso também a música das esferas.
QUERO! Gostaria! Preciso tanto ouvir badalar de sinos.

Desejo muito rever aquele pessoal de Caieiras, aqueles já falecidos. Em vida, eles invadiram-me pelas pupilas... Seus sorrisos e fisionomia enriqueceram-me subjetivamente... ... Eles... MEU DEUS! Estão surgindo todos! Não consigo mais me controlar! As lágrimas...

Amigos, amigos! Quantas saudades! Quantas saudades!”

BLEM... BLEM... BLEM… BLEM-BLEM… BLEM… BLEM… BLEM… BLEM-BLEM… BLEM… BLEM… BLEMMMMMMM.

Altino Olimpio